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Weather Systems revisita Anathema durante estreia emotiva em SP

Daniel Cavanagh assume para si o legado da ex-banda ao apresentar novo projeto a público pequeno, mas engajado, no Carioca Club

“Nós vamos tocar várias músicas do Anathema hoje e eu não preciso dizer por que fazemos isso”, avisou Daniel Cavanagh logo no início do show do Weather Systems, no Carioca Club, em São Paulo, no último domingo (8).

Batizar o novo projeto com o título do disco mais celebrado da fase tardia de sua ex-banda, no entanto, não foi suficiente para preencher mais da metade da pista em sua estreia no Brasil, durante um domingo de pré-Carnaval. Não é, também, como se o Anathema tivesse lotado a mesma casa em três de suas seis apresentações na cidade, ainda que uma trajetória de ascendente popularidade fosse inegável.

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Ao lado de um trio de músicos portugueses, Cavanagh se dispôs a convencer os fãs da banda inglesa de que o Weather Systems é uma continuação válida. A esperada descarga de emoção musical disparada em quase duas horas se transformou em coros e lágrimas na pista do Carioca Club. Ao sair do palco, o guitarrista agradeceu a chance e prometeu voltar.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Turbulência após separação do Anathema

Formado pelos irmãos Daniel e Vincent Cavanagh no início dos anos 1990, o Anathema se separou durante a pandemia de covid-19. Vincent, guitarrista e vocalista, deixou o grupo e assumiu um projeto musical novo, Radicant, após a banda anterior ter de cancelar uma turnê agendada enquanto produziam o sucessor do bem recebido “The Optimist” (2017). As composições para o abortado trabalho seguinte se tornaram a base para “Oceans Without a Shore” (2024), disco de estreia do Weather Systems.

Tudo parecia uma sequência normal de dissolução de bandas, não fosse uma mensagem postada num perfil oficial de rede social do grupo inglês em 2022. Daniel Cavanagh, sofrendo de depressão severa durante o período de isolamento sanitário, havia sobrevivido a uma tentativa de suicídio e se tratava da doença.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Em sua primeira visita ao Brasil após esse período turbulento, o guitarrista, entre várias latas de algo parecido com uma bebida energética, incluiu no repertório recheado de músicas do Anathema cinco das nove faixas do disco de estreia do Weather Systems ao longo de quase duas horas. Não houve intervalos para bis.

Volume alto supera limitações no palco

Como esperado, também não foi tocado nada fase inicial de sonoridade doom/death metal da banda de Liverpool. De quando formou um terço do clássico “Peaceville Trio” inglês ao lado de Paradise Lost e My Dying Bride, só sobraram os chifrinhos com os dedos feitos por Cavanagh a cada solo mais pesado nas músicas executadas.

Com um volume alto reverberando no Carioca Club, de equalização de som satisfatória, o Weather System iniciou seu show às 19h45, quarenta e cinco minutos depois do horário previsto. Nenhuma justificativa foi dada durante a espera. “Deep”, faixa que abre o álbum “Judgement”, lançado em 1999 pelo Anathema, deu o pontapé inicial e mostrou Cavanagh em boa forma vocal ao subir o tom da catártica estrofe final da música como nem seu irmão fazia.

A conexão emocional com o público pareceu intacta após os anos de afastamento e assim se manteria ao longo da noite. De forma surpreendente, ela ocorreu até nas três músicas do disco de estreia do Weather Systems executadas em seguida na parte inicial do set. Apoiadas na oposição entre versos repetitivos, quase como mantras, em instrumental etéreo, e solos bem distorcidos e pesados, as novas canções não diferem tanto do que o Anathema fez no derradeiro e celebrado “The Optimist”.

O uso insistente de frases emotivas ao longo das letras de “Still Lake” e “Do Angels Sing Like Rain” facilitou a rápida absorção das músicas pela plateia. Quando as pessoas pareciam se dispersar durante a longa e sinuosa “Synaesthesia”, Cavanagh ou a vocalista Soraia Silva pediram participação e obtiveram boa resposta, ainda que restrita a palmas acompanhando o ritmo torto das canções.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Com apenas três instrumentistas no palco, era inevitável que o grupo se apoiasse em bases pré-gravadas para a reprodução das faixas cheias de detalhes dos últimos anos do Anathema, característica mantida no trabalho de estreia do Weather Systems. A distorção da guitarra reverberou com o baixo bem grave de André Marinho, que também ajudava nos vocais. O sistema de som do Carioca Club era preenchido pelo peso da bateria de Daniel Cardoso. Durante os últimos anos de atividade do Anathema, o português integrou sua formação como uma espécie de faz-tudo. Até por isso, seguiu como principal parceiro de Cavanagh na nova empreitada.

Muitas vezes, no entanto, esse instrumental cheio e alto se sobrepôs aos delicados e etéreos arranjos vocais, divididos principalmente por Cavanagh e Silva. Funcionou bem, porém, no desnecessário — ainda que divertido e correto — cover para “Wherever I May Roam”. Cantada inteira pelo baixista já na reta final da noite, a música do Metallica teve o guitarrista se virando para reproduzir o solo sem o pedal wah wah tradicionalmente abusado por Kirk Hammett.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Obviamente, porém, o público foi ao Carioca Club em busca de refazer essa conexão emocional com Cavanagh pelas músicas do Anathema. Assim, quando as duas outras faixas do disco novo foram executadas após canções mais conhecidas da banda de Liverpool, a reação era de um esperado relaxamento.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

A nova parceria para os duetos marcados pela voz feminina

Uma questão natural era como a dupla agora formada por Daniel Cavanagh e Soraia Silva se sairia ao reproduzir os duetos originalmente cantados por Vincent Cavanagh e a cantora Lee Douglas, que praticamente assumiu a voz principal do Anathema em seus últimos anos. A cantora portuguesa, no disco de estúdio do Weather Systems, quase sempre canta de forma etérea. Assim, em “Springfield”, faixa do álbum de 2017, e “A Simple Mistake”, de “We’re Here Because We’re Here” (2010), era previsível que ela se saísse bem. Silva, porém, também se destacou nas músicas em que Douglas assumiu esse protagonismo e provou o seu valor na suíte “Untouchable”. Suas duas partes iniciais se tornaram clássicos do disco de 2012 que batiza a nova banda.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Na primeira etapa da faixa, Soraia, que posteriormente se declararia uma fã de Anathema agora com a chance de cantar essas músicas, literalmente “foi para a galera” para cantar junto com o público na pista do Carioca Club. Na segunda, assim como em “A Natural Disaster”, já na reta final da apresentação, mostrou força na voz para segurar sozinha o momento mais emotivo da música.

A terceira parte de “Untouchable”, incluída em “Oceans Without a Shore”, não retoma as letras ou melodias das canções de 2012. Assim, natural que a conexão com o público diminuísse quando foi executada na sequência. Algo similar ocorreu mais cedo no set com a faixa-título do álbum de estreia do Weather Systems. Ela sucedeu a tensa, hipnótica e explosiva “Closer”, de “A Natural Disaster” (2003). Assim, apesar de iniciada num bonito dueto entre Cavanagh e Silva e encerrada num clima dançante à la Massive Attack, não mexeu tanto com o público quanto com a empolgada vocalista.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

A noite, porém, era naturalmente de Daniel Cavanagh. Sem o irmão para dividir a tarefa, ele assumiu a posição de frontman, deixando Silva como uma ótima coadjuvante. Em alguns momentos, o guitarrista ameaçou descer na pista para acompanhar o público. Sentado à beira do palco, o músico se conformou em reger os coros para as melodias finais de “Flying”, outra faixa de “A Natural Disaster”.

“One Last Goodbye”, de raras aparições nos repertórios do Weather Systems, foi encaixada especialmente no show de São Paulo. A apresentação ocorreu na data da morte da mãe do guitarrista. Vítima de alcoolismo, ela foi a inspiração dessa música e da atmosfera do álbum “Judgement”.

Nas apresentações do Anathema, a faixa do disco citado normalmente tinha sua parte intermediária deixada para que o público cantasse sozinho. Apesar dos coros massivos na pista do Carioca, o emocionado Cavanagh entoou todos os seus versos, encerrando-a com uma declaração de amor à mãe.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

O final do show veio com “Fragile Dreams”, música de “Alternative 4” (1998) e maior clássico da fase na qual o Anathema abandonou os vocais gritados. O refrão foi cantado pelo público e mais uma vez Cavanagh ameaçou invadir a pista que acompanhava em coro sua melodia de guitarra.

Antes, o inglês anunciou que a banda pretende retornar ao Brasil no próximo ano com um novo álbum. Ele ainda acenou com a possibilidade de tocar na íntegra o disco “Weather Systems” (2012). “Eu compus cada palavra, cada nota, cada melodia”, elucidou para quem não havia entendido seu comentário logo no início do show.

A saber se vai ser suficiente para aumentar o público nessa nova visita. A estreia da nova banda no Carioca Club foi uma prova de que capacidade para fazer jus ao disco homônimo no palco, o Weather Systems tem.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Weather Systems — ao vivo em São Paulo

  • Local: Carioca Club
  • Data: 8 de fevereiro de 2026
  • Turnê: Oceans Without a Shore
  • Produção: Caveira Velha

Repertório:

  1. Deep (Anathema)
  2. Still Lake
  3. Synaesthesia
  4. Do Angels Sing Like Rain?
  5. Springfield (Anathema)
  6. One Last Goodbye (Anathema)
  7. A Simple Mistake (Anathema)
  8. Closer (Anathema)
  9. Ocean Without a Shore
  10. Untouchable, Part 1 (Anathema)
  11. Untouchable, Part 2 (Anathema)
  12. Untouchable, Part 3
  13. Flying (Anathema)
  14. Wherever I May Roam (Metallica)
  15. A Natural Disaster (Anathema)
  16. Fragile Dreams (Anathema)
Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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