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Por que bandas brasileiras de metal extremo exploravam satanismo, segundo Iggor Cavalera

Sepultura abordou o tópico em registros como “Bestial Devastation” e “Morbid Visions” como forma de protesto, de acordo com o ex-baterista da banda

No início de sua carreira, o Sepultura fazia fortes críticas à religião. O tópico é explícito em álbuns como “Morbid Visions” (1986), que, visualmente, contém até mesmo imagens consideradas satânicas – conceito também perceptível no EP de estreia “Bestial Devastation” (1985). Segundo Iggor Cavalera, havia um motivo pelo qual a banda e outros nomes brasileiros de metal extremo exploravam a temática. 

Durante entrevista ao podcast White Centipede Noise transcrita pelo Blabbermouth, o baterista explicou que a cena nacional não era necessariamente satanista. Porém, havia uma indignação coletiva com o histórico das igrejas no país.

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Sendo assim, os artistas da música pesada na década de 1980 viram o uso da figura do diabo como uma maneira de protestar contra a instituição. Primeiramente, o músico argumentou: 

“Para nós, a primeira onda de black metal que tivemos no Brasil não era realmente sobre adorar Satanás, mas sim sobre atacar a igreja — o que tem uma enorme diferença. Para nós, era muito mais político. Porque a igreja controla tudo na América do Sul e está envolvida com a política. Eles chegaram e realmente violentaram o território com a colonização e todo o resto. Então, para nós, ir contra a igreja era um ato de rebeldia. E para nós também fazia mais sentido atacar a igreja do que atacar o governo em geral, porque para nós está tudo interligado.

Então, citando o Sex Pistols como um exemplo, de certa forma, semelhante, acrescentou:

“Quando os Sex Pistols estavam indo contra a rainha [para manifestar], nossa forma de fazer o mesmo era atacar a igreja. Nunca fomos adoradores de Satanás; isso não era nossa pegada. Claro, eu estudo muito o lado sombrio das coisas, leio muitos livros, mas nunca fui para esse lado. No fim das contas, acredito que todas as concepções vêm da mesma coisa — o bem e o mal, e Satanás, na minha opinião, são uma criação da igreja.”

Jairo Guedz concorda

Jairo Guedz, ex-guitarrista do Sepultura, já apresentou a mesma visão. Conversando com Gustavo Maiato, o antigo integrante pontuou que abordar o tópico não só era uma forma de rebeldia, mas também de “agredir”, ainda que de uma maneira um tanto quanto imatura (via Whiplash): 

“Naquela época, falávamos contra a religião porque era uma forma de agredir. Era a rebeldia. Tínhamos dois caminhos na época. Ou falar sobre religião ou sobre política. Fazíamos isso de forma meio infantil e sem maturidade. Era mais pela agressividade mesmo, mas não deixava de ser verdadeiro. Era uma rebeldia inerente com nossa idade e realidade.”

Iggor Cavalera e Sepultura atualmente

Nos últimos tempos, Max e Iggor Cavalera lançaram versões regravadas de três trabalhos do Sepultura, grupo do qual não fazem mais parte. O EP “Bestial Devastation” (1985) e os álbuns “Morbid Visions” (1986) e “Schizophrenia” (1987) ganharam novas versões sob o argumento de melhoria da qualidade de áudio.

Andreas Kisser, que permanece na banda e já estava na formação quando “Schizophrenia” foi gravado, parece não ter gostado muito da iniciativa. Em entrevista ao Impact Metal Channel (via Blabbermouth), o guitarrista foi convidado a comentar sobre os novos registros e, em resposta, disse acreditar que há ali “zero valor artístico”.

Ele afirma:

“Não acho nada. Quer dizer, é uma escolha estranha que eles fizeram. Acho que o valor artístico é zero. Talvez eles estejam fazendo por algum dinheiro ou algo assim, mas não há razão para fazer algo assim.”

Kisser, curiosamente, faz menos críticas a Iggor do que a Max. Para ele, o baterista acerta em seus projetos paralelos, normalmente orientados a gêneros fora do metal. Durante entrevista ao podcast 100segredo, disse:

“Eles escolheram sair da banda. Ninguém foi mandado embora. Quem foi mandado embora foi a Gloria só. Inclusive, eles nunca brigaram por nada. Simplesmente assinaram os papéis e saíram. Viraram as costas literalmente e foram embora. E agora meio que parece que ficam brincando de ser Sepultura, sabe? O Iggor faz coisas incríveis, paralelamente, que são artisticamente fantásticas, eu acho sensacional isso. Enquanto que o Max está preso na própria caixa, fazendo sempre a mesma coisa e falando as mesmas coisas.”

Alfinetadas à parte, Andreas tem dito em entrevistas que o espaço está aberto para que Max e Iggor participem do show final do Sepultura, previsto para acontecer em São Paulo ainda em 2026. Durante entrevista ao canal 69 Faces of Rock (via Blabbermouth), ele declarou:

“Espero que possamos fazer isso acontecer. Sim, seria ótimo. Estamos trabalhando nisso. E acho que temos o plano de seguir até 2026. Gostaríamos de ir a todos os lugares, realmente explorar todas as coisas que pudermos neste último adeus. E espero que no último show, que será no Brasil, tenhamos a participação de todos os ex-membros, incluindo os irmãos, é claro. Isso seria ótimo para os fãs e para todos os envolvidos. Espero que possamos celebrar juntos esta história incrível.”

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Maria Eloisa Barbosa
Maria Eloisa Barbosahttps://igormiranda.com.br/
Maria Eloisa Barbosa é jornalista, 24 anos, formada pela Faculdade Cásper Líbero. Colabora com o site Keeping Track e trabalha como assistente de conteúdo na Rádio Alpha Fm, em São Paulo.

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