O Tribulation nem tomou conhecimento da folia que espalhava glitter por incontáveis bloquinhos de rua em São Paulo no último sábado (14). No retorno à capital paulista, após a estreia no país no Setembro Negro de 2022, a banda sueca transformou a acanhada Burning House num inferninho para sua mistura fantasmagórica e melódica de heavy metal e música gótica.
Por uma hora e 20 minutos, o carnaval ficou do lado de fora. Cerca de metade da pista, numa casa para 400 pessoas na zona oeste da cidade, esteve ocupada em um show daqueles que deveriam ter sido vistos por muito mais gente.
Para azar do Tribulation — ou dos paulistas —, de novo a data não foi das melhores. Emendando uma turnê pela América Latina após participar do cruzeiro 70,000 Tons of Metal, sobrou o feriadão de carnaval para o show final dos suecos no continente. Já em sua única apresentação anterior no Brasil, durante o festival Setembro Negro em 2022, o grupo subiu ao palco do Carioca Club no mesmo dia em que o Iron Maiden tocou no Morumbi.
Neste ano, o quarteto sueco cruzou o oceano desfalcado de seu baterista Oscar Leander. As baquetas ficaram sob o comando da brasileira Luana Dametto, da Crypta. O primeiro show completo do grupo no país, assim, teve um apelo especial.
O início
No horário marcado para o início da apresentação, as luzes se apagaram. A espera, porém, se estendeu por meia hora, embalada por trilhas instrumentais de terror italiano dos anos 1970, incensos e fumaça de gelo seco. Quando finalmente o sistema de som da casa passou a tocar com toda a potência o tema introdutório do show, foram outros cinco minutos de tensão até os músicos subirem no palco.
Seus quatro membros usavam no rosto uma maquiagem branca fantasmagórica. Um desavisado a vê-los andando pela rua poderia até pensar que estavam fantasiados para algum bloquinho de tema gótico. Mal precisou soar o primeiro acorde da tensa “The Unrelenting Choir” na Burning House para essa ideia ir por água abaixo. O tom sinistro da noite, com iluminação vermelha forte, ganhou melodia e participação maior do público na cativante “Tainted Skies”.
O apelo de cada integrante
As duas músicas do disco mais recente “Sub Rosa in Æternum” (2024) logo de cara evidenciaram o aumento da influência pós-punk com a adoção da voz grave e limpa ao canto ligeiramente urrado de Johannes Andersson, também baixista e membro fundador do grupo. Com volume no talo, o sistema de som da Burning House sofria quando Andersson aumentava a distorção de seu Rickenbacker. Ao cantar mais rasgado, demorou até sua performance deixar de ficar soterrada na equalização. As guitarras, felizmente, estiveram nítidas por toda a noite.
A interação das bases rítmicas entre o fundador Adam Zaars e Joseph Tholl nas seis cordas é central para a construção das atmosferas sombrias típicas do grupo. Seus fraseados melódicos funcionam como contraponto e catarse ao clima trevoso. Como toda boa dupla de guitarristas, os músicos alternaram solos e posições no palco, fizeram pose, juntaram-se na hora dos duetos e mexeram com o público, cada um ao seu modo.
Zaars se postou imponente como dono da banda que virou com a saída de Jonathan Hultén. Tholl, por sua vez, mostrou estar à vontade no posto do ex-integrante, fundador e principal compositor, que deixou a formação após gravar “Where the Gloom Becomes Sound”. O disco de 2021 foi representado apenas por sua cadenciada faixa de abertura “In Remembrance”, acompanhada aos gritos pelo público na parte intermediária do set na Burning House.
Apesar de ser apenas o oitavo show em menos de um mês, a brasileira Luana Dametto se mostrou bem entrosada com o trio sueco. Não só pela adesão à maquiagem de “baterista demônio” — nas palavras do simpático, ainda que não muito comunicativo Andersson —, mas principalmente nas várias paradas sincronizadas das músicas do Tribulation.
Foco no novo álbum
O repertório da noite se concentrou no trabalho mais recente de 2024. Além das duas músicas iniciais, o primeiro álbum a contar com Tholl nas guitarras foi representado por outras três faixas, tocadas em sequência na segunda metade do set.
Antes da trinca, o palco se escureceu quando “Nightbound”, do disco “Down Below” (2018), veio quase emendada às duas músicas iniciais com sua levada melódica hipnótica. Seu refrão foi cantado com empolgação pelo público, que aos poucos se soltava, respondendo aos incentivos dos músicos. “Hamartia”, faixa-título do EP lançado em 2022 ficou marcada pela interação do timbre mais agudo de Tholl à voz rasgada de Andersson, além de seu encerramento com banda toda sincronizada.
Da fase inicial do Tribulation, quando ainda tinha o pé no metal extremo, a banda só executou a longa “Suspiria de profundis”, do segundo álbum “The Formulas of Death” (2013). Coincidência ou não, a faixa de dez minutos, escrita com ajuda de Tholl antes de integrar a formação, já mostrava uma tendência do grupo trabalhar mais as atmosferas do que brutalidade. Ao vivo, Dametto brilhou alternando a disparada nos pedais com os ritmos marcados nas constantes mudanças de tempo.
Se “Hungry Waters” retomou o disco novo parecendo uma balada gótica sombria, a partir de “Saturn Coming Down” as luzes vermelhas carregadas dominaram novamente o palco na Burning House. O refrão da faixa — que caberia numa coletânea do Sisters of Mercy — gerou coros ainda maiores na pista e seu ritmo denso e apocalíptico evidenciou o rápido entrosamento de Dametto com o resto da banda. Andersson, frontman discreto, agradeceu a brasileira em uma das poucas vezes que se dirigiu diretamente ao público.
A introspectiva “Murder in Red”, com suas insinuações eletrônicas oitentistas, não tinha como manter a mesma empolgação, mas não deixou perder o clima de inferninho na Burning House.
A primeira parte do show começou a terminar quando Zaars reproduziu a introdução melancólica enganadora de “The Lament”. A faixa de “Down Below” levantou de novo o público com seu ritmo animado e versos cativantes. Ao final da música, Tholl ficou sozinho no palco encerrando seu solo para, ao sair de cena, deixar a guitarra com um fã ali na frente.
O bis
Com o instrumento devidamente devolvido a Joseph Tholl, não demorou para o Tribulation voltar para o bis. Duas faixas de “Children of the Night”, disco que marcou uma guinada mais melódica do grupo em 2015, encerraram a noite em São Paulo.
“Melancholia” foi aquela típica música para reacender o público. É cantarolável desde seu lead inicial de guitarra. A reação entusiasmada acompanhando as luzes estroboscópicas na Burning House mostrou por que ela se tornou presença obrigatória nos shows da banda.
“Strange Gateways Beckon”, com seu ríspido refrão, retomou a tensão e encerrou de forma soturna a apresentação do Tribulation. A música ainda incluiu um dueto maideniano fúnebre de guitarra, emendado ao seu final abrupto, antes dos músicos saírem ovacionados do palco ao som de “Across the Universe”, dos Beatles, para acalmar os ânimos na casa.
No inflado calendário recheado de shows com ingressos de preços exorbitantes, atrações mais novas como o Tribulation, ainda desconhecidas de grande parte do público brasileiro, passam despercebidas. Todavia, quem esteve na Burning House dificilmente vai esquecer desse show em pleno sábado de carnaval. A banda sueca provou no palco merecer maior atenção. Que um retorno ao país não tarde a lhes dar finalmente essa chance.
Tribulation – ao vivo em São Paulo
- Local: Burning House
- Data: 14 de fevereiro de 2026
- Turnê: Sub Rosa in Æternum
- Produção: Xaninho Discos, Solid Music e Caveira Velha Produções
Repertório:
- The Unrelenting Choir
- Tainted Skies
- Nightbound
- Hamartia
- Suspiria de profundis
- In Remembrance
- Hungry Waters
- Saturn Coming Down
- Murder in Red
- The Lament
Bis: - Melancholia
- Strange Gateways Beckon
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