Kreator compensa show curto do Testament e agrada novos e velhos fãs em Brasília

Veteranos do thrash alemão voltam à cidade após 30 anos e são aclamados; ícone da Bay Area estreia na Capital com gostinho de "quero mais"

Duas lendas do thrash metal, uma da Alemanha e outra da Bay Area, nos Estados Unidos, em uma cidade que sempre se mostrou muito receptiva ao estilo. E não foi diferente desta vez. Kreator e Testament se apresentaram em Brasília na última sexta-feira (28), no Ópera Hall, e comprovaram a tradição “thrasher” da capital federal.

Foi a primeira data no Brasil da turnê latino-americana “Klash of the Titans”, que seguiu para Belo Horizonte (29), apenas com o Testament, e São Paulo (30), com ambos tocando no segundo dia do festival Summer Breeze.

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O Kreator, que já havia dado as caras em Brasília em 1992, retornou após três décadas e foi aclamado por fãs da velha e da nova geração. Já o Testament fez sua primeira aparição na cidade e deixou gostinho de “quero mais”, pois o show foi bom, mas breve.

Com capacidade para 3 mil pessoas, o Ópera Hall esteve longe de ficar lotado. Porém, os cerca de 1,2 mil presentes encontraram um local espaçoso e, desta vez, com qualidade de som melhor que o de costume. E o ocuparam muito bem, com mosh pits insanos, como manda o protocolo de qualquer show de thrash metal que se preze.

Testament: gostinho de quero mais

O Testament subiu ao palco às 20h15, apenas 15 minutos depois do previsto. Algumas pessoas estavam se acomodando, pegando as primeiras cervejas no bar ou mesmo entrando no recinto quando a banda de Oakland, Califórnia, deu a largada com “Rise Up”, do álbum “Dark Roots of Earth” (2012). A novidade no quinteto capitaneado por Eric Peterson (guitarra) foi o jovem baterista Chris Dovas, de apenas 24 anos e que assumiu a bronca de substituir ninguém menos que Dave Lombardo semanas antes da turnê. A propósito, ele tem dado conta do recado.

Em seguida, vieram dois clássicos absolutos da Bay Area, “The New Order” e “The Haunting”. Formado em 1983 como Legacy, o Testament testemunhou os primeiros passos do movimento, com Exodus e Metallica, e depois se consolidou, a partir de 1987 e já com o novo nome, como principal expoente da segunda geração de bandas da região, que teve também Death Angel, Vio-Lence, Forbidden, Heathen e outros.

No entanto, essa veia clássica, representada pelos discos “The Legacy” (1987) e “The New Order” (1988), deu um tempo na porção intermediária do show. A partir da quarta música, “Children of the Next Level”, o Testament contemplou seu mais recente trabalho, “Titans of Creation” (2020); sua fase mais brutal nos anos 1990, com “D.N.R. (Do Not Resuscitate)” e “3 Days in Darkness”, ambos do “The Gathering” (1999); e “The Formation of Damnation”, faixa-título do álbum de 2008, que marcou o retorno definitivo de Alex Skolnick (guitarra) à formação da banda.

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Por falar nele, Skolnick é sempre uma atração à parte. Um dos guitarristas mais talentosos do thrash metal, ele rouba a cena em diversos momentos, atraindo os holofotes nos trechos instrumentais. O ápice é o solo monumental de “Over the Wall”, em que a plateia, regida pelo vocalista Chuck Billy, simplesmente “canta” nota por nota.

A essa altura, o som, antes embolado no início do show, já estava tinindo. E o público, que começou tímido, abria rodas cada vez maiores. A mais impressionante surgiu no hino ao mosh pit, “Into the Pit”. Para fechar, a banda emendou “Alone in the Dark”, mais uma dos primórdios e cujo refrão foi cantado a plenos pulmões pela maioria.

Só que veio a parte chata: o fim da apresentação. Os músicos se despedem, o som mecânico lança “Superstition”, de Stevie Wonder, e todo mundo se entreolha meio que decepcionado: “Já acabou?”. Nem mesmo o aviso dado por Chuck Billy de que a banda deve lançar novo disco ainda em 2023 minimizou a frustração de quem queria mais.

Uma pena que o Testament tenha feito um show tão curto (1 hora exata, 10 músicas) em sua estreia em Brasília e encerrado a festa justamente quando estava com o público nas mãos. Não era contexto de festival, não havia pressão de horário, e sabe-se que o setlist recente da banda – inclusive o de Belo Horizonte, um dia depois – conta com 14 ou 15 músicas. Clássicos a serem executados é o que não faltava: “Disciples of the Watch”, “The Preacher”, “Trial By Fire”, “First Strike Is Deadly” etc.

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Repertório – Testament:

  1. Rise Up
  2. The New Order
  3. The Hunting
  4. Children of the Next Level
  5. D.N.R. (Do Not Resuscitate)
  6. 3 Days in Darkness
  7. The Formation of Damnation
  8. Over the Wall
  9. Into the Pit
  10. Alone in the Dark

Kreator: para diferentes gerações

Protagonista da noite, o Kreator cumpriu com louvor seu papel. Tanto perante a velha guarda, com coletes repletos de patches e que viu a banda em ação no extinto Gran Circo Lar, em 1992, como no que se refere à parcela mais jovem de sua base de fãs.

Os alemães fizeram um eficiente apanhado de sua vasta discografia, tocando pelo menos uma música de 13 de seus 15 álbuns de estúdio. Apenas “Renewal” (1992) e “Cause for Conflict” (1995) não foram contemplados – ninguém sentiu falta. E somente “Hate Über Alles” (2022), mais novo trabalho da banda, ofereceu duas composições: a faixa-título e “Strongest of the Strong”.

Mille Petrozza (guitarra e vocal), Ventor (bateria), Sami Yli-Sirniö (guitarra) e Frédéric Leclercq (baixo) subiram ao palco às 21h55, cinco minutos antes do previsto, o que só reforça que não haveria problema caso o Testament quisesse ter estendido seu set.

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O cenário trazia dois totens nas partes laterais e o “mascote” Violent Mind – numa reprodução bem tosca, aliás – ao fundo. Aparentemente, a banda não usou em Brasília todos os apetrechos de palco da turnê, mas isso não fez a menor falta.

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Com “People of the Lie”, as primeiras rodas já se abriram e não pararam mais. “Awakening of the Gods” teve apenas sua introdução executada, o que foi uma pena, pois é uma das músicas mais completas e impressionantes do Kreator. Ela abriu alas para “Enemy of God”, que chama a atenção pela forma como funciona melhor ao vivo.

“Phobia” e “Betrayer” também tiveram ótima recepção antes de uma sequência voltada para as mais recentes e groovadas “Satan is Real”, “Hordes of Chaos (A Necrologue for the Elite)”, “666 – World Divided”, provalmente a que menos empolgou no geral, “Phantom Antichrist” e “Strongest of the Strong”, que Mille Petrozza dedicou ao pessoal do Testament pela camaradagem na estrada.

Como não tocava no Brasil desde 2018, o Kreator também estava apresentando um novo integrante aos fãs brasileiros. O baixista francês Frédéric Leclercq entrou em 2019, em substituição a Christian “Speesy” Giesler, e parece já ter feito todo mundo esquecer o antecessor. Com uma presença de palco mais intensa e carismática, ele agarrou a vaga com unhas e dentes e deve assegurar o emprego por um bom tempo.

“Terrible Certainty”, do subestimado álbum de mesmo nome, lançado em 1987, encaminhou o show para a reta final. E que desfecho! “Violent Revolution” foi a música que apresentou o grupo para toda uma nova geração de fãs nos anos 2000 e se mantém incólume no repertório desde então. “Flag of Hate” é o apogeu da fúria juvenil que ainda resiste no núcleo da banda (Mille + Ventor) e “Pleasure to Kill”… bem, essa é a própria definição do que vem a ser Kreator, ontem, hoje e sempre.

A devastação terminou às 23h20, com poucas ressalvas e a certeza de que foi uma noite memorável. Talvez a inclusão de alguma banda local pudesse ter abrilhantado ainda mais o evento, que também não precisava da divisão entre pistas “normal” e “VIP”. No mais, apenas a sensação de que o thrash metal reinou em Brasília outra vez.

Repertório – Kreator:

  1. Hate Über Alles
  2. People of the Lie
  3. Awakening of the Gods (apenas a intro)
  4. Enemy of God
  5. Phobia
  6. Betrayer
  7. Satan Is Real
  8. Hordes of Chaos (A Necrologue for the Elite)
  9. 666 – World Divided
  10. Phantom Antichrist
  11. Strongest of the Strong
  12. Terrible Certainty
  13. The Patriarch (som mecânico)
  14. Violent Revolution
  15. Flag of Hate
  16. Pleasure to Kill

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Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves é jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). É repórter do Globo Esporte e atua no jornalismo esportivo desde 2008. Colecionador de discos e melômano, também escreve sobre música e já colaborou para veículos como Collectors Room e Rock Brigade. Atualmente revisa livros da editora Estética Torta e é editor do Morbus Zine, dedicado ao death metal e grindcore.

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