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Metallica aposta em timbres mais pesados e repertório amplo em S&M2


Uma resenha sobre “S&M2”, o novo trabalho ao vivo do Metallica com a Orquestra Sinfônica de San Francisco.

O Metallica ouviu, por duas décadas, vários pedidos de fãs que desejavam novos shows com orquestra, finalmente atendidos em “S&M2”. O apelo não era à toa: o original “S&M”, gravado e lançado em 1999 junto da Orquestra Sinfônica de San Francisco (com regência e arranjos do maestro Michael Kamen, falecido em 2003), agradou bastante e fez muito sucesso.

Os números ajudam a construir a ideia do impacto de “S&M”, último registro do Metallica com o baixista Jason Newsted antes de sua demissão em 2001. Somente nos Estados Unidos, as edições em CD e vídeo venderam, somadas, mais de 12 milhões de cópias. Na Austrália, a versão audiovisual conquistou certificação de 7x platina. A gravação em áudio atingiu o topo das paradas australianas, alemãs, norueguesas e suecas, além do segundo lugar no ranking americano e quarta posição no Canadá. Até no Brasil, o grupo se saiu bem, obtendo disco de platina (50 mil cópias) pelo produto em vídeo.

Agora, o quarteto formado por James Hetfield (vocal e guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra) e Robert Trujillo (baixo) reedita em “S&M2” a parceria com a Orquestra Sinfônica de San Francisco, hoje conduzida pelo maestro Edwin Outwater e com arranjos de Bruce Coughlin. A dupla, vale antecipar, busca fazer jus ao trabalho do saudoso Michael Kamen, preservando as melodias originais daquelas faixas que também estavam presentes em “S&M” e mantendo o estilo único dele nas novas inserções ao repertório.

As gravações de “S&M2” aconteceram nos dias 6 e 8 de setembro de 2019, na Chase Center Arena, novamente em San Francisco, nos Estados Unidos. Como a versão disponibilizada pela Universal Music para resenha deste jornalista é a de áudio, não deu para mensurar a diferença visual de se fazer uma performance desse porte em uma arena – diferentemente da outra vez, que havia sido em um teatro –, mas dá para notar que, sim, a plateia parece ter participado mais desta vez, por conta do ambiente menos “erudito”.

No mês seguinte, em outubro de 2019, “S&M2” estreou em salas de cinema de todo o mundo, incluindo em algumas cidades do Brasil. As versões domésticas estão saindo agora, em 28 de agosto, nos seguintes formatos:

  • DVD;
  • Blu-Ray;
  • CD duplo;
  • CD duplo + DVD;
  • CD duplo + Blu-Ray;
  • vinil quádruplo (preto ou laranja);
  • digital;
  • box set com vinil, CD, Blu-Ray, digital, livreto, palhetas, pôster e partituras.

A pré-venda da versão importada está disponível no site do Metallica.

Os destaques de S&M2

Foto: Brett Murray / divulgação

O grande chamariz de “S&M2” é a qualidade da captação de áudio. Os fãs que acompanharam o show no cinema talvez não tiveram a oportunidade de perceber esse detalhe, pois os sistemas de som presentes nas salas não são desenvolvidos com foco na reprodução de música. Quem colocar o novo registro para rodar no som de casa, ou mesmo nos fones de ouvido, vai sentir a diferença.

A mixagem parece ter priorizado, desta vez, o peso das guitarras do Metallica. Além disso, o instrumental da banda está mais “à frente” da orquestra, diferentemente do primeiro “S&M”, onde os arranjos de Michael Kamen soavam mais protagonistas.

Além disso, o repertório definido pelo Metallica nesta ocasião é um pouco mais abrangente. Desde 1999, a banda lançou mais três álbuns de estúdio – “St. Anger” (2003), “Death Magnetic” (2008) e “Hardwired… To Self-Destruct” (2016) –, que trouxeram uma, duas e três faixas, respectivamente, para o setlist. Como “exclusivo” de “S&M2”, há, ainda, duas composições de música clássica e uma interpretação magnífica de “(Anesthesia) Pulling Teeth”.

A gama maior de escolhas para a construção do repertório fez com que “S&M2” soasse mais adequado à proposta. Músicas como “Sad But True” e “Battery”, que são adoradas pelos fãs, mas não combinaram tanto com o formato orquestral no primeiro “S&M”, deram lugar a canções que casaram melhor com a ocasião, como “The Day That Never Comes” e “All Within My Hands”, por exemplo.

Conforme já mencionado anteriormente, em “S&M2”, os arranjos das músicas que estiveram presentes em “S&M” praticamente não foram alterados. Já nas canções “novas”, o trabalho feito parece muito similar ao estilo de Michael Kamen, que tinha vasta experiência com bandas de rock antes de trabalhar com o Metallica em 1999 – criando e regendo, inclusive, os instrumentos orquestrais de “Nothing Else Matters” em estúdio, lá em 1991.

Nota-se, por outro lado, diferença maior na performance da banda em si, que, em alguns momentos, soa mais precisa e coesa. Talvez pelos efeitos da idade, Lars Ulrich foi quem mais precisou se ajustar, “economizando” em algumas viradas – o que, especificamente no caso dessa performance com orquestra, trouxe uma melhora geral no resultado final.

Faixa a faixa

Foto: Anton Corbijn / divulgação

Como em todo show do Metallica, a composição “The Ecstasy of Gold” dá início aos trabalhos. Ouvi-la hoje traz uma sensação ainda mais valiosa, com a recente partida de seu compositor, Ennio Morricone, falecido em julho deste ano. “The Call of Ktulu” chega em seguida, na mesma sequência que abre o primeiro “S&M”, e já mostra a diferença nas timbragens mencionada anteriormente, bem como a abordagem mais “econômica” da bateria de Lars Ulrich.

A clássica “For Whom the Bell Tolls” ganhou uma interpretação ainda mais dramática e pesada. Na sequência, um dos destaques: “The Day That Never Comes”, que ganhou uma bela introdução, conduzida apenas pela orquestra no primeiro minuto, e combinou bastante com a proposta do show. Após apresentar a Orquestra Sinfônica de San Francisco e o maestro Edwin Outwater, James Hetfield puxa “The Memory Remains”, que já é “jogo ganho”, pois foi um dos pontos altos do primeiro “S&M”. O público respondeu tão bem que a parte final, com os “nanana”, durou por quase 2 minutos na voz em uníssono dos presentes.

Duas faixas de “Hardwired… To Self-Destruction” são apresentadas em série: “Confusion” e “Moth Into Flame”. A primeira não pareceu uma boa escolha, pois quase não se ouviu a orquestra e a melodia original não permite muitas variações, já que os riffs em seu andamento são bem parecidos entre eles. A segunda, por outro lado, encaixou melhor ao permitir que os arranjos orquestrais apareçam um pouco mais e impressiona ao trazer uma performance da banda muito fiel ao que foi gravado no álbum.

“The Outlaw Torn” volta a destacar que, em termos de mixagem, a intenção foi deixar o instrumental da própria banda acima da orquestra. “No Leaf Clover”, em seguida, foi a única das duas inéditas do primeiro “S&M” a figurar na tracklist de “S&M2” – a outra era “Minus Human”, que não entrou no novo show. A escolha se justifica, pois a canção casa bem com os arranjos eruditos e soa bem climática – como a faixa seguinte, “Halo on Fire”, que ganhou outra cara com a orquestra, com direito a pequenos solos e passagens instrumentais dando um “tempero” ao seu andamento geral, mais arrastado.

Depois de um intervalo, é apresentada uma segunda etapa, onde as coisas começam a ficar mais ousadas. A orquestra, sem a banda, apresenta uma versão de “Scythian Suite, Op. 20”, suíte original de Sergei Prokofiev datada de 1915. O Metallica volta para uma adaptação de “Iron Foundry”, obra de Alexander Mosolov, que soa divertida no contexto do show e quebra um pouco a aura “pesada” da parte inicial.

Foto: Anton Corbijn / divulgação

“The Unforgiven III”, em seguida, proporciona um dos momentos mais belos de “S&M2”. Toda a música é conduzida apenas pela orquestra, sem a banda, com exceção dos vocais de James Hetfield. Ganha profundidade, dramaticidade e até mesmo tensão. Apenas os solos de instrumentos de sopro não combinaram muito, porque, de resto, ficou irretocável. “All Within My Hands”, representante isolada do criticado álbum “St. Anger”, é outro destaque da tracklist. Os instrumentos de orquestra “abrem” e realçam bem a melodia, enquanto os violões no lugar das guitarras descomprimem o peso de outros momentos do show.

Mais um ponto alto da performance chega em seguida: “(Anesthesia) Pulling Teeth”, tocada pelo contrabaixista principal da orquestra, Scott Pingel. O músico faz justiça à memória de Cliff Burton, saudoso baixista do Metallica falecido em 1986, ao reproduzir cada fraseado com precisão. A versão fica ainda mais incrível quando entra a bateria de Lars Ulrich. Promessa de emoção para os fãs mais ligados a Cliff.

As cinco faixas finais de “S&M2” consolidam a sensação de “jogo ganho”, pois são alguns dos maiores sucessos do Metallica devidamente enfileirados. “Wherever I May Roam”, como as outras em seguida, preserva a estética da versão do primeiro “S&M”, ainda que, desta vez, peque um pouco ao trazer menos empolgação de James Hetfield. “One”, por sua vez, parece levar a arena abaixo, desde a sua típica introdução percussiva reproduzida ao vivo pela orquestra até o final apoteótico, atingido após o tradicional aumento gradual de intensidade da canção.

A trinca final não tem erro: “Master of Puppets”, “Nothing Else Matters” e “Enter Sandman”. Os arranjos não são muito diferentes do “S&M”, porém, como destacado ao longo do texto, as canções ganharam vida nova com as timbragens melhor definidas dessa gravação.

Impressões finais

Foto: Anton Corbijn / divulgação

“S&M2”, no geral, não busca substituir “S&M”. Não é a intenção. Trata-se de um novo momento de celebração da longeva e exitosa carreira do Metallica, que produziu material novo, ainda que em ritmo lento, desde o primeiro trabalho com a Orquestra Sinfônica de San Francisco.

A proposta sonora, como já enfatizado, é mais definida com a manutenção dos timbres pesados do Metallica em meio à orquestra, que aparece um pouco menos, mas transforma a atmosfera de várias canções. Quem gosta de sonoridades mais “heavy”, certamente, terá um apreço diferente por “S&M2”.

Outro ponto que parece tornar “S&M2” distinto é que, por celebrar a carreira do Metallica e ter uma pegada mais pesada, não é exatamente um registro que introduzirá novos admiradores ao trabalho da banda. Parece ser mais um “presentão” aos fãs. Digo isso não só por essa nova empreitada atender a vários pedidos de um novo show com orquestra, como, também, por suas distintas versões em formato físico, com direito a um box set luxuoso que, na época, “S&M” não teve.

O impacto do segundo “symphonic”, certamente, será menor em comparação ao primeiro, seja pelo momento do Metallica ou da própria indústria musical. Muita gente conheceu a banda e se encantou com ela a partir de “S&M”. Seria ótimo se “S&M2” obtivesse a mesma repercussão, mas não vai rolar.

Isso não significa que esse novo trabalho não mereça a devida atenção. Só é uma circunstância diferente, focada na imensa base de fãs já estabelecida. “S&M2” é altamente recomendado para quem ama o Metallica – em alguns momentos da tracklist, é até mais sugerido que o primeiro “S&M”.

Disco 1:

1 The Ecstasy of Gold
2 The Call of Ktulu
3 For Whom the Bell Tolls
4 The Day That Never Comes
5 The Memory Remains
6 Confusion
7 Moth Into Flame
8 The Outlaw Torn
9 No Leaf Clover
10 Halo on Fire

Disco 2:

1 Intro to Scythian Suite
2 Scythian Suite, Opus 20 II_ The Enemy God And The Dance Of The Dark Spirits
3 Intro to The Iron Foundry
4 The Iron Foundry, Opus 19
5 The Unforgiven III
6 All Within My Hands
7 (Anesthesia) – Pulling Teeth
8 Wherever I May Roam
9 One
10 Master of Puppets
11 Nothing Else Matters
12 Enter Sandman


Igor Miranda
Jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital pela Universidade Estácio de Sá. Escreve sobre música desde 2007. Atualmente, é redator do Whiplash.Net, o maior site sobre rock e heavy metal do Brasil. Também é editor-chefe da revista e site Guitarload, para guitarristas, e redator do site Revista Cifras, a página editorial do portal Cifras.

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