Como os excessos enfim alcançaram os Rolling Stones em “Goats Head Soup”

Exílio afastou Mick Jagger de Keith Richards, o que afetou a banda a ponto de continuar sendo ótima, mas não mais a melhor

Durante o período entre 1968 e 1972, os Rolling Stones eram o ideal platônico de uma banda de rock’n’roll. Inalcançáveis em seu hedonismo, carisma e musicalidade, o grupo inglês lançou quatro discos de estúdio clássicos, figuras onipresentes em listas de maiores da história, assim como um álbum ao vivo capaz de capturar a visceralidade de suas apresentações ao vivo.

Nem mesmo o marasmo de um exílio fiscal na França, inundado por drogas, foi capaz de parar o grupo. Nesse período, o mais sombrio possível, produziram talvez seu trabalho definitivo, “Exile on Main St.” (1972).

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Entretanto, a conta começa a chegar para todo mundo uma certa hora. Sempre há o momento em que o talento não brilha com a mesma intensidade e aquelas faíscas de genialidade, antes presentes mesmo em meio à esbórnia, agora somem por causa dela.

Essa é a história de como a ressaca começou a bater nos Stones.

Caravana da baixaria

“Exile on Main St.” foi lançado em maio de 1972, alcançando o primeiro lugar nas paradas dos EUA e Reino Unido. No mês seguinte, os Rolling Stones deram início à sua primeira turnê norte-americana desde o desastre que foi o festival de Altamont.

Ao longo de dois meses e 48 shows, a tour se tornou infame na história do rock. Acabou apelidada de Stones Touring Party (uma brincadeira de linguagem que pode ser traduzido tanto como “Equipe de Turnê dos Stones” quanto “Farra Itinerante dos Stones”). 

O termo foi criado por Robert Greenfield, que escreveu o livro “S.T.P.: A Journey Through America With The Rolling Stones” compilando suas reportagens sobre a turnê para a Rolling Stone. O jornalista já era veterano de cobrir a banda, tendo entrevistado o guitarrista Keith Richards no auge do hedonismo em Nêllcote, mansão onde gravaram “Exile”.

Além de Greenfield, acompanharam a banda o escritor Terry Southern – amigo de longa data de Richards –, que cobriu os shows para o Saturday Review; e Truman Capote, contratado pela Rolling Stone para escrever um artigo sobre a turnê, mas apesar de dar entrevistas no programa de Dick Cavett sobre a experiência de seguir o grupo, nunca entregou a matéria.

Contudo, a peça mais infame de mídia a surgir desse período foi o documentário “Cocksucker Blues”. Dirigido pelo fotógrafo suíço Robert Frank, responsável pela arte de capa de “Exile on Main St.”, o filme captura ao estilo cinéma vérité os bastidores da turnê, incluindo uso casual de drogas pesadas, muito sexo e um lado dos Stones normalmente não apresentado ao público.

Por isso, a banda embargou seu lançamento e proibiu a distribuição nos anos 1970 até que um acordo estabelecendo regras — como a presença de Frank em toda sessão e um limite para o número de exibições por ano. Esse combinado permanece vigente até hoje, mesmo com a morte do fotógrafo em 2019.

Enquanto isso tudo acontecia, os Stones também estavam dando jeito nas finanças. Em 1971, eles descobriram que sua equipe não pagava os impostos relacionados à banda há sete anos. Sob o conselho do gerente financeiro Rupert Loewenstein, entraram num esquema de exílio fiscal.

O vocalista Mick Jagger, anos depois, falou sobre a situação (via NME):

“Eu não levava em conta os impostos e nenhum empresário pensou no assunto, apesar de que todos falavam em fazer questão de pagar meus impostos. Então, após sete anos de trabalho, eu descobri que nada foi pago e eu devia uma fortuna.”

A solução legal encontrada foi o estabelecimento de uma estrutura complicada, na qual uma empresa holding chamada Promogroup, responsável por receber toda a renda da banda, montou escritórios no Caribe e na Holanda, onde não se taxa royalties. 

Em 2006, foi revelado pelo jornal inglês The Independent como esse esquema assegurou que a banda só precisasse pagar o equivalente a 1,6% de imposto por ganhos declarados de 450 milhões de euros ao longos dos 20 anos anteriores.

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O único lugar que deixava todo mundo entrar

Ao final da turnê norte-americana, os vistos dos Rolling Stones venceram, e precisaram retornar à Europa. A maioria dos integrantes nessa época estavam morando no sul da França, exceto por Keith Richards, que precisou se mudar com Anita Pallenberg para a Suíça após diversos problemas relacionados a drogas e armas com a polícia francesa em Nêllcote.

Em sua autobiografia “Vida”, Keith escreveu sobre o período:

“Mick de vez em quando me visitava na Suíça, para conversar sobre ‘reestruturação econômica’. Passávamos metade do tempo sentados, conversando sobre advogados tributaristas. Os meandros das leis sobre impostos da Holanda comparados com a legislação de impostos britânica e a legislação de impostos francesa. Todos esses ladrões de impostos estavam mordendo nossos calcanhares. Eu tentava não pensar nisso. Mick era um pouco mais prático. ‘As decisões que tomarmos agora vão afetar blá-blá-blá’. Mick fazia o trabalho e eu pegava uma pitada. A desintoxicação nem sempre funcionava nos períodos entre as excursões, quando eu não estava trabalhando.”

Keith e Anita entravam e saíam de clínicas de reabilitação nessa época.Ela permaneceu limpa de heroína enquanto estava grávida do segundo filho dos dois, Angela. Logo após o parto, voltou a usar.

Os outros três Stones, no entanto, estavam de saco cheio da banda. O baterista Charlie Watts detestou a turnê norte-americana e só foi convencido a permanecer no grupo quando Rupert Loewenstein lhe explicou como seria complicado manter seu estilo de vida na zona rural francesa tocando em bandas de jazz. O baixista Bill Wyman também estava sem dinheiro, uma vez que não compunha músicas. O guitarrista Mick Taylor enfrentava uma insatisfação geral com toda a estrutura à sua volta.

Em novembro de 1972, a banda foi toda para a Jamaica gravar o que seria o sucessor de “Exile on Main St.”. No livro “According to the Rolling Stones – A Banda Conta Sua História”, de Dora Loewenstein e Philip Dodd, Keith explicou a razão da escolha desse país:

“A Jamaica era um dos poucos lugares que deixavam todos nós entrar! Naquela época, o único país no qual eu era permitido existir era a Suíça, que era um porre pra mim, pelo menos no primeiro ano, porque eu não gostava de esquiar… Nove países me expulsaram, muito obrigado, então era uma questão de como manter todo mundo junto.”

A banda se estabeleceu no Terra Nova Hotel, em Kingston, e se pôs a gravar no Dynamic Studios. De acordo com Richards em sua autobiografia, o processo das sessões foi lento:

“‘Goats Head Soup’ levou algum tempo para desabrochar, apesar do Dynamic Sounds e do fervor do momento. Acho que Mick e eu ficamos um pouco secos depois de ‘Exile’. Tínhamos acabado de fazer a excursão pelos Estados Unidos e já vinha outro álbum. Depois de ‘Exile’, uma belíssima coleção de músicas que pareciam se casar umas com as outras, seria difícil conseguir aquela unidade outra vez. Havia um ano não entrávamos em um estúdio. Mas tivemos algumas ideias boas, ‘Coming down again’, ‘Angie’, ‘Starfucker’, ‘Heartbreaker’.”

As sessões foram interrompidas em dezembro quando os cinco integrantes precisaram ir à França depor num caso sendo movido pela polícia contra Keith Richards e Anita Pallenberg por posse e tráfico de drogas. Mas após alguns dias, a banda estava de volta ao estúdio.

Mais do mesmo, só que menos

A principal diferença sonora entre “Goats Head Soup” e seu antecessor é que os Stones em grande parte agora estavam explorando uma sonoridade funk, influenciada pela presença de Billy Preston nas sessões. Apesar de estarem na Jamaica durante o período de explosão mundial do reggae, não há o menor sinal do ritmo no disco.

Ainda mais, a canção que veio a eternizar o álbum na discografia dos Stones era uma balada ao estilo “Wild Horses”. A lenda diz que “Angie” foi escrita por Mick Jagger como um pedido de desculpas à esposa de David Bowie, Angela, após esta flagrar os dois em uma posição comprometedora.

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Entretanto, as origens da canção tem a ver com o período no qual Richards passou na reabilitação, segundo o próprio em sua autobiografia:

“Enquanto eu estava na clínica, Anita teve nossa filha, Angela. Logo que saí do trauma, peguei uma guitarra e compus ‘Angie’ em uma tarde, sentado na cama, pois finalmente conseguia mexer os dedos e colocá-los outra vez nos lugares certos. Não me sentia mais como se tivesse que sujar os lençóis, subir pelas paredes ou me sentir um maníaco. Só fui seguindo, ‘Angie, Angie’. Não era sobre ninguém em especial, era um nome, como em ‘ohhhh, Diana’. Eu não sabia que Angela iria se chamar Angela quando compus ‘Angie’. Naquele tempo, a gente não sabia qual seria o sexo da coisa antes que ela estourasse. Anita tinha dado a ela o nome de Dandelion. Ela só ganhou o segundo nome, Angela, porque nasceu em um hospital católico, e lá insistiram para que ela recebesse um nome ‘apropriado’. Logo que Angela cresceu um pouquinho, pediu: ‘Nunca mais me chame de Dandy’.”

Jagger supostamente adicionou seu toque à canção com letras fazendo referência ao seu término com a cantora Marianne Faithfull. Os dois tiveram uma relação de 1966 a 1970, e com Mick agora casado, o vocalista ainda minava sua musa anterior por inspiração.

O resto do disco veio a simbolizar o que seria boa parte da obra dos Stones dali pra frente: apesar de manter seu sucesso comercial – “Goats Head Soup” chegou ao primeiro lugar nos EUA, Reino Unido e mais cinco países, puxado pelo megahit “Angie” –, a estrela da banda diminuiu um pouco.

O grupo continuou sua série de discos de sucesso ao longo dos anos 1970 e início dos anos 1980. Porém, as divisões internas começaram a aparecer cada vez mais. Jagger e Richards não tinham mais a capacidade de se juntar e compor obras primas com a mesma facilidade de antes. Eles continuaram sendo uma ótima banda, mas não eram mais a melhor.

Rolling Stones – “Goats Head Soup”

  • Lançado em 31 de agosto de 1973 pela Rolling Stones Records
  • Produzido por Jimmy Miller

Faixas:

  1. Dancing with Mr. D.
  2. 100 Years Ago
  3. Coming Down Again
  4. Doo Doo Doo Doo Doo (Heartbreaker)
  5. Angie
  6. Silver Train
  7. Hide Your Love
  8. Winter
  9. Can You Hear the Music
  10. Star Star

Músicos:

  • Mick Jagger (vocais, guitarra base nas faixas 6 e 8, gaita na faixa 6, piano na faixa 7)
  • Keith Richards (guitarra; baixo nas faixas 2, 4, 6 e 7; violão na faixa 5; vocal principal na faixa 3)
  • Mick Taylor (guitarra nas faixas 1, 2, 4 e 6 a 10; baixo nas faixas 1, 3 e 9; violão na faixa 5)
  • Bill Wyman (baixo nas faixas 5, 8 e 10)
  • Charlie Watts (bateria)

Músicos adicionais:

  • Nicky Hopkins (piano nas faixas 1, 3, 5, 8 e 9)
  • Billy Preston (clavinete nas faixas 2 e 4, piano na faixa 4)
  • Ian Stewart (piano nas faixas 6 e 10)
  • Bobby Keys (saxofone tenor na faixa 4, saxofone barítono nas faixas 3, 7 e 10)
  • Jim Horn (saxofone alto nas faixas 3 e 4, flauta na faixa 9)
  • Chuck Findley (trompete na faixa 4)
  • Jim Price (arranjo de trompas na faixa 4)
  • Nicky Harrison (arranjo de cordas nas faixas 5 e 8)
  • Anthony “Rebop” Kwaku Baah (percussão nas faixas 1 e 9)
  • Pascal (Nicholas Pascal Raicevic) (percussão nas faixas 1 e 9)
  • Jimmy Miller (percussão na faixa 9)

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Pedro Hollanda
Pedro Hollanda
Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como Rock'n'Beats e Scream & Yell.

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