Em um daqueles momentos meio padronizados de show, o baixista Steve Di Giorgio, parceiro mais longevo do falecido Chuck Schuldiner e líder inconteste do Death to All, tomou o microfone e perguntou em São Paulo quem já havia visto o projeto de tributo ao legado do músico tido como um dos pais do death metal. No Carioca Club lotado na noite do último sábado (24), a resposta foi dividida entre quem assistia pela primeira vez e os que estiveram naquele mesmo local, menos de dois anos atrás.
Unânime foi a confirmação do desejo de ver o projeto de novo, em um retorno ao país. Com um show de mais de duas horas tendo por base os discos “Spiritual Healing” (1990) e “Symbolic” (1995), do Death, a maratona de death metal mais uma vez honrou o legado de Schuldiner e deixou o público esgotado e extasiado.

Driblando o risco de overdose de Death
Se o Death aparecesse no Brasil todo ano enquanto Chuck Schuldiner estava vivo, nenhum fã de metal extremo reclamaria. Infelizmente, o mais próximo que o lendário músico esteve do país foi quando sua banda tocou no Chile durante a turnê de “The Sound of Perseverance”, em 1998.
Prestes a completar 25 anos de sua morte, projetos que orbitam o legado de Schuldiner parecem ter descoberto o fanatismo dos brasileiros pela banda do guitarrista.

No ano passado, fez turnê no país o Left to Die, projeto focado nos dois primeiros discos do Death, com uma dupla de ex-membros da clássica fase inicial do grupo: o guitarrista Rick Rozz e o baixista Terry Butler. Seu vocalista/guitarrista, Matt Harvey, acompanhado do baterista Gus Rios, já agendou seu retorno com o Gruesome no segundo semestre, banda de material próprio assumidamente inspirado nas composições do finado Schuldiner.
A terceira visita do Death to All poderia correr o risco de cair na mesmice. Afinal, o projeto capitaneado por Di Giorgio se apresentou no mesmo Carioca Club quase dois anos atrás e repetiu sua estabilizada formação — que estreou no país em 2014, incluindo o baterista Gene Hoglan, o guitarrista Bobby Koelble e o fenômeno Max Phelps no papel de um Chuck Schuldiner reencarnado.

Dessa vez, porém, o grupo resolveu fincar bandeira na sua principal característica para fazer valer sua posição informal de tributo oficial ao legado do Death: a técnica de seus membros. Isso justifica a escolha de “Spiritual Healing” e “Symbolic”, executado na íntegra no giro atual, para a base do repertório.

Velocidade em foco na primeira parte
A primeira parte da noite no Carioca Club teve o álbum de 1990 como foco, mas incluiu faixas de outros discos, como o início com o cadenciado primeiro minuto de “Infernal Death”, uma das duas músicas do trabalho de estreia “Scream Bloody Gore” (1987).
“Zombie Ritual”, a outra do primeiro disco do Death, veio na reta final dessa porção inicial do show. Aumentou as rodas, até então tímidas, para não diminuírem mais.
Depois da catarse já tradicional causada por “The Philosopher”, de “Individual Thought Patterns” (1993), com primeira estrofe até o refrão acompanhadas pelo público, a faixa-título “Spiritual Healing” concluiu o ato inicial em seus gloriosos oito minutos, que foi dos tapping atmosféricos aos solos rápidos mantendo as rodas intensas na pista.
O álbum homenageado ainda foi representado por outras quatro músicas. A clássica “Living Monstrosity” veio emendada na introdução de “Infernal Death” para dar o tom avassalador na abertura da primeira parte do show. Era inegável uma sensação de catarse na pista para as músicas menos tradicionais do tracklist, como “Defensive Personalities”, com seus riffs transitando entre o black e o power metal. Rodas se formaram em “Altering the Future”, com seu início lento seguido por riffs circulares servindo como panela de pressão que explodiu na disparada após o nome da faixa ter sido gritado em uníssono pelo público.
As três músicas citadas só não foram tocadas na sequência porque entre elas veio a obrigatória “Lack of Comprehension”, de “Human” (1991), a qual mais uma vez teve sua melodia inicial e refrão cantados pelo público. O álbum citado, primeiro de Di Giorgio no Death, ficou marcado por Schuldiner ter rompido e alargado os limites do metal extremo em técnica e sonoridade ao lado de dois músicos de um então desconhecido Cynic, grupo do qual Phelps chegou a fazer parte neste século.

No entanto, não é como se os discos anteriores a “Human” fossem “apenas” brutos. Em “Spiritual Healing”, porém, Schuldiner refinou o apuro de seu instrumental ao limite possível sem extrapolar as fronteiras do então embrionário death metal. Para isso, contou na outra guitarra com James Murphy, guitarrista que ganhou renome a partir do álbum e foi convidado a integrar outras bandas como Obituary e Testament.
Seu belo solo melódico foi reproduzido a contento por Koelble em “Within the Mind”, a outra faixa do disco no repertório desta noite no Carioca Club. Apenas fez lamentar que “Spiritual Healing” não tenha sido executado na íntegra.

Complexidade marca 2ª parte sem baixar ânimos
Por outro lado, era natural em algum momento “Symbolic” receber tratamento especial pelo Death to All. Os três ex-membros da banda que garantem legitimidade ao projeto participaram do processo do disco.
Presente em toda a fase de composição ao lado de Gene Hoglan e Chuck Schuldiner, Steve Di Giorgio só não o gravou por ter se afastado enquanto tinha seu primeiro filho na mesma época. Ao lado do substituto Kelly Conlon, que mal aqueceu os dedinhos na posição, Bobby Koelble chegou para registrar parte dos solos e fazer a respectiva turnê.
Ainda assim, Di Giorgio se manteve usando seu já tradicional instrumento com apenas três cordas na execução de todas as músicas do disco. Pareceu até humilhação em um trabalho no qual a técnica apurada do Death marcou um limite então intransponível para Schuldiner.

Com apreço cada vez maior por sons melodiosos, o falecido compositor não via como seguir desenvolvendo a sonoridade da banda sem sacrificar sua identidade. Frustrado pela forma como “Symbolic” foi promovido, encerrou pela primeira vez as atividades do Death ao término da turnê, mesmo com aclamação do álbum por público e crítica.
A esperada comoção em São Paulo veio nas faixas “Symbolic” e “Crystal Mountain”, obrigatórias nos repertórios do Death to All e já executadas em suas apresentações anteriores no país. “Zero Tolerance”, “Empty Words” e “1,000 Eyes”, outros três clássicos do disco de 1995 ainda inéditos na cidade, tiveram recepção acalorada pelo público animado que encheu o Carioca Club.
O fato de a casa não estar abarrotada facilitou a manutenção das rodas durante a execução de faixas menos celebradas do álbum. A impressão, no entanto, era de que o público preferiu se manter animado na pancadaria a ter seu cérebro fundido tentando acompanhar as labirínticas músicas do disco — como quase aconteceu no solo de “Sacred Serenity” e, pela única vez na noite, Phelps precisou despertar a galera da viagem e pedir por vibração da pista.

Não é como se não houvesse outros momentos que facilitassem a reação violenta, fosse nas pausas para o refrão de “Without Judgement”, ou desde o início avassalador de “Misanthrope”. Na arrastada e tortuosa “Perennial Quest”, porém, não tinha muito como a roda continuar grande para a faixa que fecha “Symbolic”. Sua parte acústica final não foi apenas o único momento de um som pré-gravado executado na noite. Também serviu como o solitário respiro dos músicos fora do palco em quase duas horas e quinze minutos.
Final para preencher cartela do bingo da discografia
Os shows do Death to All têm como marca não deixar nenhuma fase do Death para trás. Assim, o bis veio com duas músicas dos discos ainda não representados no Carioca Club.

“Spirit Crusher”, de “The Sound of Perseverance” — álbum final do Death lançado em 1998 após a breve retomada das atividades — e a inevitável “Pull the Plug”, do clássico “Leprosy” (1988), aumentaram o pandemônio na pista. Colocaram fim na apresentação retomando um pouco da genuína comoção da primeira fase do set.
No entanto, foi simbólico — com o perdão do trocadilho — o Death to All ter tocado uma pequena parte de “Deliverance”, do Opeth, meio na base do improviso, antes de dar início ao bis. Com a ascensão da banda sueca, que chegou a ter Hoglan comandando as baquetas durante uma turnê, desapareceram na primeira década deste século os limites do death metal com os quais Schuldiner tanto brigou durante sua carreira e o fizeram dar início ao Control Denied, de veia mais melódica e progressiva.
Infelizmente, o vocalista e guitarrista não sobreviveu a um agressivo câncer no cérebro para poder desfrutar dessa maior liberdade. Seu legado, no entanto, parece nunca deixar de cativar novas gerações de fãs de metal, constantemente atraídos por sua extremidade e/ou sua complexidade.
Apesar do risco de ter seu apelo diminuído pela discografia limitada e os outros projetos similares, quando perguntado por Steve Di Giorgio, o público que lotou o Carioca Club não deixou dúvidas quanto à sua empolgação por mais um retorno do Death to All.

Death to All — ao vivo em São Paulo
- Local: Carioca Club
- Data: 24 de janeiro de 2026
- Turnê: Symbolic Healing
- Produção: Overload
Repertório:
- Infernal Death
- Living Monstrosity
- Defensive Personalities
- Lack of Comprehension
- Altering the Future
- Zombie Ritual
- Within the Mind
- The Philosopher
- Spiritual Healing
- Symbolic
- Zero Tolerance
- Empty Words
- Sacred Serenity
- 1,000 Eyes
- Without Judgment
- Crystal Mountain
- Misanthrope
- Perennial Quest
Bis: - Spirit Crusher
- Pull the Plug

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