No Rio, Sons of Apollo apresenta meio-termo entre virtuosismo e acessibilidade

Mesmo sem Billy Sheehan no palco, supergrupo do prog metal fez a espera de dois anos e meio valer a pena

Originalmente prevista para abril de 2020, a turnê do Sons of Apollo pelo Brasil foi uma das primeiras a cair em razão da pandemia. Eis que, dois anos e meio mais tarde, após sucessivas remarcações, o grupo pôde finalmente desembarcar em terras tupiniquins para promover o muito bom “MMXX”, mas não sem uma baixa considerável: alegando “restrições de viagem” — talvez outra forma de dizer que a pessoa não se vacinou contra a Covid-19 —, o baixista Billy Sheehan não veio, e para seu lugar foi chamado o topa-todas Felipe Andreoli, do Angra.

A etapa carioca do giro foi realizada num Circo Voador meio cheio e sob uma chuva persistente que obrigou o público a ficar coladinho debaixo da parte coberta da casa. Bom para a banda — a saber, Jeff Scott Soto (vocais), Ron “Bumblefoot” Thal (guitarra), Derek Sherinian (teclados) e Mike Portnoy (bateria), além do já citado Andreoli — no que diz respeito ao acolhimento/atenção dispensados — nada de os fãs irem pegar uma cervejinha durante seu set — e às fotos que transmitem a impressão de plateia lotada.

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*Fotos por Gustavo Maiato / @gustavomaiato

Se em quantidade o Rio de Janeiro ficou devendo para São Paulo — não diga! — e outras cidades do itinerário, em qualidade, no sentido capaz de ser medido por decibelímetro, o público deu um show a parte. Embora a música do Sons of Apollo seja de teor altamente técnico, um de seus diferenciais, sobretudo em se tratando de “MMXX”, são os refrães passíveis de cantoria. Talvez até por ter ciência da aparente inacessibilidade do som, Soto e Portnoy — este segundo o mestre de cerimônias por excelência e aquele cujo nome foi recebido com a maior das ovações — busquem sempre uma interação, seja pedindo palminhas, seja incentivando a galera a acender a lanterna dos sempre a postos celulares.

Lá fora não foram poucas as vezes em que o grupo lançou mão de covers na tentativa de convencer os incautos; coisa que não ocorre na presente turnê, para decepção daqueles que esperavam um momento “festa da firma” ou dois. No repertório, apenas números autorais; representantes do debut “Psychotic Symphony” (2017) em justa alternância com as de seu sucessor, em abordagens que não raro extrapolam em duração e exibicionismo o que se ouve nos CDs.

Só que ao contrário de muitos — quase todos? — os adeptos do virtuosismo, “Bumblefoot” e Sherinian, dupla responsável pela assinatura sonora do quinteto em estúdio, não tocam na velocidade da luz pura e simplesmente para impressionar, fazer queixos caírem e despedaçar o sonho daqueles jovens que visam a uma carreira musical. A vibe que ambos transmitem beira a transcendência, como se em meio àquele maremoto de notas carregado de efeitos e, no caso de Ron, alternando entre os dois braços de sua guitarra Megazord, eles atingissem uma consciência superior, admirável e, de certa forma, invejável. O chamado “feeling”, talvez?

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*Fotos por Gustavo Maiato / @gustavomaiato

Entre as 13 faixas executadas em praticamente duas horas de rock rolando, destaque para “Fall to Ascend” e seu riff principal que gruda no cérebro; “Alive” e sua mensagem antidrogas que ganhou significado extra após a pandemia; “Desolate July”, que Soto dedicou ao pai, falecido no último mês de julho; “New World Today”, até hoje o mais perto que o Sons of Apollo chegou de uma faixa épica e conceitual; e o encerramento com “Coming Home” e “God of the Sun”, os carros-chefes do primeiro disco, cantadas por um Jeff vestindo camisa da seleção brasileira de futebol e por centenas de pessoas que naquele momento se esqueceram sinônimo de quê a tal vestimenta se tornou nos últimos anos.

Quem conseguiu chegar cedo ainda pôde conferir o show de abertura surpresa feito pelo Lufeh, coletivo de músicos brasileiros e estadunidenses muito inspirado por Rush, Dream Theater e, obviamente, ritmos daqui, que define a proposta como “uma experiência agradável e alucinante ao ouvinte”. Agradável? Sim. Alucinante? Bem…

Sons of Apollo – ao vivo no Rio de Janeiro

  • Local: Circo Voador
  • Data: 11 de agosto de 2022
  • Turnê: MMXX

Repertório:

  1. Goodbye Divinity
  2. Fall to Ascend
  3. Signs of the Time
  4. Wither to Black
  5. Alive
  6. Asphyxiation
  7. Lost in Oblivion
  8. Desolate July
  9. King of Delusion
  10. New World Today
  11. Figaro’s Whore + Solo de teclado de Derek Sherinian
  12. Coming Home

Bis:

  1. God of the Sun

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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