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Entrevista: 8 perguntas para Daniel Cavanagh (Weather Systems, ex-Anathema)

Músico lidera nova banda que se apresenta no Carioca Club, em São Paulo; projeto é “o mais próximo do que o Anathema era”, segundo ele

Daniel Cavanagh volta ao Brasil no próximo fim de semana. Em show único no Carioca Club, em São Paulo, o ex-integrante do Anathema se apresenta junto de sua nova banda, Weather Systems. Apesar de ter um álbum — “Ocean Without a Shore” (2024) — já lançado, o projeto deve focar seu repertório em canções do antigo grupo de Cavanagh, nome cultuado do rock progressivo inglês a partir da década de 1990.

Ainda há ingressos à venda no site Clube do Ingresso, nos valores de R$ 170 (pista 1º lote — meia ou promocional) e R$ 340 (camarote 2º lote — meia ou promocional). A entrada promocional está disponível a todos mediante doação de 1 kg de alimento não perecível.

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A banda também conta com o baterista Daniel Cardoso, que tocou na fase final do Anathema. O músico português escalou os demais integrantes do novo projeto: a vocalista Soraia Silva e o baixista André Marinho.

Em entrevista conduzida por Jessica Valentim, com pauta de Igor Miranda, Daniel Cavanagh compartilhou algumas impressões sobre seu retorno à América Latina, comentou a respeito da atual formação do Weather Systems e projetou as próximas iniciativas do grupo — que já planeja um novo álbum. Confira!

Entrevista com Daniel Cavanagh (Weather Systems, ex-Anathema)

O quão empolgado você está com sua volta à América Latina?
Daniel: Antes de tudo, sinto-me mais à vontade no palco do que aqui em Londres. O público da América do Sul é, provavelmente, o melhor do mundo — não estou apenas falando por falar, é verdade. Adoro essa cultura hispânica; por algum motivo ela fala muito comigo. Sei que você fala português, mas amo a influência hispânica no mundo e nos Estados Unidos — a América do Sul, a América Central, Espanha e Portugal, de onde nossa banda vem. Mesmo sabendo que o Brasil tem uma língua e uma cultura diferentes, faz parte dessa grande família de gente calorosa.

O Brasil teve a oportunidade de assistir Anathema ao vivo em seis ocasiões diferentes: a primeira foi 1994 e a última, em 2019. Que lembranças você tem de suas visitas ao Brasil?
Daniel: Sempre foram ótimas. Lembro que, após o álbum “Weather Systems” (2012), as coisas explodiram um pouco e isso ficou muito claro na América do Sul. O público é extremamente apaixonado, cheio de volume e emoção — e isso é maravilhoso quando você está no palco. Sem público, seria apenas uma sala vazia com música; o público é o que torna tudo especial. Para mim, o Brasil tem um dos melhores públicos do mundo, junto ao Chile, Argentina e México. Se eu quisesse gravar um álbum ao vivo com coro humano, iria para a Itália — lá as pessoas cantam perfeitamente todas as palavras —, mas se eu quisesse gravar um álbum ao vivo cheio de paixão, eu iria para a América do Sul.

A América Latina como um todo representa uma grande parte da sua base de fãs e as duas cidades que mais ouvem Weather Systems no Spotify: Santiago e Cidade do México. E o Brasil também estabeleceu-se como uma forte base de fãs. Por que você acredita em sua música ressoa muito com o público da América Latina?
Daniel: Não sei explicar exatamente. Acho que gostamos de música apaixonada e, aí embaixo, o público valoriza isso. Não somos os únicos populares por lá — penso que o Opeth também tem muita força —, mas o que eu componho e toco sempre vem do coração: melodias, letras. Não são cálculos, são coisas do peito. Talvez essa sinceridade emocione um público naturalmente emotivo. Pode até ser simples assim: as músicas são boas, as melodias são emocionantes, e as pessoas se identificam.

Faz quase um ano e meio desde que você lançou “Ocean Without a Shore”, primeiro álbum do Weather Systems. Como você vê este disco desde que foi lançado?
Daniel: Estou muito feliz por tê-lo concluído. Acho as músicas ótimas — talvez seja o melhor que fiz desde o álbum “Weather Systems” de 2012. Poderia ter cantado um pouco mais, e o próximo álbum mostrará mais do meu canto, mas, no geral, gosto muito das canções. Depois que termino um disco, eu escuto todos os dias por alguns meses. Quando começo a tocá-lo ao vivo, ele vira “o álbum do público” e eu paro de ouvi-lo tanto — e isso sempre me ajuda. A turnê europeia também renovou meu coração; foi importante para minha felicidade. Gosto de trabalhar em banda: Daniel [Cardoso] me ajudou a formar o grupo atual — ele trouxe as pessoas certas. Soraia [Silva], por exemplo, é carismática e capaz de segurar um público de mil pessoas na palma da mão; dei-lhe total liberdade. O nosso baixista [André Marinho] também canta bem e vamos explorar isso mais; o baterista — Daniel — é fantástico. Estou orgulhoso de todos. Nesse disco, só eu toquei quase tudo, mas no próximo quero envolver todo mundo: quero construir uma equipe, não um projeto solitário.

Parece que você está cercado por todas as pessoas certas.
Daniel: Espero que sim. Nunca se pode ter certeza, mas os aprecio muito. Conheço o Daniel há muito tempo; ele é ocupado, tem família, e mesmo assim fez um trabalho incrível reunindo esta equipe. Para o próximo álbum — já escrevi alguma coisa e o título provisório é “Carnival of the Broken Hearted” —, quero que todos participem. A ideia vem de um clima meio Tom Waits, com uma estética noir dos anos 1940: ruas, abajures, chuva, um personagem solitário. Música emocional, clássica e sincera. Fiz uma primeira tentativa de capa usando colagens e IA; estou brincando ainda com a imagem. Há um “easter egg” na arte que remete a um palhaço à distância. É um disco mais humano, mais terreno, diferente de “Ocean Without a Shore”, que é mais metafísico. Não vai mudar o mundo, mas pode mudar a vida de alguém.

Pretendia perguntar se você tinha planos de compor um novo álbum, mas você acabou de responder. Você tem planos de lançá-lo em breve?
Daniel: Sim, temos planos. Estamos finalizando um contrato de gravação, portanto não posso dizer com quem ainda. Daniel deve produzir; ele me ajudou muito. Como disse, quero envolver toda a banda neste próximo registro. A capa ainda está em desenvolvimento — testei ideias que lembram filmes antigos, tipo “O Poderoso Chefão” na chuva, e há esse palhaço ao fundo como um pequeno detalhe visual.

Esse é o easter egg?
Daniel: Sim, é o easter egg. Se eu tivesse os direitos autorais, faria referência direta, mas não posso — então fica só o clima. A ideia de Tom Waits apareceu porque senti uma atmosfera de carnaval e coração partido naquilo que eu estava escrevendo. É uma estética que me inspirou.

Você mencionou o Opeth anteriormente, e você já disse várias vezes que não rotula seu trabalho como rock progressivo. Recentemente, Mikael Åkerfeldt disse que também não vê o Opeth como rock progressivo ou metal progressivo — e, especialmente, que a música progressiva realmente começou a se tornar regressiva. Você concorda com essa visão que o rock progressivo e o metal não têm mais um verdadeiro abordagem progressiva no sentido de misturar estilos e ser experimental?
Daniel: Quando tocamos com o Opeth, eles tocaram uma música “Blackwater Park” (do álbum de mesmo nome, de 2001) e eu pensei: seja qual for a etiqueta — metal, prog —, aquilo é de muita classe a nível mundial. Não me importo muito com rótulos. Lembro-me de Åkerfeldt citar um riff do Metallica em “…And Justice for All” (1988) como algo decisivo para a origem do Opeth, e eu senti algo parecido com Anathema — certas músicas nos moldaram. Gosto da música simples também; sou fã de Kate Bush e das fases mais acessíveis do Genesis. Não sou muito afeito à complicação técnica pelo próprio virtuosismo; prefiro canções que toquem.

Por fim, deixe uma mensagem para seus fãs em São Paulo e no Brasil que irão te assistir em 8 de fevereiro.
Daniel: Acho que no final da primeira música, vocês ficarão felizes por terem vindo, porque esta é a coisa mais próxima do que o Anathema era. Você sabe que não é Anathema, mas definitivamente é o primo de Anathema. Não é um tributo — é um legado, uma continuação. Apenas toco as músicas que compus com eles. O que a maioria das pessoas não sabe é: em cada música do Anathema lançada desde o ano 2000, o que você ouve Vincent [Cavanagh] ou Lee [Douglas] cantar, eu cantei primeiro. Cantei todas as músicas que compus; depois, eles aprenderam e fizeram igual. A única diferença é: não é mais uma demo, mas uma versão final. Lee tinha uma voz incrível e Vincent trouxe muito à mesa, é um ótimo cantor e fez muitas boas escolhas de produção. De toda forma, são minhas músicas e não tenho problema em tocá-las. Tenho todo o direito de fazer isso. É o trabalho da minha vida.

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Igor Miranda
Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

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