“The Spaghetti Incident?”, o capítulo subestimado do Guns N’ Roses

Álbum de covers imprevisto explora territórios musicais inesperados; inclusão de faixa composta por Charles Manson provocou polêmica

O lançamento de “Nevermind” pelo Nirvana em 1991 marcou o início de uma revolução na indústria musical. O sucesso estrondoso do movimento grunge não apenas redefiniu a paisagem sonora, mas também teve implicações mercadológicas profundas para as bandas de hard rock que dominavam as paradas. Com sua abordagem mais crua e autêntica em comparação com o glam metal predominante na década de 1980 e letras mais centradas na dura realidade do cotidiano do jovem americano médio, o grunge desafiou, suplantou e sepultou esse estilo — que trazia o Guns N’ Roses como um dos grandes representantes.

Enquanto grupos como Poison e Warrant viram sua popularidade desvanecer, o GN’R conseguiu manter sua relevância. Parte disso pode ser atribuída à aura de mistério cuidadosamente cultivada pelo vocalista Axl Rose, que optou por cortar todos os laços com a mídia em 1992. Além disso, a antecipação em torno do sucessor dos aclamados álbuns duplos “Use Your Illusion”, lançados também em 1991, contribuiu para manter a chama da expectativa acesa.

- Advertisement -

Foi em meio a essa atmosfera que “The Spaghetti Incident?” chegou às lojas.

A improvisação que gerou “The Spaghetti Incident?”

O Guns N’ Roses iniciou o processo de criação de “The Spaghetti Incident?” sem a menor previsão de que este se tornaria um álbum completo pronto para lançamento. Inicialmente, a intenção era aliviar a intensa pressão das gravações de “Use Your Illusion”, com Axl Rose, Slash (guitarra solo), Duff McKagan (baixo), Matt Sorum (bateria), Dizzy Reed (teclados) e o recém-chegado Gilby Clarke (guitarra base) se entregando a improvisações de músicas que formaram seus caráteres.

Conforme detalhado por Duff em uma entrevista à Popular 1 da Espanha em janeiro de 1994, essa abordagem representava uma forma de relaxar durante as tumultuadas sessões dos “Illusion” e, ao mesmo tempo, prestar homenagem aos artistas que influenciaram o grupo. Em fala recente à Classic Rock, ele destacou:

“Eram músicas que tocávamos na passagem de som ou ao vivo ao longo dos anos. Não havia nenhum plano definido. Gravamos algumas e só depois decidimos que seria um disco. Se ele vendesse, alguns de nossos heróis iriam receber alguns royalties.”

O ponto de virada ocorreu, conforme revelou Slash ao The Boston Globe, quando eles perceberam que tinham um talento especial para fazer versões:

“Gravamos quatro músicas que tiveram grande influência sobre nós, e sabíamos que não tínhamos espaço suficiente para incluí-las nos ‘Illusion’, então pensamos em fazer um EP — e [a ideia] meio que cresceu a partir daí.”

O que começou como a concepção de um EP logo evoluiu, como Axl Rose expôs para o Rockline, em 3 de janeiro de 1994. Nas palavras do vocalista, eram “músicas que queríamos que as pessoas ouvissem, de que gostávamos muito”, resultando na decisão de criar um álbum completo em vez de um EP.

Cada integrante contribuiu com suas escolhas de músicas a serem gravadas. Slash, em entrevista à Kerrang!, compartilhou insights sobre as preferências individuais:

“Axl queria fazer a versão de ‘Black Leather’ [dos Sex Pistols] e ‘Since I Don’t Have You’ [do The Skyliners], que ele costumava cantar o tempo todo. ‘New Rose’, do The Damned, foi escolha do Duff. Nós tocamos ‘Down on the Farm’ [do U.K. Subs] no Farm Aid [em 1990], mas não consigo lembrar como surgiu essa ideia. Queríamos todos fazer uma dos New York Dolls, e ‘Human Being’ era a melhor opção.

Tocamos duas dos Stooges, mas Axl preferiu sua voz em ‘Raw Power’ [do que na nunca lançada ‘Down on the Street’]. Foi ideia do Michael Monroe [vocalista do Hanoi Rocks] tocar uma do Dead Boys [‘Ain’t It Fun’] como homenagem ao [vocalista] Stiv Bators [morto em 1990]. ‘Buick Makane’ [do T. Rex], ‘Hair of the Dog’ [do Nazareth] e ‘I Don’t Care About You’ [do Fear] foram ideias minhas. Não consigo lembrar de quem foi a ideia de tocar ‘Attitude’, dos Misfits [tocada com frequência durante a turnê Use Your Illusion].”

Do palco ao estúdio

Com o encerramento da agitada turnê Use Your Illusion em julho de 1993 — não apenas a mais longa da banda, mas uma das mais longas da história do rock, com 192 shows em 27 países —, o Guns N’ Roses teve a oportunidade de direcionar sua energia para a tão aguardada produção do próximo álbum. Enfrentando a inevitável depressão pós-estrada, os seis não perderam tempo e voltaram imediatamente ao estúdio.

Ao término das gravações seguiu-se um período crucial de mixagem que se estendeu por aproximadamente quatro meses. Essa imersão representou, segundo Slash, um antídoto para a depressão pós-estrada.

Leia também:  A tentativa de assassinato contra Bob Marley que inspirou novo filme

Durante essas sessões, o Guns registrou instrumentais para “Beer and a Cigarette”, originalmente do Hanoi Rocks. No entanto, motivada pelo desejo de evitar que o compositor Andy McCoy recebesse royalties, a banda decidiu excluir a música do álbum. Além disso, uma parte substancial das guitarras de Izzy Stradlin — cuja saída do grupo se deu no fim de 1991 — foi regravada por Gilby Clarke.

Zelosos em não criar expectativas exageradas, os membros do Guns asseguraram que a gravadora, Geffen, adotasse uma abordagem promocional relativamente discreta. Essa estratégia buscava despojar “The Spaghetti Incident?”, originalmente previsto para outubro, mas adiado para 23 de novembro de 1993, do peso monumental de seus antecessores. Também não haveria turnê.

Seja pela campanha discreta, pelo título enigmático — fazendo alusão a um incidente com o ex-baterista Steven Adler, que apelidava sua cocaína de espaguete —, pela arte de capa que exibia literalmente uma lata de espaguete, ou pelo repertório relativamente obscuro, “The Spaghetti Incident?” acabou se tornando o álbum menos aclamado da banda. Apesar disso, conquistou disco de platina em dez países, incluindo o Brasil, onde superou a marca de 250 mil cópias vendidas.

Charles Manson: entre a arte e a controvérsia

Apenas um mês antes do tão esperado lançamento de “The Spaghetti Incident?”, o empresário Doug Goldstein compartilhou com o Los Angeles Times um intrigante detalhe sobre o álbum:

“Há uma faixa bônus, mas Axl quer que ela fale por si mesma. […] Não foi feita para os críticos ou qualquer outra pessoa. É um presente para os fãs.”

Esse “presente” era “Look at Your Game, Girl”, de autoria do criminoso e líder de culto americano Charles Manson. Axl Rose, surpreendentemente, gravou-a sem o conhecimento dos outros membros da banda e só obteve o sinal verde deles para incluí-la no álbum se esta permanecesse incógnita; a música não constaria da tracklist impressa, e Manson não seria mencionado nos créditos. Supostamente, para manter o segredo, ela sequer foi incluída nas cópias antecipadas distribuídas para a imprensa.

Contudo, a notícia acabou vazando, levando o vocalista a emitir um comunicado explicando a inclusão da música:

“Particularmente, gostei da letra e da melodia. Ouvir aquilo me chocou, e eu pensei que poderia haver outras pessoas que gostariam de ouvir. A letra fala sobre a mina estar fora da casinha, jogando um jogo maluco. Senti que era irônico que uma música assim fosse de autoria de Charles Manson, um cara que deveria conhecer as complexidades internas da loucura. Manson é uma parte bem dark da cultura e da história dos EUA. O cara é alvo de medo e fascínio em livros, filmes e nas entrevistas que ele deu. A maioria das pessoas nunca tinha ouvido nada do que ele gravou.”

A garantia de que todos os royalties seriam destinados a Bartek Frykowski, filho de uma das vítimas da Família Manson, Wojiciech Frykowski, não foi suficiente para acalmar a mídia. Outras figuras relevantes, como Ed Rosenblatt, presidente da Geffen, se isentaram da responsabilidade, afirmando que prefeririam que a música não estivesse no álbum, mas reconhecendo que, dadas as restrições contratuais e a crença na liberdade de expressão, a decisão cabia exclusivamente ao Guns N’ Roses.

Chris Cornell, do Soundgarden — que teve “Big Dumb Sex” regravada em “The Spaghetti Incident?” —, defendeu Axl em uma entrevista à Time Off, adotando a perspectiva de separar o artista de sua obra:

“Acho que ele [Charles Manson] escreveu algumas músicas legais, independentemente de quem ele é ou do que fez. O que ele fez e com o que ele estava envolvido ainda não significa que o que ele fez como artista não deva ser ouvido (…) Eu não acho que a arte tenha nada a ver com o indivíduo que cria a arte, no sentido de que você tenha que concordar com a pessoa para gostar da arte que ela cria.”

Já os colegas de Rose se distanciaram do episódio controverso. Duff McKagan sequer toca no assunto na autobiografia “É Tão Fácil (E Outras Mentiras)” (Rocco, 2012). O mesmo vale para Slash, que deixou o tópico passar batido em seu livro homônimo (Ediouro, 2008), embora, na época, tenha comentado sobre a repercussão negativa da faixa, da qual não participou, à sueca Okej:

“Foi exatamente o que queríamos evitar. Essa é a razão pela qual não incluímos nem o nome da música [na tracklist] nem o de Manson [nos créditos]. Não queríamos ser associados a ele. Mas as coisas nem sempre saem como você quer…”

Ao final, o Guns N’ Roses não foi pioneiro em regravar Charles Manson — Redd Kross e Lemonheads já o haviam feito — e o controverso cover não rendeu um centavo ao infame sujeito. Condenado à prisão perpétua em 1971 pelos assassinatos cometidos pela Família Manson em 1969, o criminoso morreu em 19 de novembro de 2017.

Leia também:  A música das antigas do Megadeth que pode voltar aos shows, segundo Mustaine

Guns N’ Roses rende dividendos e prosperidade

Charles Manson pode não ter recebido um centavo, mas o mesmo não pode ser dito a respeito dos músicos dos grupos punk homenageados pelo Guns N’ Roses. Após anos na obscuridade, onde vender o almoço para comprar a janta era a norma, esses artistas viram uma chuva de dinheiro cair do céu.

Quando a Metal Hammer levantou a possibilidade de que alguns desses músicos deveriam estar extremamente contentes com o reconhecimento em “The Spaghetti Incident?” — cujo encarte sugere que os ouvintes busquem as gravações originais —, Duff acrescentou, rindo: “E muito ricos!”.

Em uma entrevista à Guitar Player, Slash expressou sua satisfação com o impacto financeiro positivo:

“Alguns dos caras que escreveram essas músicas estão muito animados porque [finalmente] vão ganhar algum dinheiro.”

Com seu característico humor mordaz, Axl Rose resumiu, de maneira descontraída durante uma entrevista à Rockline:

“Posso dizer que queríamos chamar o álbum de ‘Pension Fund’ (‘Fundo de Pensão’). Porque estamos meio que ajudando esses caras a pagar o aluguel.”

Dessa forma, uma certeza se destaca: deixando de lado a controvérsia em torno de sua faixa bônus, “The Spaghetti Incident?” não apenas resgatou músicas esquecidas, como, ao fazê-lo, também se revelou uma fonte inesperada de sustento para os compositores por trás delas. E, tal indicado por Slash ao The Calgary Herald, isso teve um impacto positivo, mesmo que efêmero, dentro do próprio Guns N’ Roses:

“Foi um alívio e bastante reconfortante quando o estresse parecia insuportável (…) Foi verdadeiramente unificador para todos nós (…) Foi bom perceber que a essência da banda ainda permanecia a mesma. A diferença estava em tudo ao nosso redor, que havia mudado tanto. Provavelmente, [a criação de ‘The Spaghetti Incident?’] foi uma das coisas mais importantes para nos manter avançando.”

Guns N’ Roses – “The Spaghetti Incident?”

  • Lançado em 23 de novembro de 1993 pela Geffen
  • Produzido por Mike Clink e Guns N’ Roses, exceto “Since I Don’t Have You” (produzida por Guns N’ Roses) e “You Can’t Put Your Arms Around a Memory” (produzida por Duff McKagan e Jim Mitchell)

Faixas:

  1. Since I Don’t Have You (The Skyliners)
  2. New Rose (The Damned)
  3. Down on the Farm (U.K. Subs)
  4. Human Being (New York Dolls)
  5. Raw Power (The Stooges)
  6. Ain’t It Fun (Dead Boys)
  7. Buick Makane / Big Dumb Sex (T. Rex / Soundgarden)
  8. Hair of the Dog (Nazareth)
  9. Attitude (Misfits)
  10. Black Leather (Sex Pistols)
  11. You Can’t Put Your Arms Around a Memory (Johnny Thunders)
  12. I Don’t Care About You / Look At Your Game Girl (Fear / Charles Manson)

Músicos:

  • W. Axl Rose (vocal, teclados em “Since I Don’t Have You”, kazoo em “Human Being”)
  • Slash (guitarra solo, segunda voz em “Buick Makane/Big Dumb Sex”, talkbox em “Hair of the Dog”, backing vocals em “Attitude”)
  • Duff McKagan (baixo, backing vocals, violão, vocal em “You Can’t Put Your Arms Around a Memory”, “New Rose” e “Attitude”, segunda voz em “Raw Power”, bateria em “You Can’t Put Your Arms Around a Memory”)
  • Matt Sorum (bateria, percussão em “Hair of the Dog”, backing vocals em “Human Being” e “Attitude”)
  • Dizzy Reed (teclados, piano em “Since I Don’t Have You”, percussão em “Look at Your Game, Girl”, backing vocals em “You Can’t Put Your Arms Around a Memory”)
  • Gilby Clarke (guitarra base, backing vocals)

Outros músicos:

  • Izzy Stradlin (guitarra base não creditada em “Human Being”)
  • Michael Monroe (segunda voz em “Ain’t It Fun”)
  • Mike Staggs (terceira guitarra em “Ain’t It Fun”)
  • Mike Fasano (percussão em “Hair of the Dog”)
  • Richard Duguay (guitarras solo e base em “You Can’t Put Your Arms Around a Memory”)
  • Eddie Huletz (backing vocals em “You Can’t Put Your Arms Around a Memory”)
  • Blake Stanton (backing vocals em “I Don’t Care About You”)
  • Eric Mills (backing vocals em “I Don’t Care About You”)
  • Rikki Rachtman (backing vocals em “I Don’t Care About You”)
  • Stuart Bailey (backing vocals em “I Don’t Care About You”)
  • Carlos Booy (violão em “Look at Your Game, Girl”)

Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Twitter | Threads | Facebook | YouTube.

ESCOLHAS DO EDITOR
InícioCuriosidades“The Spaghetti Incident?”, o capítulo subestimado do Guns N’ Roses
Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

DEIXE UMA RESPOSTA (comentários ofensivos não serão aprovados)

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas notícias

Curiosidades