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5 curiosidades sobre o show dos Rolling Stones na Praia de Copacabana

Apresentação entrou para o Guinness como o maior concerto gratuito já realizado por uma banda de rock

Em 2004, o futuro dos Rolling Stones pareceu incerto após o diagnóstico de câncer na garganta do baterista Charlie Watts, anunciado em junho daquele ano. A apreensão, porém, deu lugar ao alívio em 2005, quando o músico se recuperou. Com a saúde de seu integrante mais velho restabelecida, o quarteto completado por Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood voltou ao estúdio para trabalhar em seu primeiro álbum de inéditas desde “Bridges to Babylon” (1997).

O resultado foi “A Bigger Bang”, lançado em 2005 e acompanhado por uma turnê mundial. Durante o giro, a banda viveu momentos marcantes: tocou no intervalo do Super Bowl XL, se apresentou em Xangai — a primeira performance do grupo na China, após o cancelamento de shows previstos para 2003 por conta do surto de SARS — e, ao fim de 2006, já havia realizado mais de 140 apresentações. A excursão se tornou, à época, a mais lucrativa da história nos Estados Unidos, estabelecendo um novo parâmetro para megaturnês.

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Ainda assim, foi o memorável show gratuito na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 18 de fevereiro de 2006 — posteriormente lançado em CD e DVD no box “The Biggest Bang” (2007) —, que consolidou definitivamente essa fase na história do grupo.

A seguir, veja cinco curiosidades sobre o evento no qual este escriba — então com 15 anos — teve o prazer de estar presente.

Rolling Stones em Copacabana

1) Um megaevento de R$ 10 milhões — e 5 mil pessoas trabalhando

O histórico show gratuito dos Rolling Stones em Copacabana entrou para a memória coletiva não só pelo impacto cultural, mas também pela grandiosidade da produção. O evento teve orçamento estimado em R$ 10 milhões, dos quais 16% foram financiados pela Prefeitura do Rio de Janeiro.

O esquema de organização foi maior do que o do próprio réveillon carioca: cerca de 5 mil profissionais atuaram em segurança, logística e infraestrutura. No entanto, ao contrário da festa da passagem de ano, por determinação do Ministério Público, a apresentação precisou ser encerrada rigorosamente à meia-noite.

A turnê com a qual o grupo veio ao Brasil mobilizava aproximadamente 150 integrantes da equipe e 261 toneladas de equipamentos, transportados por dois aviões Boeing e 25 caminhões. A logística incluiu exigências de segurança adicionais: os Stones trouxeram equipe própria e solicitaram o monitoramento do espaço aéreo e marítimo em frente ao hotel. A Marinha do Brasil foi acionada para patrulhar a costa e impedir a aproximação excessiva de embarcações ao palco.

A propósito, o palco, projetado por Mark Fisher, tinha 22 metros de altura, 28 de largura e 60 de profundidade. Uma passarela de 60 metros ligava-o a uma estrutura secundária, mais próxima do público, onde a banda executou quatro músicas.

2) Titãs e AfroReggae abriram a noite

Antes da entrada dos Rolling Stones, três atrações brasileiras abriram a noite em Copacabana: DJ Marcelo Janot, AfroReggae e Titãs.

Originários de Vigário Geral, os integrantes do AfroReggae subiram ao palco às 19h20, cerca de dez minutos antes do horário previsto, com um som ancorado na percussão e influências de maracatu, hip hop, samba e rock. “Parabéns ao Rio, que é uma cidade única. Não existe divisão na nossa cidade”, declarou o vocalista LG. A fala, no entanto, contrastava com a divisão visível no espaço: como notado por Marco Aurélio Canônico, para a Folha de S. Paulo, havia área VIP em frente ao palco, enquanto o público geral ficou mais distante, espalhado pela praia e pelas ruas adjacentes.

Na sequência, os Titãs enfrentaram problemas técnicos: o microfone de Branco Mello ficou mudo logo no primeiro verso de “Flores”, a música de abertura. “Alguns segundos depois, a voz reapareceu, mas o microfone voltou a falhar ao longo da apresentação”, escrevem Hérica Marmo e Luiz André Alzer na biografia “A Vida Até Parece Uma Festa” (Globo Livros, 2022). “Os Titãs, porém, não se deixaram abalar (…) ‘Bichos Escrotos’, ‘Polícia’, ‘Vossa Excelência’ — Paulo Miklos amplificou seu discurso-protesto usando uma camisa em que se lia Pizzaria Nacional —, ‘Lugar Nenhum’ e ‘Homem Primata’. O gran finale seria com ‘Sonífera Ilha’, escolha certeira para incendiar a multidão e abrir caminho para os Stones.”

“Abrir para os Stones é como ganhar um prêmio. Eles são referência para qualquer banda de rock”, afirmou o guitarrista Tony Bellotto em entrevista ao G1. Ele também relembrou um breve encontro com Keith Richards em São Paulo: “Conversei rapidamente com o Keith num restaurante. ‘É sempre bom conhecer um colega de profissão!’, ele disse. ‘Colega de profissão? Fala sério, Keith! Você é meu mestre…’”, brincou.

3) 21 músicas, palco B e jovens em busca do pé-de-meia

Os Stones chegaram ao palco por meio de uma passarela construída para ligar a estrutura montada na areia ao Copacabana Palace, onde os músicos e uma comitiva com mais de 150 pessoas estavam hospedados.

O biógrafo Christopher Sandford, autor de “The Rolling Stones: A Biografia Definitiva” (Record, 2014) descreveu o clima que tomou conta da praia: “Muitas jovens na multidão usavam camisetas ou outros itens com slogans que ressaltavam o quanto ficariam felizes se, como acontecera com Luciana Gimenez, Mick também quisesse engravidá-las. Outras dispensaram completamente o pudor e escreveram a mensagem nos seios nus”.

O repertório de 21 músicas foi aberto com “Jumpin’ Jack Flash” — lançada em 1968, e não em 1972, como citado na resenha da Folha de S. Paulo da época. Mick Jagger surgiu de calça preta e jaqueta prateada e arriscou um “olá, Rio, olá, Brasil” logo no começo.

A apresentação que começou por volta das 21h50 durou quase duas horas. Antes da entrada da banda, um telão exibiu uma animação inspirada no big bang, referência direta ao então recente “A Bigger Bang”. Apesar do caráter promocional da turnê, o set privilegiou clássicos das décadas de 1960 e 1970, com espaço para quatro das quinze faixas do disco novo, incluindo “This Place Is Empty”, cantada por Keith Richards.

Já durante “Miss You”, parte do palco avançou em direção ao público, aproximando a banda da multidão. No chamado palco B, mais próximo de quem estava fora da área VIP, o grupo executou outras três músicas: “Rough Justice”, “Get Off of My Cloud” e “Honky Tonk Women”. A derradeira da noite, claro, foi (I Can’t Get No) Satisfaction.

Veja o setlist abaixo.

  1. Jumpin’ Jack Flash
  2. It’s Only Rock ‘n’ Roll (but I Like It)
  3. You Got Me Rocking
  4. Tumbling Dice
  5. Oh No, Not You Again
  6. Wild Horses
  7. Rain Fall Down
  8. Midnight Rambler
  9. Night Time is the Right Time (Roosevelt Sykes cover)
  10. This Place is Empty (Keith Richards no vocal)
  11. Happy (Keith Richards no vocal)
    Palco B:
  12. Miss You
  13. Rough Justice
  14. Get Off of My Cloud
  15. Honky Tonk Women
    De volta ao palco principal:
  16. Sympathy for the Devil
  17. Start Me Up
  18. Brown Sugar
    Bis:
  19. You Can’t Always Get What You Want
  20. (I Can’t Get No) Satisfaction

4) Transmissão da Globo

A apresentação marcou a terceira passagem dos Stones pelo Brasil. A TV Globo transmitiu o show ao vivo para todo o país, com início logo após o “Big Brother Brasil”. Para isso, de acordo com levantamento feito pelo Memória Globo, instalou 28 câmeras na área do evento — incluindo equipamentos em helicóptero e lancha — e mobilizou cerca de 250 profissionais.

A cobertura começou um dia antes, com flashes ao longo da programação sobre a montagem da estrutura e orientações ao público. Durante a exibição, a Globo utilizou time delay, recurso que permitiu manter o show íntegro na TV mesmo com intervalos comerciais. O mesmo modelo seria adotado dias depois na transmissão do show do U2, em São Paulo.

5) Rolês cariocas e a entrevista “furada” da RedeTV!

A banda ocupou o sexto andar do Copacabana Palace. Para evitar a formação de multidões na entrada, foi construída uma passarela exclusiva ligando o hotel ao palco montado na areia. Mick Jagger foi visto diversas vezes na sacada, acenando para os fãs. Já Keith Richards e Ronnie Wood adotaram postura mais discreta, aproveitando serviço de quarto e caipirinhas, mas com menos exposição pública.

Jagger foi o mais ativo fora do hotel. Circulou pela cidade; esteve em uma festa na casa do empresário Olavo Monteiro de Carvalho, em Santa Teresa; foi visto jantando no tradicional restaurante Antiquarius e visitou os estúdios da TV Globo. Apesar disso, não concedeu entrevista formal à emissora.

A exclusiva daquela passagem foi outra: a conversa com Luciana Gimenez, exibida no Superpop (RedeTV!). O episódio ganhou dimensão por causa do histórico pessoal entre os dois — pais de Lucas Jagger, que na época tinha seis anos — e pelo tom mais íntimo do que o habitual em compromissos de turnê.

A gravação ocorreu no próprio Copacabana Palace e, segundo relatos à época, teria sido autorizada diretamente por Jagger, contornando a rigidez da assessoria do grupo. O resultado foi alta repercussão — não obstante as críticas à pauta considerada rasa — e um recorde de audiência para a emissora.

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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