A breve trajetória de Tommy Bolin, o deus esquecido da guitarra

Conhecido principalmente por seu trabalho com o Deep Purple, guitarrista morto aos 25 acumulou gravações em carreira curta porém vertiginosa

Para muitos, Tommy Bolin foi apenas o guitarrista que substituiu Ritchie Blackmore no Deep Purple entre 1975 e 1976, quando a banda encerrou atividades pela primeira vez. Entretanto, a rápida trajetória do músico contempla diversos outros trabalhos de destaque.

Nascido em 1º de agosto de 1951 em Sioux City, Iowa, Thomas Richard Bolin cresceu em uma família de músicos. Desde os cinco anos, quando o pai o levou para ver um show de Elvis Presley, soube o que queria da vida.

Em uma de suas últimas entrevistas, à revista Circus, ele declarou:

“Eu realmente não tinha o menor interesse em estudar ou coisa do tipo. Não havia disciplina com a qual pudesse me identificar. Meu negócio era simplesmente tocar guitarra.”

No dia a dia, alternava entre ouvir embasbacado os LPs de Carl Perkins e Django Reinhardt e fazer pose em frente ao espelho ao som de Jimi Hendrix e dos Rolling Stones. A carreira musical era inevitável.

O início

Aos treze, Tommy Bolin montou sua primeira banda, The Miserlous. Na sequência, foi convidado para juntar-se ao Denny and The Triumphs, que, após mudanças na formação, trocaria de nome para A Patch of Blue e se tornaria uma espécie de fenômeno local passageiro.

Aos quinze, ostentando uma vasta cabeleira colorida, foi de mala e cuia para Denver, onde conheceu seu futuro parceiro de composição Jeff Cook no grupo American Standard. Daí, optou por uma vaga no já estabelecido Ethereal Zephyr, que ao menor sinal de interesse das gravadoras, encurtou o nome para Zephyr. A contribuição para com este bastião cult do hard rock estadunidense deu-se na dobradinha “Zephyr” (1969) e “Going Back to Colorado” (1971).

Insatisfeito com a falta de espaço para exercer sua pluralidade musical, Bolin disse adeus ao Zephyr levando consigo o baterista Bobby Berge. Unindo forças com Stanley Sheldon (baixista, o mesmo do clássico “Frampton Comes Alive!”, de Peter Frampton), Tom Stephenson (teclados) e o supracitado Cook nos vocais, deu vida ao Energy, que despontou para o anonimato tão logo seus integrantes sacaram a falta de tino comercial da proposta.

Do jazz ao glam

Visando a tentar aprender a soar mais simples e acessível, Tommy Bolin fez laboratório como músico de apoio de Albert King, Chuck Berry e John Lee Hooker. Na mesma época, caiu de amores pelo glam rock – descobrindo que música também se ouve com os olhos – e pelas drogas.

Seu espírito aventureiro o levou rumo à efervescente cena jazz de Nova York, onde seus caminhos se cruzaram com os de Billy Cobham. Aos 21, Bolin foi peça-chave do coletivo responsável por “Spectrum” (1973), estreia solo do então baterista da Mahavishnu Orchestra e um dos discos seminais do chamado fusion da década de 1970.

Em entrevista à Guitar Player publicada em março de 1977, o guitarrista relembrou a experiência:

“Cobham me chamou para gravar o ‘Spectrum’ e eu disse: ‘não sei ler partituras, cara’. Ele disse que não havia problema. Então fui ao estúdio e ele me entregou uma partitura. Novamente disse a ele que não sabia ler, então tivemos um dia de ensaio e gravamos o álbum nos dois dias seguintes. Aprendi as sequências de acordes e a improvisar em cima delas nesse único ensaio.”

De James Gang a Deep Purple

Ritchie Blackmore não foi o primeiro superastro que Tommy Bolin teve de substituir. Dois anos antes de juntar-se ao Deep Purple, ele assumiu o posto outrora pertencente a Joe Walsh – recrutado pelo multiplatinado Eagles – e Domenic Troiano, no James Gang, gravando e coassinando o grosso do material presente nos álbuns “Bang” (1973) e “Miami” (1974).

Tommy Bolin em seus tempos de James Gang

Ainda que a experiência o tenha permitido engordar a conta bancária, tocar para grandes públicos e desenvolver seu lado compositor, a falta de foco dos colegas resultou em sua saída. À Circus, ele revelou em detalhes:

“O vocalista [Roy Kenner] queria fazer outra coisa, o baterista [Jimmy ‘Jim’ Fox] queria ser contador, o baixista [Dale Peters] estava farto da vida na estrada.”

Fora do James Gang, Bolin viu-se no vermelho. Foi aí que a sorte lhe sorriu em dobro: primeiro com um contrato de gravação para um álbum solo, e segundo com o convite para entrar no Deep Purple.

Quem descobriu o jovem guitarrista foi o sempre antenado David Coverdale. A Jerry Bloom, autor da biografia “The Road of Golden Dust”, Jon Lord contou que todo o processo se deu muito rapidamente após um primeiro encontro em total clima de descontração:

“Estávamos na Califórnia quando David ouviu Tommy tocar pela primeira vez. Ele o achou incrível, inacreditável. Então, o convidamos para vir ensaiar conosco. Quando chegou acompanhado de duas beldades, olhamos uns para os outros e dissemos: ‘você está na banda’.”

Deep Purple, em 1975. Da esquerda para a direita: Glenn Hughes, Ian Paice, Jon Lord, Tommy Bolin e David Coverdale

Embora estivesse prestes a iniciar as gravações de seu primeiro álbum solo, “Teaser”, o convite para juntar-se a uma das maiores bandas do mundo foi algo impossível de recusar. Era uma oportunidade de ouro para divulgar seu nome além dos círculos cult.

Ainda assim, não foi fácil para ele. Além de só conhecer “Smoke on the Water” do repertório, o estilo de hard rock praticado pelo Deep Purple não lhe dizia muita coisa.

Talvez por isso “Come Taste the Band” (1975) soe tão fora de sintonia com tudo que o grupo havia produzido até então. Com Bolin coassinando sete músicas, o décimo álbum de estúdio do Purple expande os horizontes de seus criadores através da incorporação de entrelinhas étnicas e elementos funkeados que colocaram o baixo de Glenn Hughes em primeiríssimo plano.

Só que a química presente em estúdio não teve reflexo sobre o palco. Muitos, quase todos os shows da turnê foram de ruins a desastrosos, seja pela falta de aceitação de Bolin e das músicas novas pelo público, seja pelo fato de o guitarrista e Hughes estarem sempre doidaços.

Após um fiasco no Empire Theater, em Liverpool, em 15 de março de 1976, Lord e o baterista Ian Paice decidiram que era hora de hibernar a banda.

Tommy Bolin, enfim, solo

Pouco mais de um mês se passaria até a volta de Tommy Bolin aos palcos. Em 28 de abril, o guitarrista daria início a um giro pelos Estados Unidos na tentativa de promover “Teaser” tardiamente.

Por mais que tenha tido espaço nos shows de “Come Taste the Band” para vez ou outra tocar “Homeward Strut”, a divulgação de seu primeiro álbum solo foi ofuscada pelos compromissos do Purple. Como resultado, as vendas não foram expressivas.

Com um novo contrato de gravação em mãos – agora com a Columbia Records – e uma nova banda a seu lado – Reggie McBride (baixo), Mark Stein (teclados) e a volta de Berge na bateria –, Bolin deu uma pausa nas apresentações ao vivo para gravar “Private Eyes”. O trabalho saiu em setembro e o manteve na estrada até o fatídico 3 de dezembro.

Naquela noite, Tommy abriu para Jeff Beck – que o havia citado como inspiração nos créditos do experimental “Wired”, lançado em maio daquele ano –, em Miami, Flórida. De madrugada, na volta para o hotel, sua então namorada notou que havia algo de errado com ele e chamou uma ambulância.

Bolin morreu a caminho do hospital devido ao excesso de drogas em seu organismo. Ele tinha 25 anos.

Sair da vida para entrar na história

A morte de Tommy Bolin fez nascer um culto em torno de seu nome. Com o passar do tempo, inúmeros materiais inéditos viram a luz do dia.

Entre compilados de demos/sobras e gravações piratas de apresentações ao vivo, destacam-se o primeiro e único trabalho do Energy (lançado oficialmente em CD em 1999) e o CD/DVD “Phoenix Rising”, talvez o registro definitivo de seu tempo no Deep Purple.

Quarenta e cinco anos se passaram desde que o deus esquecido da guitarra deu seu último suspiro. Fazendo jus ao que canta no refrão da sua “Bustin’ Out for Rosey”, Bolin escolheu o risco ao medo. É lamentável que sua inconsequência, proporcional a seu talento, o tenha levado tão prematuramente.

Discografia essencial de Tommy Bolin

  • Zephyr – “Zephyr” (1969)
  • Zephyr – “Going Back to Colorado” (1971)
  • Energy – “Energy” (1972, lançado oficialmente em 1999)
  • James Gang – “Bang” (1973)
  • Billy Cobham – “Spectrum” (1973)
  • James Gang – “Miami” (1974)
  • Deep Purple – “Come Taste the Band” (1975)
  • Tommy Bolin – “Teaser” (1975)
  • Deep Purple – “Phoenix Rising” (1975-1976, lançado oficialmente em 2011)
  • Tommy Bolin – “Private Eyes” (1976)

Outros itens

Alphonse Mouzon – “Mind Transplant” (1974): Terceiro álbum do lendário baterista de jazz. Tommy Bolin divide os encargos de guitarra com ninguém menos que Lee Ritenour.

Moxy – “Moxy” (1975): Disco de estreia da banda canadense de hard rock. Tommy Bolin toca o solo em seis faixas.

Tommy Bolin – “Whips and Roses” volumes 1 e 2 (1975, lançado oficialmente em 2006): Coletânea dupla com sobras e versões alternativas das músicas de “Teaser”. Até hoje um dos poucos títulos da discografia de Bolin a ter lançamento físico no Brasil.

Deep Purple – “Long Beach 1976” (1976, lançado oficialmente em 2016): Registro em áudio da apresentação na Long Beach Arena em 27 de fevereiro de 1976, na época transmitida no programa da rádio King Biscuit Flower Hour. Uma das poucas noites em que tudo deu certo para o Purple na turnê de “Come Taste the Band”, também disponível em CD no Brasil.

6 comentários
  1. Legal, não sabia da carreira dele antes do Deep Purple. Deixa eu perguntar: O Made in Europe não é com ele? Não vi ser citado. Um abraço.

    1. Obrigado pelo comentário, André. O “Made in Europe” é com Ritchie Blackmore. O material retrata alguns dos últimos shows da banda com ele, ainda antes da entrada de Tommy Bolin. Abs!

  2. Eu sempre fui apaixonado pela guitarra de Bolin, fantástico tendo um swing, uma versatilidade incomum.
    Muito legal vendo ele dar um som sintezado nas músicas do Purple. Come taste the Band considero antológico.
    Seus discos na James Gang e solos são nota 10. Vejo até elementos de música brasileira no seu disco solo. Viva Bolin.

  3. Eu prefiro Bolin, Blackmore com Solos chatos, longos e insuportáveis e a mistura com música clássica não dava pra ouvir. Meu álbum preferido do Purple é Come Taste The Band.

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