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A história de “Turbo”, controverso álbum do Judas Priest

Impulsionado por MTV, ascensão do glam metal e avanço das tecnologias digitais em estúdio, grupo entregou o disco que era o reflexo perfeito de seu tempo

Um dos aspectos que diferenciam o Judas Priest de muitos de seus contemporâneos no universo do heavy metal é a diversidade musical ao longo de sua carreira. Poucas bandas do gênero transitaram por sonoridades tão distintas mantendo, ainda assim, uma identidade. Basta comparar “Painkiller” (1990) com “British Steel” (1980) para perceber como o Priest nunca se acomodou em uma única fórmula.

Ao longo desse percurso, vários experimentos foram realizados. Nenhum deles, porém, provocou — e continua provocando — tanto debate quanto “Turbo”, o décimo álbum de estúdio da banda, lançado 40 anos atrás.

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O disco divide opiniões. De um lado, é celebrado por fãs de glam metal que enxergam na obra um reflexo legítimo da estética oitentista. De outro, segue sendo contestado por setores mais puristas do público, que veem em sua abordagem mais radiofônica um afastamento do viés mais tradicional do gênero.

Eis aqui a história.

Turnê gigantesca, ambições e novas ideias

Entre 20 de janeiro e 13 de setembro de 1984, o Judas Priest percorreu os Estados Unidos e outros países promovendo seu nono álbum de estúdio, o platinado “Defenders of the Faith” (1984). A denominada Metal Conqueror Tour consolidou a banda como um dos principais nomes do heavy metal de arena, com apresentações de grande porte — incluindo uma noite particularmente caótica no Madison Square Garden, em Nova York. Na ocasião, danos causados por fãs resultaram em um banimento permanente do grupo do local.

De volta para casa e com o décimo aniversário do contrato com a CBS Records se aproximando, o Priest começou a discutir planos ambiciosos para o vindouro lançamento. A ideia inicial era produzir seu primeiro álbum duplo. Batizado provisoriamente de “Twin Turbos”, o projeto reuniria cerca de 18 faixas e seria vendido ao preço de um LP simples, como uma espécie de presente aos fãs. Paralelamente, também se cogitou lançar um álbum duplo ao vivo que registrasse a grandiosidade da turnê de “Defenders”.

Ambos os planos, no entanto, acabaram vetados pela gravadora. O álbum seria simples e o ao vivo duplo ficaria para depois.

Com um repertório abundante à disposição para selecionar as faixas finais e mais tempo do que nunca para trabalhar em estúdio, o Priest decidiu experimentar. Pela primeira vez, a banda gravaria utilizando tecnologia digital e incorporaria de forma mais evidente os sintetizadores de guitarra. Poucos meses depois, o Iron Maiden adotaria recurso semelhante em “Somewhere in Time” (1986).

Em entrevista ao biógrafo Martin Popoff para o livro “Judas Priest: Heavy Metal Painkillers” (ECW Press, 2007), o vocalista Rob Halford relembrou o ambiente criativo da época:

“Conseguimos dedicar bastante tempo à composição das músicas para este LP e, como não estávamos sob muita pressão de tempo, pudemos explorar áreas que não tínhamos considerado antes.”

Além da busca por novas texturas sonoras, o grupo também decidiu apostar em composições mais radiofônicas. O raciocínio era simples: as canções mais acessíveis costumavam ser também as que obtinham maior repercussão. Em um cenário dominado por nomes como Mötley Crüe, Ratt, Dokken, Quiet Riot, Def Leppard e Twisted Sister — bandas que conquistavam grande visibilidade na MTV e vendiam milhões de cópias —, o Priest enxergava a oportunidade de ampliar ainda mais seu público.

Em sua autobiografia “Heavy Duty” (Estética Torta, 2021), o guitarrista K.K. Downing descreveu o contexto cultural que cercava a banda após a extensa turnê americana:

“Tínhamos acabado de voltar de uma extensa turnê pelos Estados Unidos com os sons e as imagens do país frescos nas nossas mentes. Curtindo nosso dia a dia como uma banda de rock em turnê, absorvemos tudo normalmente sem fixar nada para o futuro. Certas coisas foram inevitáveis naquela turnê pelos Estados Unidos, no entanto. Uma foi o sexo casual em abundância, A outra foi a MTV. As coisas estavam mudando em 1985 — e pareciam estar mudando para melhor. O clima geral era de otimismo; parecia que o sol brilhava mais do que antes, que as garotas eram mais gostosas, que os show viviam lotados, enquanto, ao fundo, videoclipes eram exibidos 24 horas por dia, sete dias por semana.”

Assim, quando a banda chegou à praia de Marbella, na Espanha, para iniciar as sessões de composição, era inevitável que carregasse consigo o espírito da época. Na autobiografia “Confesso” (Belas Letras, 2022), Halford descreve aquelas primeiras sessões de composição como “… interessantes”. Segundo ele, a supracitada nova tecnologia acabaria sendo decisiva para definir o rumo do disco:

“A Hamer, uma marca americana de instrumentos musicais, mandou para Glenn [Tipton, guitarrista] uma novíssima guitarra sintetizadora cheia de fru-frus chamada A7 Phantom. Quando ele botou a pedaleira para funcionar no início de uma das músicas em que estávamos trabalhando, produziu um barulho que parecia o ronco de uma moto. ‘Ei, isso aí parece o ronco de um motor turbo!’, falei. Esse momento nos rendeu o título do álbum, e a música virou ‘Turbo Lover’.”

Downing reforça a importância desse momento em “Heavy Duty”:

“‘Turbo Lover’ basicamente se escreveu sozinha em cima do efeito sonoro, e depois que Rob adicionou uma das suas melhores letras sobre sexo, soubemos que tínhamos nela a música que dava o tom do álbum.”

Ao comentar a temática da letra de “Turbo Lover” em “Confesso”, Halford não ficou de enrolação:

“‘Turbo Lover’ é uma música sobre sexo no carro. Isso é flagrante e bastante gráfico. O motor rugindo no meio das minhas pernas foi mais um exemplo de como eu inseria referências a pau nas letras do Judas Priest. Gosto de pensar que essa é uma tradição nobre.”

A partir dali, outras músicas surgiram rapidamente, incluindo “Locked In”, “Private Property” e “Wild Nights, Hot & Crazy Days”. O material novo apresentava uma atmosfera mais leve — e não apenas do ponto de vista sonoro. Downing também destaca que as letras de Halford haviam mudado de direção:

“As letras de Rob eram mais animadas também e falavam sobre festas, amor e sexo, substituindo as inclinações soturnas de ficção científica que pareciam ser o foco dele na época do ‘Screaming for Vengeance’ (1982) e do ‘Defenders of the Faith’.”

Das músicas compostas durante aquele que se tornou um dos períodos mais férteis do trio criativo formado por Rob, Glenn e K.K., apenas nove acabariam integrando “Turbo”. Outras quatro — “Ram it Down”, “Hard as Iron”, “Love You to Death” e “Monsters of Rock” — seriam reaproveitadas no disco seguinte, “Ram It Down” (1988). Já “Red, White & Blue”, “Prisoner of Your Eyes” e “All Fired Up” apareceriam anos depois como faixas bônus nas reedições remasterizadas do catálogo da banda. Duas composições da época, “Under the Gun” e “Fighting for Your Love”, permanecem inéditas até hoje.

Crises pessoais por trás de um disco festivo

Era o início de uma nova fase criativa para o Judas Priest — uma que refletia com clareza as transformações culturais e musicais do metal em meados da década de 1980. As faixas mais otimistas e festivas de “Turbo” revelavam, porém, outra habilidade de Rob Halford: a capacidade de esconder, por trás da escrita, um momento extremamente turbulento em sua vida pessoal.

Naquele período, Halford já se reconhecia como alcoólatra e dependente de cocaína — situação agravada pela pressão de manter sua homossexualidade em segredo em um ambiente dominado pela imagem heteronormativa do rock. Enquanto o caos típico do estrelato se desenrolava ao redor, sua vida privada também entrava em colapso.

A Martin Popoff, o vocalista relembrou um episódio particularmente traumático envolvendo um antigo parceiro:

“Meu namorado naqueles dias era dependente de cocaína. Entre nós, a atração era tão forte quanto a violência; nos espancávamos com frequência, alimentados por bebida e pó. Um dia, no auge de uma briga, decidi sair para me proteger. Chamei um táxi e, quando eu já entrava no veículo, ele veio se despedir: ‘Olha, eu só queria que você soubesse que te amo muito.’ Foi quando ele se virou que vi o revólver. Momentos depois, ele o apontou para a cabeça e se matou na minha frente.”

Apesar da discrição de Halford na época, a situação acabou sendo percebida pelos colegas de banda. K.K. Downing recorda que o comportamento do vocalista havia mudado significativamente:

“Ficou claro que Rob estava com sérios problemas, cuja extensão ou natureza não fazíamos ideia na época. Tudo o que sabíamos era que seu relacionamento não andava bem das pernas e, como resultado, ele vivia ou no mundo da lua, mal-humorado ou, às vezes, parecia completamente desmotivado para trabalhar — não que seu desempenho vocal deixasse isso transparecer.”

Halford, porém, não era o único enfrentando problemas de relacionamento naquele período. O próprio Downing atravessava o fim de um namoro de cinco anos com Carol Hiles. Em sua autobiografia, o guitarrista relembra que passou boa parte de 1985 tentando, sem sucesso, reatar a relação.

“Embora Carol tivesse me dito que queria se separar, passei grande parte de 1985 tentando — de forma bastante egoísta, reconheço — consertar as coisas remotamente (…) Na verdade, ela parecia ainda mais inflexível quanto ao fim do nosso relacionamento. A ausência não tinha aumentado a afeição dela por mim; ao contrário, ela parecia ainda mais indiferente à minha existência. Porém, isso só me fez implorar mais e mais por uma reconciliação.”

Em uma tentativa desesperada de salvar o relacionamento, K.K. chegou a pedir Carol em casamento — em vão.

‘Você nunca me perguntou isso. Por que devo dizer sim agora?’, perguntou ela. Ela tinha um bom argumento. Além disso, havia outra razão pra ela rejeitar aquele meu último esforço. Embora eu não tenha ficado sabendo na época, descobri depois que ela estava tendo um caso com um cara da região. Eu deveria ter imaginado. Um pássaro raramente voa do ninho até que tenha emplumado outro, segundo o ditado.”

Enquanto Downing tentava lidar com o fim da relação, Halford buscava ajuda para seus próprios problemas. Em 6 de janeiro de 1986, pouco depois de um ensaio para a turnê de “Turbo”, o vocalista deu entrada em uma clínica de reabilitação. Não era a primeira vez que isso acontecia: no ano anterior, uma overdose de Percodan já o havia levado ao hospital.

Depois de 33 dias internado, Halford deixou a clínica sóbrio — e determinado a permanecer assim.

Já no caso do guitarrista, restou aceitar o fim definitivo do relacionamento. Abalado com a descoberta de que Carol já se envolvera com outra pessoa, Downing decidiu, ainda assim, encerrar a história de maneira generosa: transferiu para ela a casa geminada que possuíam na Inglaterra, além de lhe dar um carro e desejar o melhor para o futuro. Posteriormente, ele soube que a ex havia sido internada para tratar problemas relacionados ao álcool, e nunca mais a encontrou.

Gravações nas Bahamas e aposta em tecnologia digital

Após as sessões de composição na Espanha, o Judas Priest voltou a trabalhar com o produtor Tom Allom e seguiu para as Bahamas em junho de 1985. O destino era o lendário Compass Point Studios, em Nassau — um complexo de estúdios residencial bastante procurado por artistas internacionais e que, à época, possuía um dos primeiros sistemas de gravação digital da Sony.

A Martin Popoff, K. K. Downing relembra a escolha do local:

“A gente escolheu aquele lugar pensando que, morando no estúdio, o trabalho fluiria melhor e ficaríamos totalmente concentrados. Era meados dos anos 1980, e trabalhar sob o sol trazia uma vibe ótima, mas nos fez notar que algumas músicas, mesmo sendo boas, não batiam com o restante do álbum. ‘Vamos focar no que é classe A e segurar o resto’, combinamos. Foi o que aconteceu.”

Seguindo a linha dos dois álbuns anteriores, a bateria em “Turbo” exibe o tratamento processado característico do heavy metal dos anos 1980. No entanto, com a adoção dos sintetizadores de guitarra, a sonoridade passou a abraçar de vez a estética da época. Em “Confesso”, Rob Halford admite que a banda previa a controvérsia desde o início:

“Não pegamos leve ao incorporar os sintetizadores de guitarra. Sabíamos que muitos fãs do Priest considerariam os sintetizadores bunda-mole, e, bem, nada metal, e que utilizá-los seria controverso. Por muitos anos, uma das minhas bandas favoritas, o Queen, ostentava orgulhosamente os seguintes dizeres nos créditos de seus álbuns: ‘NENHUM SINTETIZADOR FOI USADO NA GRAVAÇÃO DESTE DISCO.’ Porém, o som desses equipamentos era tão poderoso e eles nos davam tantas novas texturas para experimentar que apostamos neles. Não vimos isso como uma ‘traição ao heavy metal’ ou alguma bobajada do tipo. Nossa filosofia é a seguinte: o Priest é uma banda de metal, e nós fazemos o que queremos, e o resultado final é sempre metal.”

Para Glenn Tipton, a busca por novas possibilidades sonoras sempre fez parte da identidade do grupo. Ele explicou a Popoff:

“Sempre fomos atrás de novos horizontes. O som do Priest é inconfundível, mas nunca aceitamos o comodismo. Muita banda por aí lança o mesmo álbum a vida toda, só trocando as letras, mas esse nunca foi o nosso caminho. A gente sempre teve peito para inventar moda, mesmo apanhando por isso. O público nem sempre entende na hora, e talvez nem sempre a gente tenha razão, mas o importante é tentar. Com o ‘Turbo’, a ideia das guitarras sintetizadas era trazer algo inédito para o metal, abrir espaço para a gente e para quem viesse depois. Fomos massacrados na época, só que hoje, se você vir o Priest tocando ‘Turbo Lover’ ao vivo, percebe que não é brincadeira. É uma música muito, muito pesada.”

Também a Popoff, Halford destaca que a adoção da gravação digital abriu novas possibilidades técnicas durante a produção:

“As músicas, a performance e a produção… tudo se alinhou perfeitamente. Acho que é um álbum mais sofisticado, até pelo estilo de gravação que adotamos. Isso nos abriu portas técnicas que nunca havíamos cruzado, aprimorando cada detalhe do som. Ficamos boquiabertos com o que ouvíamos no estúdio. Quem trabalha com gravação há tanto tempo quanto a gente percebe logo a diferença: no digital, você consegue uma separação sonora muito melhor, sem nada encavalado. E como sabíamos que o CD era o futuro, gravar digitalmente era a decisão lógica.”

Durante as gravações, o Compass Point recebia outro artista de grande sucesso: o cantor espanhol Julio Iglesias. A presença do astro latino acabou gerando rumores — breves e infundados — de que o Judas Priest estaria gravando uma música com ele.

Tipton explicou a origem da história:

“Eu sei direitinho como isso rolou. A gente gravou no mesmo lugar que o Julio duas vezes, uma na Flórida e outra em Nassau. Num desses estúdios, descobrimos que a Sony tinha comprado uma Ferrari Testarossa para ele por causa das vendas — o que nos deixou putos, porque também éramos da Sony e ninguém nos deu nada. Fora que o cara andava sempre com várias mulheres, então ele virou nosso herói. Mas papo de gravar juntos? Nunca rolou. Teria sido engraçado. Se ele me passasse a chave da Testarossa, eu com certeza deixaria ele cantar conosco! (risos)”

“Turbo” não teve Julio Iglesias, mas contou com uma colaboração discreta de Jeff Martin, então vocalista da banda Surgical Steel e amigo de Halford em Phoenix. Martin foi convidado a passar duas semanas nas Bahamas com a esposa, com todas as despesas pagas, ajudando informalmente nas sessões. Ele contribuiu com um verso da letra e gravou backing vocals em “Wild Nights, Hot & Crazy Days”, embora não tenha sido creditado oficialmente.

Anos depois, outra conexão curiosa surgiria: Martin se tornaria integrante do Racer X, banda que revelou o baterista Scott Travis — futuro membro do Judas Priest a partir de “Painkiller”.

Oportunidade perdida em Hollywood

No fim de 1985, “Turbo” estava praticamente concluído. Restavam apenas os ajustes finais: overdubs, gravação de vocais e a mixagem. Parte desse trabalho foi realizada em Miami, enquanto a etapa final ocorreu no Record Plant Studios, em Los Angeles.

Esse período ficou marcado por uma decisão que o próprio K.K. Downing recordaria em “Heavy Duty” como um verdadeiro tropeço da banda no campo cinematográfico.

Segundo Downing, o Judas Priest recebeu um convite para incluir uma das músicas de “Turbo” na trilha sonora de um filme estrelado por Tom Cruise. A proposta foi intermediada pelo empresário da banda na época, Bill Curbishley. “Aparentemente, a Sony tinha sido abordada pelos responsáveis pela trilha sonora de um filme chamado ‘Top Gun’, com lançamento previsto pra 1986”, relatou o guitarrista.

Mais especificamente, os produtores demonstraram interesse em utilizar a faixa “Reckless”. No entanto, os integrantes do Priest não ficaram convencidos com a ideia e concluíram que o enredo não parecia particularmente promissor. Além disso, os músicos não queriam retirar a música da tracklist de “Turbo”, onde ela havia sido posicionada estrategicamente como a faixa de encerramento, pensada para proporcionar um final grandioso ao álbum. K.K. recorda:

“Pesquisamos as informações que estavam disponíveis sobre o longa. Parecia ser um misto de romance com drama militar. ‘Sei lá’, disse uma pessoa cuja identidade permanecerá em sigilo. ‘Soa como um fracasso para mim’.”

A história, claro, tomou um rumo bem diferente. Lançado em 1986, “Top Gun” tornou-se o filme de maior bilheteria daquele ano e um dos títulos mais populares do cinema comercial da década. O longa arrecadou cerca de US$ 356 milhões mundialmente — valor muito superior ao orçamento estimado em US$ 15 milhões — e sua trilha sonora, impulsionada por sucessos como “Danger Zone”, de Kenny Loggins, também alcançou enorme repercussão.

Em “Confesso”, Halford ironizou a cagada com uma simples frase: “Jogada de mestre, hein?”

Vergonha é roubar e não poder carregar

Após um longo processo de gestação, “Turbo” finalmente chegou às lojas em 7 de abril de 1986. A recepção inicial foi mais para positiva, embora parte dos fãs tenha torcido o nariz para a presença dos controversos sintetizadores de guitarra. Ainda assim, o disco renderia dois dos maiores sucessos do grupo nos Estados Unidos: “Turbo Lover” e “Locked In”.

“Turbo Lover” foi lançada como primeiro single, com “Hot for Love” no lado B para o mercado britânico, simultaneamente ao lançamento do álbum. Três meses depois, a edição americana saiu com “Reckless” no lado B. O videoclipe da música mostrava a banda cruzando o deserto em motocicletas, filmadas em um estilo visual que utilizava infravermelho, enquanto eram perseguidos por uma espécie de robô feito de sucata com cabeça de caveira.

O segundo single, “Locked In”, saiu em seguida. Nos Estados Unidos, trouxe “Hot for Love” como lado B; no Reino Unido, “Reckless”. Já a versão britânica em vinil de 12 polegadas incluía ainda gravações ao vivo de “Desert Plains” e “Freewheel Burning”.

No clipe, Rob Halford é capturado por um grupo de mulheres em um cenário à “Mad Max” com sérias restrições orçamentárias. Suspenso de cabeça para baixo em uma maca giratória, ele acaba sendo resgatado por Glenn Tipton e K.K. Downing, que neutralizam um segurança gorducho usando uma rosquinha como distração. O baterista Dave Holland e o baixista Ian Hill apenas observam a operação de resgate.

Apesar de fazer mera figuração — e dos contornos levemente trash do vídeo —, Hill descreveu “Locked In” como o clipe mais elaborado já produzido pela banda:

“Foi uma produção gigante, papo de dois ou três dias de gravação. Fizemos ‘Locked In’ e ‘Turbo Lover’ em L.A., onde o mercado acontece. Na parte financeira, você recebe um adiantamento para os clipes, mas tem que devolver tudo depois — a banda acaba pagando quase tudo do próprio bolso. Mas a gente não se queixa. Isso ajudou demais a promover o disco e garantiu milhares de cópias a mais vendidas. O gasto se pagava no final. Sem contar que dava para lançar o clipe separado, como a gente fez, e faturar mais um pouco.”

Ambos os clipes, junto com todos os outros produzidos pelo Priest desde 1980, seriam posteriormente reunidos na coletânea em VHS “Fuel for Life”, que receberia disco de ouro em abril do ano seguinte.

Embora “Turbo” tenha registrado números respeitáveis — atingindo a 33ª posição no Reino Unido e a 17ª nos Estados Unidos —, seus singles e videoclipes falharam em converter essa exposição em posições nas paradas. Enquanto o desempenho em solo americano equiparava-se ao de “Defenders of the Faith” (que chegara ao 18º lugar), o recuo em terras britânicas foi notável, caindo 14 postos em relação ao antecessor. Esse abismo estatístico reforçava a tese da época: os americanos estavam muito mais abertos a um metal de estética polida e apelo radiofônico do que os ingleses. Mas, se as vendas estagnaram logo após a conquista do disco de platina, a estrada contava uma história diferente: o Priest lotava arenas dignas de bandas que vendiam cinco vezes mais álbuns.

Em retrospecto, os integrantes defendem “Turbo” como um passo consciente na evolução da banda. Mesmo que tenha admitido em “Confesso” que os títulos das faixas eram “puros clichês” e “nada metal”, Halford pondera: “Acho que se tivéssemos vergonha de ‘Turbo’, nunca o teríamos lançado.”

Por outro lado, Hill foca nos benefícios práticos dessa mudança estética. A Popoff, o geralmente caladão baixista destacou que o disco trouxe sangue novo aos shows e que se tornou um marco justamente por sua identidade única.

Judas Priest – “Turbo”

  • Lançado em 7 de abril de 1986 pela CBS Records
  • Produzido por Tom Allom

Faixas:

  1. Turbo Lover
  2. Locked In
  3. Private Property
  4. Parental Guidance
  5. Rock You All Around the World
  6. Out in the Cold
  7. Wild Nights, Hot & Crazy Days
  8. Hot for Love
  9. Reckless

Músicos:

Rob Halford – vocais
Glenn Tipton – guitarras, synth guitars
K.K. Downing – guitarras, synth guitars
Ian Hill – baixo
Dave Holland – bateria

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

1 COMENTÁRIO

  1. excelente artigo, como de costume, para conhecimento dos mais novos da fascinante história de um ótimo disco na carreira de uma das maiores bandas da história, informações corretas e assertivas, confirmadas por quem viveu a época intensamente, parabéns.

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