Opinião

O metal ficou coxinha até na política



Fico triste em falar isso, mas gostaria de “desler” a postagem acima.

As mídias sociais são um ótimo recurso para que fãs de músicos e cantores estreitem o contato em algumas situações (na maioria das vezes esse estreitamento é ilusório, uma via de mão única do emissor de informações ao receptor). Além disso, por tais ferramentas é possível descobrir que, muitas vezes, seu ídolo pode não merecer esse posto em sua vida. Não há assessoria de comunicação que corrija uma bobagem dita em um ambiente virtual.
Contesto a idolatria no geral. Ídolos nem sempre colaboram tanto para a formação de caráter. Por vezes, atrapalham. Mas tenho consciência de que ela faz parte da vida de admiradores de um artista ou grupo. Por conta disso, o texto se torna relevante – ainda mais no metal, que alimenta ídolos, inclusive do passado.
Um caso explícito, forte e pertencente ao contexto nacional, que é o vivido pela esmagadora maioria de leitores deste site, aconteceu recentemente após as últimas eleições, que deram mais quatro anos de poder à atual presidente, Dilma Rousseff. Um dos vocalistas mais icônicos do metal nacional, China Lee, do Salário Mínimo, cometeu uma gafe infeliz em seu perfil pessoal no Facebook.
A publicação, agora apagada, dizia: “Fico triste em falar isso, mais (sic) o Brasil precisava mesmo ser dividido… não da (sic) para ficar sustentando vagabundo”. Uma declaração infeliz. China Lee se retratou posteriormente, mas os reflexos serão sentidos a longo prazo: em sua página oficial no Facebook, o Salário Mínimo divulgou que todos os shows agendados para 2014 foram cancelados e declarou que a atitude não foi tomada por qualquer influência dos contratantes.
Em um devaneio, China Lee deve ter se esquecido que, ao lado do Sudeste e do Sul, o Nordeste é uma das regiões que mais fomentam o heavy metal e o underground no país. Fora que não faz sentido o frontman de uma banda chamada Salário Mínimo criticar o Bolsa Família. Deveria ser o primeiro a entender o mecanismo. A insatisfação com a declaração foi tão grande que o perfil do cantor no Facebook foi derrubado (o que também não justifica) e a página da banda recebeu centenas de comentários de desaprovação. A maioria de pessoas que alegam ser ou ter descendência de nordestinos.
Nesses momentos, descobrimos o que os ídolos pensam. Apesar do China Lee ser um caso menor (porque não é um rockstar propriamente dito, sequer foi um ídolo meu), foi uma ocasião perfeitamente encaixada em nossa realidade. Uma série de estrelas da música estão se enquadrando em discursos de ódio. O metal, em especial, está cada dia mais conservador. Cada vez mais chato. Mais coxinha – e isso não tem nada a ver com ser de direita ou esquerda.
Que fique claro que essa análise caminha para o outro lado, não necessariamente para o comentário político de China Lee. Trata-se de um entendimento geral sobre o que virou o metal. A aura contestadora foi embora do estilo há muito tempo. Por isso não temos novas estrelas. A atitude do rock e do metal parece ter sido levada para outros estilos, como pop e hip hop. Curioso. Metaleiros viraram tiozões bunda-moles. E os fãs não colaboram, porque não admitem qualquer tipo de mudança sonora na discografia de suas bandas prediletas, nem novidades mais ousadas de novos grupos. No contexto político, Lee é apenas um reflexo mais extremista disso. Visualize a situação de forma “macro” e entenda o que quero dizer.
A retratação de China Lee não vai colar para muita gente. Ele alegou ter “perdido a cabeça” no momento da publicação. Mas o que é dito em um momento de cabeça quente é, na maioria dos casos, algo que já estava sendo refletido em momentos mais tranquilos. Imagino que, apesar de não ser justo, o cantor vai acabar por carregar o fardo dessa declaração infeliz. Que, ao menos, sirva de lição para que comece a abrir a mente dos nossos queridos metaleiros coxinhas.
Clique AQUI para ler o ótimo artigo do blog Combate Rock, com outras atitudes intolerantes por partes de nomes do heavy metal nacional – em grande parte, conservadores extremistas.

Igor Miranda
Jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital pela Universidade Estácio de Sá. Escreve sobre música desde 2007. Atualmente, é redator do Whiplash.Net, o maior site sobre rock e heavy metal do Brasil. Também é editor-chefe da revista e site Guitarload, para guitarristas, e redator do site Revista Cifras, a página editorial do portal Cifras.

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