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Com M. Shadows recuperado, Avenged Sevenfold mostra suas várias faces a Curitiba

Banda americana ofereceu performance competente a público da Pedreira Paulo Leminski e transitou com êxito entre momentos calmos, soturnos, progressivos e pesados

Texto por Luís Bocatios | O primeiro grande show internacional de Curitiba em 2026 ocorreu na última quarta-feira (28): Avenged Sevenfold, pela primeira vez na cidade desde 2014, e o estreante local Mr. Bungle na Pedreira Paulo Leminski.

Desde a última visita — durante a qual tocaram no Curitiba Master Hall, atual Live Curitiba —, o Avenged lançou dois álbuns de inéditas, um de covers e um ao vivo. Embora lote arenas há tempos, mudou de patamar ao passar a encabeçar festivais ao redor do mundo e até capitanear uma noite do Rock in Rio 2024. A única mudança na formação desde então foi na bateria: saiu Arin Ilejay e entrou Brooks Wackerman (ex-Bad Religion), que se uniu ao vocalista M. Shadows, aos guitarristas Synyster Gates e Zacky Vengeance e ao baixista Johnny Christ.

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Foto: Clovis Roman @clovis_roman

Originalmente marcada para o período entre setembro e outubro de 2025, a série de shows pela América Latina teve que ser adiada devido a um hematoma na prega vocal esquerda de Shadows. Karen Dió, brasileira que serviria como atração de abertura, não conseguiu manter as novas datas. Para Curitiba, então, a única banda introdutória foi o Mr. Bungle. Influência declarada do A7X, o grupo liderado pelo genial Mike Patton não se intimidou e mostrou toda sua maluquice padrão — mesmo com uma mudança na formação.

Foto: Clovis Roman @clovis_roman

Mr. Bungle

Imprevisível e esquisito, o Mr. Bungle surgiu no fim dos anos 1980 fundindo metal extremo, ska, jazz, industrial e mais. Com o sucesso do Faith no More, grupo cujos vocais foram assumidos por Mike Patton em 1989, o Bungle acabou ficando em segundo plano. Mesmo assim gravou álbuns influentes como o homônimo de 1991, “Disco Volante” (1995) e “California” (1999).

Pouquíssimo desses discos foi lembrado no repertório de quarta (28), que privilegiou “The Raging Wrath of the Easter Bunny Demos”, regravação de 2020 da demo “The Raging Wrath of the Easter Bunny” (1986). O material de seis anos atrás foi o primeiro a contar com a estelar formação atual da banda: além de Patton nos vocais, o grupo conta com os também integrantes originais Trey Spruance (guitarra; ex-Faith no More) e Trevor Dunn (baixo; Fantômas) além de Scott Ian (guitarra; Anthrax) e Dave Lombardo (bateria; ex-Slayer) na bateria.

Foto: Clovis Roman @clovis_roman

Devido a compromissos com o Anthrax, Ian chegou a participar do show em São Paulo, na segunda-feira (26), mas foi substituído por Andreas Kisser para o restante da turnê. O integrante do Sepultura deu conta do recado mesmo fora de sua zona de conforto.

O álbum de 2020 contou com seis músicas no set, completo por um pedaço de uma faixa de “California”, outra do homônimo e cinco covers. Um deles, marcando a aleatoriedade de Patton, foi logo a primeira música: o suave tema de abertura da série “Narcos”: “Tuyo”, composta pelo brasileiro Rodrigo Amarante (Los Hermanos).

Foto: Clovis Roman @clovis_roman

A calmaria durou pouco: Patton mandou um “Curitiba, bota pra f#der” e a banda emendou as porradarias “Anarchy Up Your An#s” e “Bungle Grind”, que trazem riffs de death metal e linhas de bateria incessantes do monstruoso Lombardo. No final da segunda, o vocalista brincou com a plateia perguntando “quem é esse alemão aqui?” enquanto apontava para Andreas Kisser. Já o pouco interessante cover de “I’m Not in Love” (10cc) foi compensado por “Eracist”, ponto alto que mais remete ao Faith no More, especialmente no disco “King for a Day… Fool for a Lifetime” (1995) — que, aliás, tem Spruance na guitarra.

Patton explorou diversos sons bizarros à sua disposição — desde um teremim até um porquinho de borracha — e demonstrou magnetismo surreal. Sua voz parecia indestrutível, pois ia de gritos e guturais a linhas melódicas suaves. O restante da banda também é de altíssima competência, com destaque para o animalesco Dave Lombardo e o já citado Kisser.

Outro dos melhores momentos do show foi a dobradinha com trecho de “Retrovertigo” (canção de “California” regravada pelo Avenged Sevenfold e único momento no qual Andreas pediu para recomeçar após um erro) e um cover da seminal “Refuse/Resist”, do Sepultura, que teve um grito inacreditável de Patton próximo ao final e foi seguido por reações de “Sepultura, Sepultura”. “São heróis nossos”, respondeu o cantor. A pesadíssima “Sudden Death” e uma versão intensa de “Hopelessly Devoted to You” (da trilha sonora de “Grease – Nos Tempos da Brilhantina”) antecede o que dá para chamar de maior clássico do grupo: “My Ass is on Fire”, que, lá pela metade, trouxe Lombardo executou uma batida de funk carioca.

Antes da última música, Patton homenageou sua Pombagira, beijou guias de umbanda que estavam no pescoço e repetiu diversas vezes a palavra “laroyê”, forma de saudação aos Exus e Pombagiras na Umbanda e no Candomblé. Por fim, tivemos um cover de “All by Myself” (Eric Carmen) adaptado para “tomar no c#”. Mike fez a plateia levantar os dedos do meio para cima e balançar os braços. O público não engajou muito, talvez pela esquisitice e o peso do Mr. Bungle, mas também não houve hostilidade. Já os poucos que estavam lá para ver o Bungle certamente se deliciaram com o espetáculo maluco.

Foto: Clovis Roman @clovis_roman

Mr. Bungle — repertório:

  1. Tuyo (Rodrigo Amarante cover)
  2. Anarchy Up Your Anus
  3. Bungle Grind
  4. I’m Not in Love (10cc cover)
  5. Eracist
  6. Spreading the Thighs of Death
  7. Retrovertigo (parcial)
  8. Refuse/Resist (Sepultura cover)
  9. Hypocrites / Habla español o muere
  10. Sudden Death
  11. Hopelessly Devoted to You (John Farrar cover)
  12. My Ass Is on Fire (com trecho de “Bololo Haha”, de MC Bin Laden)
  13. All by Myself (Eric Carmen cover – alterada para “Tomar no C#”)

Avenged Sevenfold

Pouco antes das 20h10, as luzes da Pedreira se apagaram e o sistema de som começou a tocar “Nightcall”, da trilha sonora do filme “Drive”, e a plateia já acendeu lanternas e celulares. Na abertura de fato, “Game Over”, vinda do disco mais recente “Life is But a Dream…” (2023), trouxe M. Shadows sentado em uma cadeira e com uma touca nos primeiros minutos. Foi bem recebida, mas houve uma crescente em cantoria e exaltação do público em “Chapter Four” — a segunda da noite, oriunda do álbum “Waking the Fallen” (2003) e substituindo a recente “Mattel”.

Foto: Clovis Roman @clovis_roman

A loucura completa começou com a clássica “Afterlife”, dona de refrão melódico que deve ter embalado a adolescência de boa parte dos presentes. A essa altura, já estava claro: o tratamento feito por M. Shadows deu um resultado satisfatório, pois o cantor — que teve diversos altos e baixos em termos de voz nos últimos anos — mandou bem em Curitiba. A banda ao seu redor é competente, especialmente Brooks Wackerman, mas o destaque é o fantástico Synyster Gates, um dos melhores guitarristas de sua geração. Seu instrumento foi destacado pelo sistema de som e o grupo lhe oferece momentos de protagonismo, com solos surreais ao longo da noite.

Foto: Clovis Roman @clovis_roman

Em seu primeiro contato com o público, M. Shadows agradeceu aos presentes e logo estava com uma carta em suas mãos. Ele a abriu e falou “it’s a f#cking boy!”, proporcionando um chá revelação a algum casal presente. Foi ao futuro rockeirinho que Shadows dedicou outro hit: “Hail to the King”, mais uma a levar o público à loucura, com direito a coro ensurdecedor no refrão e sinalizadores na pista.

O pior momento da noite se deu com a fraca e genérica “We Love You”, única a não empolgar a plateia. “Buried Alive”, que veio em seguida para compensar, começa como uma balada e se intensifica. Traz uma performance brutal de Wackerman, dono da tarefa ingrata de tocar as partes gravadas por Mike Portnoy no álbum “Nightmare” (2010), e um solo fabuloso de Gates. A banda reconhece o momento mais pesado do show e joga luzes vermelhas, além de imagens no telão inserindo chifres e outros adereços demoníacos nos integrantes. O clima segue em “The Stage”, uma das mais progressivas da carreira do grupo. Esta transita entre partes caóticas, pesadas e melódicas, com Gates novamente se destacando.

Foto: Clovis Roman @clovis_roman

Na sequência, Zacky Vengeance pegou um violão e Shadows contou ao público que o guitarrista havia sido picado por uma abelha durante a canção anterior. Vengeance disse que estava tudo bem e poderia tocar. O momento mais calmo deu uma brecha para o público pedir “Seize the Day”, ausente dos setlists desde 2024 e tocada poucas vezes nos últimos 18 anos. Foi tocada quase que totalmente em uma versão acústica improvisada — não representou o melhor momento técnico, mas valeu a intenção. Na mesma vibe, veio a balada “So Far Away”, responsável por provocar emoção visível na plateia.

Mostrando ótimo controle sobre a plateia, M. Shadows pede a movimentação do público até antes da próxima música começar. Festa geral quando se inicia “Bat Country”, primeira canção do grupo a romper a bolha do metalcore ainda em 2005. Por outro lado, “Nobody”, vinda do álbum mais recente, foi outra que falhou em empolgar muito o público, mesmo que algumas pessoas estivessem cantando. Isso seria revertido com a introdução soturna de “Nightmare”, uma das melhores canções do A7X, com um refrão bastante pegajoso. Shadows desceu do palco e cantou apoiado na grade da pista premium, cumprimentando as pessoas.

“Not Ready to Die”, faixa da trilha sonora do game “Call of Duty: Black Ops” (2010) resgatada especificamente para os shows no Brasil, não deixou uma marca, mas “Unholy Confessions”, talvez uma das mais pesadas do repertório, rendeu bastante diversão. Quando as coisas pareciam perto do fim, três músicas bem longas. “Save Me”, de quase dez minutos, prova como Portnoy foi bem-sucedido com o A7X ao trazer seus andamentos quebrados característicos. Também conta com uma das partes de guitarras harmonizadas mais interessantes da carreira da banda. “Cosmic”, que ultrapassa os sete minutos, ficou sobrando antes da conclusão definitiva com a épica e soturna “A Little Piece of Heaven”, uma das melhores composições do Avenged Sevenfold.

Foto: Clovis Roman @clovis_roman

Foram aproximadamente duas horas para fã nenhum botar defeito. Mesmo com alguns momentos dispensáveis — especialmente de “Life is But a Dream…” —, o Avenged Sevenfold obteve sucesso ao passear por praticamente todas as fases de sua carreira. A competente performance cuidou de guiar e alternar bem os momentos mais calmos, soturnos, progressivos e pesados, expondo as variadas facetas de uma das bandas pesadas mais populares do século.

Foto: Clovis Roman @clovis_roman

Avenged Sevenfold — ao vivo em Curitiba

  • Local: Pedreira Paulo Leminski
  • Data: 28 de janeiro de 2026
  • Turnê: Life is But a Dream… Latin America Tour 2026
  • Produção: 30e

Repertório:

  1. Game Over
  2. Chapter Four
  3. Afterlife
  4. Hail to the King
  5. We Love You
  6. Buried Alive
  7. The Stage
  8. So Far Away
  9. Seize the Day (a pedidos)
  10. Bat Country
  11. Nobody
  12. Nightmare
  13. Not Ready to Die
  14. Unholy Confessions
  15. Save Me
  16. Cosmic
  17. A Little Piece of Heaven

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