*Por Jessica Valentim | A atual turnê do Pet Shop Boys, “Dreamworld: The Greatest Hits Live”, já atravessa seu quarto ano sob o mote de celebrar quatro décadas de carreira do duo formado por Neil Tennant e Chris Lowe. O Brasil, que a recebeu em 2023, voltou a testemunhar uma de suas apresentações na última terça-feira (3), em compromisso único na Suhai Music Hall, São Paulo. Para além do desfile de hits, a ocasião serviu como reafirmação estética e política de uma das obras mais sofisticadas do pop britânico.
Algo chamou atenção logo nos primeiros segundos do show, iniciado com cerca de 15 minutos de atraso em relação ao horário anunciado das 21h. Havia apenas o essencial — dois microfones e um teclado, fruto do minimalismo que sempre foi marca registrada da dupla —, mas antes de qualquer nota soar, o telão que ocupava toda a extensão do palco exibia a bandeira da Ucrânia, num momento que ecoa a condenação pública de Tennant e Lowe à guerra ainda em curso iniciada pela Rússia em 2022.
Não se trata de um gesto vazio. Desde sempre, o Pet Shop Boys se posiciona politicamente. De modo específico sobre este tema, a dupla criticou a invasão russa em 2022 e, dois anos depois, lançou a faixa “Hymn (In Memoriam Alexei Navalny)”, homenagem ao opositor do regime russo citado no título.
A manifestação política inaugural esteve ali, estática, silenciosa — e talvez por isso ainda mais potente. O público de um show conhecido por hits dançantes pode não esperar esse tipo de manifestação, mas essa sempre foi a sutileza estratégica do Pet Shop Boys.

Letras críticas embaladas em precisão musical
Na etapa inicial do show, o Pet Shop Boys equilibrou faixas novas e clássicos na estética sofisticada que marca sua fase mais recente. A produção visual milimetricamente coreografada transformava o palco em uma instalação artística pulsante, onde cada luz, figurino e projeção tinham função narrativa.
Fãs de rock na plateia podem estranhar uma performance pop tão rigorosamente coreografado e conceitualmente estruturada, mas o impacto da frieza estética, precisão visual e crítica embutida nas letras soaram, paradoxalmente, quase punk devido à postura artística elegante, política e provocadora.
Neil Tennant e Chris Lowe surgiram trajando jalecos brancos e máscaras estilizadas em formato de diapasão — símbolo da afinação perfeita, combinando com sua precisão sonora. “Suburbia” abriu o set com a temática de tensão urbana. Lançada originalmente em 1986, a música discute alienação, violência e ansiedade nas periferias — questões ainda atuais.
“Can You Forgive Her?” manteve o clima crítico, abordando culpa, repressão e padrões sociais impostos, enquanto “Opportunities (Let’s Make Lots of Money)” trouxe o sarcasmo clássico da dupla ao tratar do capitalismo como jogo de oportunismo. Enquanto o medley “Where the Streets Have No Name (I Can’t Take My Eyes Off You)” (combinando canções de U2 e Frankie Valli) funcionou como momento de catarse coletiva, “Rent” evidenciou ainda mais a ironia social: dependência financeira, poder nas relações e ambição emocional são tratados sem moralismo.
“I Don’t Know What You Want but I Can’t Give It Any More” mostrou um público participativo — palmas sincronizadas, refrães cantados — enquanto a banda de apoio obteve mais destaque. A formação, destacada em determinados momentos quando a parte por trás do telão se iluminava, trazia com Bubba McCarthy (bateria), Simon Tellier (teclados e percussão) e Christina Hizon (teclados e backing vocals).
Modernismo, batuques e vulnerabilidade
A partir daqui, o show amplia seu espectro temático e visual. “Left to My Own Devices” marcou uma virada com troca de figurino e uma atmosfera mais grandiosa: Neil Tennant surgiu com um chapéu cilíndrico branco (parecido com um pillbox hat alongado) e um paletó com uma linha diagonal marcante — referências diretas ao Modernismo e ao Construtivismo Russo, movimentos artísticos do início do século 20 que valorizavam formas geométricas simples, funcionalismo e contraste. O modelito interage com a iluminação austera do palco — postes de luz e projeções lineares — e revisita questões de identidade, utopia estética e política num contexto de tensão geopolítica que a banda tem abordado também fora dos palcos.
Um dos pontos altos do miolo do set foi “Single-Bilingual / Se a Vida É (That’s the Way Life Is)”, medley em que a primeira parte nasce do fascínio da dupla pela cultura latina e pela fluidez de identidades, enquanto a segunda, assume um tom mais contemplativo, ao abordar decepção e resignação emocional. A canção é baseada em “Estrada da Paixão”, da banda afro-brasileira Olodum, com a qual o Pet Shop Boys teve contato durante a etapa sul-americana de sua turnê “Discovery”, em 1994. A presença dos batuques inspirados na percussão do grupo nacional oferece uma pulsação orgânica que contrasta com a base eletrônica, ampliando a dimensão rítmica e simbólica.

Neste meio de show, o foco se distancia dos comentários sociopolíticos e migra para questões íntimas e culturais. “Domino Dancing”, com seu arranjo com influência latina intensificando o clima dramático e passional, explorou ciúme e insegurança afetiva; “Dancing Star” e “New York City Boy” celebraram a pista como espaço de pertencimento e afirmação; “The Pop Kids” traz nostalgia autobiográfica; e tanto “Jealousy” quanto “Love Comes Quickly” mergulharam na vulnerabilidade e na imprevisibilidade do amor.
“You Were Always on My Mind” — gravada por Gwen McCrae em 1972 e mundialmente famosa pela interpretação de Elvis Presley — foi cantada em uníssono pelo público, preparando o terreno para a reta final, intensificada pelo sobretudo prateado brilhante de Tennant.

Na reta final, o duo transitou da crítica contemporânea de “Dreamland” para o ritmo pulsante de “Heart”, revisitou conflitos amorosos em “What Have I Done to Deserve This?” — eternizada em colaboração com Dusty Springfield —, reafirmou o discurso político ao reinterpretar “It’s Alright”, do músico americano Sterling Void, e transformou a pista em manifesto em “Vocal”, onde a própria música eletrônica assume papel quase transcendental.
Quando se iniciou “It’s a Sin”, legítimo manifesto incluído como última do repertório antes do bis, o palco foi tomado por uma luz vermelha intensa, sublinhando a carga emocional da canção e sua crítica à culpa religiosa e à repressão moral. A faixa do álbum “Actually” (1987) segue como um dos pontos mais poderosos da obra do Pet Shop Boys.
Vestidos de preto para o bis formado por “West End Girls” e “Being Boring”, Tennant e Lowe encerraram a noite, que durou pouco mais de 2 horas, como começaram: minimalistas e precisos, porém artisticamente imensos. A trilha sonora de balada veio recheada de mensagens que atravessam capitalismo, repressão religiosa, política internacional, cultura queer, identidade urbana e memória geracional. Talvez resida aí a maior ironia: dançamos enquanto refletimos — mesmo quando não percebemos.

Pet Shop Boys — ao vivo em São Paulo
- Local: Suhai Music Hall
- Data: 3 de março de 2026
- Turnê: Dreamworld: The Greatest Hits Live
- Produção: Move Concerts
Repertório:
- Suburbia
- Can You Forgive Her?
- Opportunities (Let’s Make Lots of Money)
- Where the Streets Have No Name (I Can’t Take My Eyes Off You) (versões de U2 e Frankie Valli)
- Rent
- I Don’t Know What You Want but I Can’t Give It Any More
- So Hard
- Left to My Own Devices
- Single-Bilingual / Se a vida é (That’s the Way Life Is)
- Domino Dancing
- Dancing Star
- New York City Boy
- The Pop Kids
- A New Bohemia
- Jealousy
- Love Comes Quickly
- Paninaro
- You Were Always on My Mind (cover de Gwen McCrae)
- Dreamland
- Heart
- What Have I Done to Deserve This?
- It’s Alright (cover de Sterling Void)
- Vocal
- It’s a Sin
Bis: - West End Girls
- Being Boring

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