Entre as obras artísticas censuradas durante a ditadura militar no Brasil, esteve o disco de estreia homônimo do Ave Sangria, banda de rock psicodélico. Lançado em 1974, o material acabou proibido por causa da faixa “Seu Waldir”, considerada pelas autoridades como “ofensiva à moral e aos bons costumes da família pernambucana” por “insinuar conteúdo homossexual”.
Segundo o próprio vocalista Marco Polo à CartaCapital, a canção “é uma brincadeira, uma paródia, feita para ser cantada por uma mulher”, que resolveu “interpretar como forma de peitar o machismo pernambucano”. Em suas palavras, tratava-se de “uma brincadeira saudável, curtindo com a cara dos homofóbicos”.
Contudo, o disco sofreu represália e foi tirado das lojas e das rádios, encerrando precocemente a carreira do grupo. Agora, mais de 50 anos depois, os artistas receberam anistia.
De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente os danos sofridos e pediu desculpas formais aos músicos por meio do Conselho da Comissão de Anistia, além de determinar o pagamento de uma pensão mensal e vitalícia de R$ 2 mil. O valor retroativo ainda será calculado.
A respeito da decisão, Polo disse:
“Foi uma emoção muito grande e uma sensação de alívio. O Estado reconhece que errou e tenta reparar. Cinquenta anos depois, ainda chega em boa hora — estamos vivos e seguimos batalhando pela música, pela liberdade e pela democracia.”
Pedido feito em 2018
Vale mencionar que os membros do grupo destacaram que entraram com um pedido de anistia e reparação no início de 2018. Ao blog Do Próprio Bolso, o vocalista contou à época:
“É muito estranho o que acontece no Brasil e no mundo. Pessoas que pedem a volta da ditadura militar não têm a pálida noção do que aquilo representou. Entramos na Justiça mais pelo efeito simbólico do que na tentativa de ganhar algum dinheiro. Eles cortaram uma carreira que era crescente, proibiram o disco, castraram nossa música.”
Sobre o Ave Sangria
Com a censura sofrida, o Ave Sangria interrompeu a carreira e encerrou as atividades em 1974. Após show de reunião no festival Psicodália 2011, a banda retornou aos palcos em 2014 e, em 2019, lançou o seu segundo álbum de estúdio, “Vendavais”. Marco Polo (voz) e Almir de Oliveira (guitarra) são os únicos membros remanescentes da formação clássica.
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