Quando Iggy Pop escreveu dissertação sobre império romano para periódico acadêmico

Texto foi publicado no Classics Ireland em 1995, dois anos após lançar música que o fez ter momento epifânico relacionado à obra do autor Edward Gibbon

Quando leitores do periódico literário Classics Ireland abriram o segundo volume lançado em 1995, se depararam com uma dissertação curta que começava da seguinte maneira: 

“Em 1982, horrorizado pela maldade, tédio e depravação da minha existência enquanto fazia uma turnê pelo sul dos Estados Unidos tocando música rock’n’roll e enlouquecendo em público, eu comprei uma cópia resumida de ‘Declínio e Queda do Império Romano’ (Dero Saunders, Penguin). A grandeza do assunto apelou a mim, assim como a ilustração de Edward Gibbon, o autor, na capa. Ele parecia um cara da pesada.”

A dissertação, “Caesar Lives”, foi escrita por um autor inusitado. Seus pais o chamaram inicialmente de James Newell Osterberg Jr., mas circunstâncias o fizeram ser conhecido pela história como Iggy Pop.

De onde veio Iggy Pop

O vocalista dos Stooges e artista solo sempre ocupou um espaço paradoxal na cultura. Por mais que sua música seja feita quase como uma manifestação artística dos instintos mais brutos e descerebrados do ser humano, havia um embasamento intelectual por trás disso. 

Antes de ser Iggy, o cantor era um adolescente normal, filho de professores que, embora humildes, davam o que podiam ao filho, como ele contou à Rolling Stone em 2007:

“Quando cheguei ao ginásio em Ann Arbor, comecei a ir à escola com o filho do presidente da Ford, com crianças ricas e distintas. Mas eu tinha uma riqueza que supera todas as delas. Eu tinha o tremendo investimento que meus pais fizeram em mim. Eu recebi muito cuidado. Eles me ajudaram a explorar qualquer coisa que me interessasse.”

Iggy chegou a se matricular na Universidade de Michigan, uma das mais tradicionais dos Estados Unidos, mas eventualmente o rock falou mais alto.

Mesmo assim… Império Romano?

Ao fim da década de 60, o rock estava se intelectualizando. Bob Dylan introduziu uma sofisticação ao gênero musical através do folk e poesia beat. Lou Reed adicionou a literatura de autores como Hubert Selby e o Marquês de Sade. E Iggy absorveu tudo isso, incluindo uma fascinação pelos romanos que era compartilhada por Dylan.

Mais importante, a dissertação não surgiu de um vácuo. Dois anos antes da publicação, em 1993, o cantor lançou seu décimo álbum solo, intitulado “American Caesar”. Esse disco contém a canção “Caesar” que é citada na dissertação como um momento epifânico no qual ele percebeu os paralelos entre a obra de Gibbon e a América na qual vivia:

“Quando escutei a gravação, me fez rir muito porque era verdade. América é Roma. É claro, por que não seria? Tudo da vida e instituições ocidentais hoje pode ser traçado de volta aos romanos e ao seu mundo. Somos todos crianças romanas, para o bem ou para o mal.”

E a opinião posta pela dissertação de Iggy Pop tem seus admiradores. EJ Hutchinson, numa análise sobre o texto para o Russell Kirk Center, o compara ao trabalho de outros pensadores sobre o Império Romano:

“De fato, o que Pop fala não é diferente do que Gilbert Highet havia argumentado de maneira mais ampla décadas antes de seu estudo imponente chamado ‘The Classical Tradition’, publicado inicialmente em 1949 e recentemente reimpresso com um maravilhoso prefácio por Harold Bloom. Isso nos deixa com um enigma: o ‘Pai do Punk’ é o verdadeiro herdeiro do classicista de Columbia de um jeito que muitos dos próprios bisnetos intelectuais de Highet teriam vergonha de ser. Mas deixe isso passar. Pop não precisa se preocupar com a censura delicada atual.”

Censura. Algo que nunca importou para Iggy Pop. Por isso ele é quem é.

Clique aqui ou aqui para ler a dissertação na íntegra.

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