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Turnê do Guns N’ Roses com Faith No More foi marcada por machismo, segundo Roddy Bottum

"Para mim, sendo um homem gay que cresceu com três irmãs, era ofensivo e absurdo", revelou tecladista a respeito dos bastidores

Em 1992, Guns N’ Roses e Faith No More realizaram uma turnê conjunta. Como parte da “Use Your Illusion Tour”, a banda de San Francisco tocou como atração convidada do GN’R, no giro também encabeçado pelo Metallica.

Por um lado, houve a visibilidade. No entanto, a experiência parece não ter sido das mais positivas para os artistas de abertura.

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Ao relembrar a série de apresentações em entrevista ao podcast 60 Minutes or Less, Roddy Bottum afirmou que o ambiente dos bastidores era marcado por “machismo, agressividade masculina e masculinidade tóxica”. Segundo o tecladista, ele e os colegas de banda ficavam incomodados com o comportamento, normalizado pelos outros envolvidos, mas não havia escapatória. 

Conforme transcrição do site Blabbermouth, o músico, que lançou recentemente a autobiografia “The Royal We: A Memoir”, explicou: 

“Acho que foi um desafio, mas, sinceramente, só para mim. Machismo, agressividade masculina e masculinidade tóxica eram parte daquela época e todo mundo estava de acordo com isso. Sinceramente, não conheço ninguém que não estivesse. Tirando nosso guitarrista, todos nós éramos mais inclinados à esquerda, progressistas, artistas estranhos, de mente liberal. Então ficávamos chocados com aquele ambiente. Não acreditávamos no que estávamos vendo, mas estávamos muito sozinhos nesse modo de pensar. Todo mundo naquela turnê — o pessoal do Guns N’ Roses, a equipe deles, o pessoal do Metallica, a equipe deles, Jim [Martin], nosso guitarrista, provavelmente boa parte da nossa equipe — estava de boa com o hedonismo. Para mim, sendo um homem gay que cresceu com três irmãs, era simplesmente ofensivo, absurdo e um grande ‘que p#rr@ é essa?’, mais do que para qualquer outra pessoa, com certeza.”

A indignação até mesmo influenciou a maneira com o que Roddy passou a lidar com a própria sexualidade publicamente. Em suas palavras: 

“Eu não tinha sido muito aberto sobre minha sexualidade na imprensa, então isso meio que me motivou a falar sobre ser gay.”

O artista aprofundou o tema no documentário “Heavy Metal Saved My Life”, lançado em 2023. Como repercutido pelo Whiplash, Roddy relatou na produção que o backstage estava constantemente cheios de mulheres, tratadas com desrespeito, e que não queria qualquer tipo de associação à tal mentalidade:

“Havia muitas mulheres no backstage, não parecia um ambiente seguro para uma mulher estar. Era tudo sobre mulheres, transar, um retorno aos anos 70, e era o que eles curtiam. Foi algo de mau gosto, certamente não era nada que o Faith No More apoiava, mas algo que veríamos todas as noites […]. Nosso propósito desde o início da banda era provocar. Pareceu uma boa oportunidade naquele momento, reconhecendo o que o Guns N’ Roses fez, revelar que eu era gay, para separar a banda e nós mesmos do tipo de banda que o Guns N’ Roses era. Pareceu importante dizer: ‘Não somos essa banda misógina, que abusa de mulheres. Não temos essas tendências masculinas agressivas, na verdade, somos muito diferentes’.”

Mike Patton também descreveu a excursão como “horrível”. Sem entrar em detalhes, o cantor afirmou durante entrevista a Regis Tadeu e Paulo Baron em 2021 que chegou a urinar no palco do GN’R tamanho o descontentamento (via Rolling Stone Brasil): 

“Eles [Guns N’ Roses] nos tratavam como uns m*rdas. Foi uma turnê horrível com aqueles caras, eu odeio dizer isso. Então, um dia, eu simplesmente mijei no teleprompter dele [Axl Rose].”

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Maria Eloisa Barbosa
Maria Eloisa Barbosahttps://igormiranda.com.br/
Maria Eloisa Barbosa é jornalista, 24 anos, formada pela Faculdade Cásper Líbero. Colabora com o site Keeping Track e trabalha como assistente de conteúdo na Rádio Alpha Fm, em São Paulo.

2 COMENTÁRIOS

  1. Com todo respeito à jornalista Maria Eloísa, mas confesso que me incomoda ver, mais uma vez, o Guns N’ Roses como alvo de notícias “requentadas” sobre fatos que aconteceram há mais de 30 anos e que já são amplamente conhecidos. Fica a sensação de que certos artistas ficam presos eternamente a um passado específico, enquanto outros são sempre tratados com mais cuidado, contexto ou simplesmente silêncio.

    Li a matéria e acho importante fazer algumas ponderações que quase nunca aparecem nesse tipo de abordagem. O relato do Roddy Bottum é legítimo enquanto memória pessoal — ninguém está questionando isso. Mas a turnê citada aconteceu no início dos anos 1990, dentro de uma cena do rock que era estruturalmente machista, homofóbica e excessiva. Isso atravessava praticamente todo o mainstream da época. Julgar aquele período apenas com os parâmetros morais de hoje, sem qualquer mediação histórica, é um tipo de anacronismo.

    O que me parece mais relevante, e quase nunca entra na discussão, é observar trajetórias de mudança. O Guns N’ Roses de hoje não é o Guns N’ Roses de 30 anos atrás. A banda tem uma mulher como integrante fixa há quase uma década — a Melissa Reese — que já falou publicamente sobre o ambiente respeitoso e afetuoso entre eles, descrevendo os integrantes como irmãos mais velhos. Isso não é discurso: é convivência.

    Além disso, a banda hoje assume posições políticas claras: critica o Trump, apoia o Black Lives Matter e se posiciona em defesa da Palestina. Curiosamente, esses posicionamentos raramente aparecem quando o assunto é Guns N’ Roses. Soma-se a isso a relação histórica da banda com a América Latina e, especialmente, com o Brasil: turnês constantes fora do eixo óbvio, shows em cidades frequentemente ignoradas por grandes artistas, respeito pelo público local e valorização de artistas brasileiros. Isso também diz muito sobre quem eles são hoje.

    O ponto aqui não é negar que erros existiram. Eles existiram. O ponto é reconhecer que pessoas podem amadurecer, aprender e mudar. Ignorar completamente essa transformação e insistir apenas na repetição de rótulos do passado transforma o debate em algo punitivo, não crítico.

    Por fim, fica uma reflexão sincera sobre como a memória midiática funciona de forma seletiva. Artistas considerados “cult” raramente têm suas contradições revisitadas com a mesma insistência. O Radiohead, por exemplo, já silenciou manifestantes pró-Palestina e se recusa a aderir a boicotes a Israel, mesmo diante de um genocídio amplamente documentado — e isso dificilmente vira pauta recorrente.

    Então a pergunta que fica é simples e legítima: por que alguns artistas ficam congelados eternamente em seus erros, enquanto outros são constantemente contextualizados ou simplesmente esquecidos?

    • Guilherme, o assunto antigo foi abordado agora porque Roddy Bottum deu essa declaração em entrevista recente. Não estamos requentando, a declaração é atual.

      Sobre o posicionamento de membros do Radiohead, abordamos mais de uma vez no site: https://igormiranda.com.br/tag/radiohead/ | Só não é abordado mais vezes porque o site foca em rock clássico, hard rock e heavy metal. Mas está ali, no link, bastando conferir.

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