Black Country Communion deixa de soar ótimo e contenta-se com o “bom” em “V”

Principais elementos do supergrupo aparecem em quinto álbum de estúdio, às vezes de forma surpreendente, às vezes de modo previsível

Em 2013, o Black Country Communion entrou em seu primeiro hiato. Não foi a situação mais pacífica, já que o baixista Glenn Hughes e o guitarrista Joe Bonamassa, ambos também responsáveis por vocais, trocaram provocações em entrevistas — Hughes se disse frustrado por não poder realizar mais shows com o supergrupo devido à agenda solo do colega, que rebateu alegando ter sido “forçado” a realizar apresentações.

­

- Advertisement -

É curioso observar que as tensões já existiam desde as gravações do terceiro álbum, “Afterglow” (2012). Mesmo assim, criaram um dos melhores das carreiras de todos os envolvidos — Glenn, Joe, o baterista Jason Bonham e o tecladista Derek Sherinian.

Nada como o tempo para remediar a situação: em 2016, uma reunião foi anunciada e gerou “BCCIV”, um disco bem bom, ainda que ligeiramente abaixo dos antecessores. Desde então, cada um foi para o seu canto novamente, embora existisse, desde 2018, um planejamento para voltar ao estúdio e gravar mais um trabalho de inéditas, o quinto na contagem geral. Glenn chegou a dizer isso, para este jornalista que vos escreve, no ano citado. Faz tempo, né?

A pandemia atrapalhou um pouco entre 2020 e 2022, é verdade, mas cada um havia retomado sua carreira paralelamente. Bonamassa e Hughes focaram em suas carreira solo — com o segundo também integrando o The Dead Daisies entre 2019 e 2023 —, enquanto Bonham se vinculou a Sammy Hagar com o The Circle e Sherinian seguiu com o Sons of Apollo. Onde enfiar o Black Country Communion nessas agendas?

No miolo de 2023. Foi quando o quarteto se reuniu no estúdio Sunset Sound, em Hollywood, Estados Unidos, mais uma vez sob a batuta do produtor Kevin Shirley, para gravar o que se tornou V. Ao menos é o que eles dizem.

Não há razão para duvidar, mas “V” tem como principal característica não soar como um álbum gerado a partir de colaborações coletivas em estúdio. As composições, em maioria, passam a impressão de terem sido desenvolvidas de forma solitária por Bonamassa ou, especialmente, Hughes.

Sem a dinâmica improvisacional, o Black Country Communion perde um pouco e fica previsível. Todos os elementos estão ali: os vocais impressionantes de Glenn no alto de seus 72 anos, a guitarra ardida de Joe, os teclados agregadores de Derek e a bateria de Jason, repleta de referências a seu pai, John Bonham. Há faixas inclinadas ao hard rock, canções onde o funk aparece, composições que carregam o blues como referência principal, riffs pesados, solos de se tirar o fôlego… mas sem dar liga como em outros tempos. É como se cada um tivesse feito sua parte separadamente em meio a espaços pré-definidos. Bom, não ótimo.

Já conhecida do público — assim como as duas seguintes —, a faixa de abertura “Enlighten” serve como exemplo da descrição anterior. Começa até com uma abordagem mais zeppeliana, mas logo migra para uma característica ligeiramente atmosférica — o que faz soar quase como uma canção solo contemporânea de Hughes. O solo econômico de Joe Bonamassa prova como ele está mais disposto a jogar pelo time.

“Stay Free”, por sua vez, é 100% Glenn setentista. Funky hard rock de riff irresistível, com direito a um refrão bem aberto apoiado por backing vocals femininos. Escolha certeira para primeiro single. Já “Red Sun”, canção mais longa do disco (empatada em 6min32seg com “Love and Firth”), soa mais densa não apenas pela duração, como também por seus arranjos mais pesados. Não compromete, tampouco cativa.

Leia também:  Smashing Pumpkins anuncia dois shows no Brasil para novembro

A atmosfera carregada continua em “Restless”, só que com outras referências: este é um blues à moda oitentista — com teclados bem presentes — onde Joe Bonamassa mostra por que é um gigante do estilo musical citado. Estão aqui alguns dos melhores solos do disco. Como contraponto, “Letting Go” retoma a pegada hard rock vibrante de outrora — ao menos nos versos, já que o refrão enfraquece o andamento. Não decepciona, mas soa como uma canção que poderia ser melhor aproveitada no período em que Hughes esteve no The Dead Daisies.

Mais agressiva e ousada, “Skyway” recoloca o álbum em um aspecto mais desafiador, menos previsível. O herói oculto não só aqui, como em quase todo o trabalho, é Derek Sherinian: em um supergrupo repleto de destaques individuais, o tecladista assume para si a função de “unir” tudo o que se ouve. É a base do som. Por vezes, abdica de aparecer com mais frequência, embora consiga mais holofotes nesta canção.

O groove volta a ser melhor explorado em “You’re Not Alone”, com menção especial à linha de baixo feroz de Hughes e à passagem onde cada integrante oferece um solo. Talvez seja uma das faixas que mais remeta aos melhores momentos do Black Country Communion — ao lado da incrível “Love and Faith”, única onde Glenn e Joe compartilham vocais principais. Neste semiépico, todos os integrantes brilham, mas o DNA criativo de Bonamassa está mais presente na construção melódica, o que claramente deixa o guitarrista mais à vontade para brilhar.

Próxima do fim, “Too Far Gone” recorre a afinações mais graves, mas exceto a parte de solo, também soa como uma canção que se encaixaria melhor no The Dead Daisies. “The Open Road” fecha a audição novamente em busca do groove perfeito. Soa como uma legítima parceria entre Glenn Hughes e Joe Bonamassa — e indica o caminho pelo qual outras faixas do álbum deveriam ter seguido.

Cada uma à sua maneira, “Stay Free”, “Skyway”, “You’re Not Alone”, “Love and Faith” e “The Open Road” mostram que ainda vale a pena esperar altíssimo nível por parte do Black Country Communion. A maioria dos destaques está na segunda metade de “V”, o que indica como a audição cresce com o desenrolar da tracklist.

São cinco destaques em um disco de dez faixas. Não é pouco. O “problema” é estarmos falando sobre uma banda que ofereceu alguns dos melhores discos de hard rock da última década. Isso, repito, faz com que “V” seja bom, não ótimo. Agradável, mas um tantinho previsível.

*Ouça “V” a seguir, via Spotify, ou clique aqui para conferir em outras plataformas digitais.

*O álbum está na playlist de lançamentos do site, atualizada semanalmente com as melhores novidades do rock e metal. Siga e dê o play!

Black Country Communion — “V”

  1. Enlighten
  2. Stay Free
  3. Red Sun
  4. Restless
  5. Letting Go
  6. Skyway
  7. You’re Not Alone
  8. Love And Faith
  9. Too Far Gone
  10. The Open Road

Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Twitter | TikTok | Facebook | YouTube | Threads.

ESCOLHAS DO EDITOR
InícioResenhasResenhas de discosBlack Country Communion deixa de soar ótimo e contenta-se com o “bom”...
Igor Miranda
Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

3 COMENTÁRIOS

  1. Eu achei o Afterglow inferior a todos os outros discos deles, inclusive inferior ao disco do California Breed. Já o V só ouvi uma vez, mas gostei bastante, de cara.

DEIXE UMA RESPOSTA (comentários ofensivos não serão aprovados)

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui


Últimas notícias

Curiosidades