Quando o Judas Priest subiu ao palco do Rock in Rio 1991, em 23 de janeiro, para sua primeira apresentação na América do Sul, tinha a missão de representar o heavy metal clássico em um festival que misturava gêneros, gerações e expectativas gigantescas.
Escalado como o primeiro headliner do dia, antes do Guns N’ Roses — então “a maior banda do mundo”, nas palavras do vocalista Rob Halford —, e divulgando o recém-lançado “Painkiller” (1990), o Judas apostou em um set reduzido e certeiro, priorizando os grandes sucessos de sua carreira.
Veja como foi.
Um set direto, focado nos clássicos
Diferentemente do repertório extenso apresentado na turnê de “Painkiller”, o show no Rock in Rio exigiu concisão. Do álbum lançado em 1990 — um dos mais pesados e influentes de sua carreira —, apenas “All Guns Blazing” e a faixa-título foram incluídas, em contraste com as cinco músicas do disco executadas em shows regulares da turnê.
A estratégia funcionou. Com doze músicas, a apresentação foi descrita como “precisa e competente” por Luiz Felipe Carneiro, no livro “Rock in Rio: A História”. Halford, com seus falsetes característicos, entregou exatamente o que os headbangers esperavam ouvir. Apesar de alguns intervalos mais longos entre as canções, o impacto do repertório compensou qualquer perda de ritmo.
Transmitido ao vivo para toda a América do Sul, o show foi comparado por Halford a momentos-chave da trajetória da banda, como o US Festival (1983) e o Live Aid (1985). “Sabíamos que tínhamos de dar o nosso melhor — e foi o que fizemos. Arrasamos”, escreve na autobiografia “Confesso” (Belas Letras).
Polêmica nos bastidores
Um dos episódios mais emblemáticos daquele dia ocorreu longe do público. Tradicionalmente, Rob Halford abria “Hell Bent for Leather” surgindo no palco pilotando uma Harley-Davidson. Pouco antes do show, no entanto, a banda recebeu um recado atribuído à equipe do Guns N’ Roses: Axl Rose não queria que a moto fosse usada.
Halford reagiu com firmeza. “A moto é parte do show. Os fãs esperam por ela. É uma questão de princípios”, relata. Seguiu-se um impasse, com produtores circulando entre os camarins, até que um representante voltou com uma nova versão: Axl teria dito que nunca se opôs ao uso da moto.
Verdade ou recuo estratégico, pouco importava. Halford entrou no palco sobre a Harley — como sempre.
Comunhão com o público brasileiro
Se houve um momento de comunhão absoluta entre banda e plateia, ele veio com “Breaking the Law”. Anos depois, em entrevista a Martin Popoff para o livro “Judas Priest: Heavy Metal Painkillers” (ECW Press, 2007), Halford refletiu sobre o impacto da música no Rock in Rio:
“Vinte anos após sua criação, milhares de pessoas cantavam cada verso em uníssono.”
Para o vocalista, a força da canção está em seu caráter quase anárquico, capaz de unir o público em torno de frustrações universais e da energia coletiva típica do rock’n’roll. No Brasil, essa resposta ganhou contornos épicos e ajudou a consolidar o Judas como uma lenda viva entre os fãs locais.
“Foi nosso primeiro gostinho dos fãs sul-americanos fanáticos”, recorda Halford em “Confesso”. Ainda de acordo com o vocalista, a recepção foi tão intensa que a banda mal conseguia sair do hotel sem ser cercada por fãs em busca de autógrafos e fotos — uma amostra do fervor que marcaria passagens posteriores dos britânicos pelo Brasil.
Setlist – Judas Priest no Rock in Rio 1991
- Hell Bent for Leather
- Grinder
- The Hellion / Electric Eye
- All Guns Blazing
- Metal Gods
- The Ripper
- Beyond the Realms of Death
- Victim of Changes
- Painkiller
- The Green Manalishi (With the Two Pronged Crown) (cover do Fleetwood Mac)
- Breaking the Law
- Living After Midnight
- You’ve Got Another Thing Comin’
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