Por que Belchior sumiu e o que ele fez em seus anos longe dos holofotes

Cantor viveu de favor no Brasil e Uruguai, teve problemas financeiros e recusava-se a fazer um retorno propriamente dito à música

Belchior foi, inegavelmente, um dos maiores nomes da música brasileira. Contudo, em seus últimos anos de vida, parecia ser mais lembrado pela polêmica de seu desaparecimento do que por sua obra.

O artista foi lentamente sumindo da mídia aproximadamente a partir de 2008, o que deu origem a lendas urbanas, teorias conspiratórias e todo o tipo de questionamento.

Mas o que realmente aconteceu nos anos finais de vida do artista, que faleceu em 2017, aos 70 anos, em decorrência de um aneurisma da aorta?

Cadê Belchior?

O sumiço de Belchior começou a circular na imprensa em 2008, mas há relatos de que a família já não tinha mais contato com o músico desde 2007.

Dois anos antes, em 2006, o cantor terminou um casamento de 35 anos para dar início a um relacionamento com a produtora cultural Edna Prometheu. A partir daí, as coisas começaram a mudar: o artista abandonou bens, como seu apartamento e dois carros em São Paulo, e seu paradeiro passou a ser desconhecido.

Em 2009, o programa “Fantástico”, da TV Globo, conseguiu encontrar Belchior em uma pousada no Uruguai. Lá, o cantor dizia estar trabalhando em novos projetos. Além de ter prometido um álbum de músicas inéditas, que nunca veria a luz do dia, ele também declarou que atuava na tradução de toda a sua obra para o espanhol.

“Evidentemente eu estava aqui. Mas vivo em São Paulo e já é a segunda vez que venho de lá para cá, para o Uruguai. Estou fazendo um trabalho muito, muito especial aqui. Você sabe que eu tenho uma ligação muito grande com a América Latina, ‘eu sou apenas um rapaz latino-americano’. Muito especialmente nesse momento no Uruguai, que desde muito cedo me despertou interesse, pela literatura.

Estou fazendo um trabalho de tradução da minha música para espanhol, vou lançar um cancioneiro nas duas línguas, meu cancioneiro inteiro, e já fiz aqui um trabalho de tradução da minha música. No meu roteiro estou compondo muito. Quero fazer para o próximo ano um trabalho com canções inéditas, que já vinha fazendo.”

A história de seu desaparecimento continua a gerar teorias e até investigações sérias. Recentemente, os jornalistas Marcelo Bortoloti e Chris Fuscaldo lançaram um livro intitulado “Viver é Melhor do que Sonhar”, onde a dupla buscar reviver os passos de Belchior e Edna.

As dívidas

Conforme apurado por diversos jornalistas que tentaram acompanhar os anos finais de Belchior, o motivo principal do sumiço e do abandono dos bens do artista eram as dívidas.

O cantor estaria devendo pensões alimentícias para sua ex-mulher e uma filha mais jovem que teve fora do casamento. Além disso, um de seus antigos funcionários havia entrado com uma ação trabalhista contra ele, que deveria pagar cerca de R$ 1 milhão como ressarcimento.

Nos primeiros meses longe do radar público, Belchior conseguia se manter com o rendimento dos direitos autorais de suas músicas. Ele chegou a participar de um show do amigo Tom Zé, em Brasília, em 2009, mas logo foi para o Uruguai, de onde conversou com a Globo.

A situação piorou drasticamente conforme o cerco judicial se apertava contra ele. Com os bens e os rendimentos bloqueados, Belchior e a companheira deixaram uma dívida de R$ 15 mil por seis meses de diárias em um hotel 4 estrelas na cidade uruguaia de Artigas, onde viviam até então.

Daí para frente, o sumiço se tornou mais severo e a situação do músico piorou bastante.

“Um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco”

De volta ao Brasil, Belchior passou a viver em um quase anonimato. Fugia da imprensa e da polícia e se abrigava em instituições de caridade, mosteiros e casas de fãs. Qualquer lugar possível servia para o artista.

A situação representou uma certa melhora, visto que em seus últimos dias no Uruguai, o cantor teria dormido debaixo da Ponte da Concórdia, que liga as fronteiras do Brasil com o país vizinho.

Em 2013, o mesmo Marcelo Bortoloti que escreveria o livro, publicou uma matéria na revista Época que abordava os passos mais recentes do artista. Segundo ele, Belchior morava em Porto Alegre, mas não tinha endereço fixo e evitava até mesmo ser visto tocando violão.

Edna, sua companheira, parecia ser a mais temerosa em relação ao assédio da mídia e a possível perseguição pela justiça. Há quem a acuse de ser uma espécie de “Yoko Ono” deste caso, algo refutado por Bortoloti e Fuscaldo.

O músico parecia inerte nessa situação, recusando convites de apresentações e até mesmo um contrato comercial para promover uma marca de carros que lançava um novo modelo. Tudo isso devido ao receio de ser preso.

A última participação de Belchior em um trabalho musical foi um DVD ao vivo gravado em 2011 ao lado do pianista João Tavares Filho. O material acabou nunca sendo lançado – talvez por exigência do próprio artista.

Um endereço fixo parece ter sido restabelecido no fim da vida do músico, já que sua morte foi registrada como tendo ocorrido em casa, na cidade de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul.

Belchior deixou um legado musical muito mais importante do que as polêmicas dos últimos anos. Todavia, o mistério ainda não foi totalmente esclarecido – e talvez nunca seja.

* Texto desenvolvido em parceria por André Luiz Fernandes e Igor Miranda. Pauta e edição geral por Igor Miranda; redação e apuração adicional por André Luiz Fernandes.

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