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A história do Rock in Rio 2001, da pauta social ao boicote

Com shows de Guns N’ Roses, Iron Maiden, R.E.M., Red Hot Chili Peppers e mais, terceira edição abriu caminho para a internacionalização da marca

Maktub. Para usar uma referência de novela da época, estava escrito: dez anos após sua segunda edição, o Rock in Rio voltaria a transformar o Rio de Janeiro na maior metrópole musical do planeta, entre os dias 12 e 21 de janeiro de 2001.

A retomada do festival no mesmo local da edição inaugural de 1985 foi mais do que um gesto nostálgico. Representou, ao mesmo tempo, a resposta a um público que mantinha viva a memória de um dos maiores acontecimentos culturais do país e uma tentativa deliberada de ampliar o alcance social do evento, agora sob o slogan “Rock in Rio — Por um Mundo Melhor”.

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Idealizado por Roberto Medina, em parceria com o provedor America Online (AOL), o Rock in Rio assumiu um discurso explícito de responsabilidade social. “Se conseguimos reunir milhões de pessoas em torno de um show, também podemos chamar atenção para valores e causas importantes”, afirmou o empresário ao apresentar o conceito da terceira edição em entrevista ao Estadão em 8 de agosto de 2000.

Conheça a história.

Rock in Rio 2001 (Foto: reprodução / YouTube)

Festival como plataforma social

Inspirado pelas críticas do fotógrafo Oliviero Toscani à publicidade superficial, Roberto Medina decidiu transformar o Rock in Rio em uma ferramenta de impacto social, unindo o entretenimento à ideia de que a música poderia motivar as pessoas a buscarem mudanças positivas. Esse amadurecimento conceitual resultou no lançamento oficial do projeto, anunciado em junho de 2000.

Medina fazia questão de evitar o rótulo de “terceira edição”. “Agora é ‘Rock in Rio — Por um Mundo Melhor’”, afirmou ao Estadão. O lineup inicial incluía Foo Fighters, Kid Abelha, Ira!, Fernanda Abreu, Backstreet Boys e Pearl Jam — estes dois últimos posteriormente retirados da programação.

Após o Rock in Rio II (1991), diversas tentativas de reeditar o festival fracassaram. Um projeto ambicioso em 1996 foi abortado em razão da escalada da violência urbana no Rio. Outras propostas, associadas ao Woodstock 99 e às comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil (2000), também não avançaram, segundo Medina, por inviabilidade financeira. “Tive pelo menos 200 reuniões com empresários que disseram ‘não’. Eles não viam isso como negócio, mas como mecenato”, declarou.

O cenário mudou com a entrada da America Online, responsável por cerca de 50% do orçamento, estimado, na época, em R$ 35 milhões (em torno de R$ 134 milhões hoje). Paralelamente a esse aporte financeiro, a AOL, outrora provedora de acesso à internet e hoje marca de conteúdo e publicidade digital, doou R$ 1 milhão em cursos intensivos que ajudaram 1,5 mil jovens de comunidades carentes do Rio de Janeiro a concluírem os estudos de 1º grau, além de 150 computadores.

Outras ações sociais foram implementadas. Em parceria com a ONG Viva Rio, 5% da receita líquida do evento foi destinada a projetos educacionais, com meta de atender mais de 11 mil jovens. “O capital venceu, mas perdemos um pouco do romantismo”, resumiu Medina.

O silêncio como manifesto

O impacto do Rock in Rio 2001 começou antes mesmo do primeiro acorde. Na abertura oficial, Roberto Medina articulou uma ação inédita: o silenciamento simultâneo de emissoras de rádio e televisão por três minutos, como convite à reflexão coletiva.

Segundo o organizador, houve aval do então presidente Fernando Henrique Cardoso para que, no dia 12 de janeiro, rádios retransmissoras da “Hora do Brasil” interrompessem simbolicamente sua programação em apoio a um movimento mundial pela paz. “Serão três mil emissoras fora do ar”, estimou Medina. O número real, segundo balanços posteriores, chegou a quase quatro mil.

Apesar do discurso pedagógico e pacifista que norteava o projeto, o empresário ressaltava que o festival não dependia de recursos públicos diretos. “Se vierem, serão bem-vindos, mas, por enquanto, trabalho apenas com a iniciativa privada”, disse. Ainda assim, o Rock in Rio utilizou mecanismos legais, como a lei carioca de incentivo à cultura, que permite deduções de ICMS.

Medina defendia o investimento institucional no setor cultural com base em números: lembrou ao Estadão que o Rock in Rio II gerou cerca de R$ 180 milhões em mídia espontânea e que a indústria do entretenimento movimentava cifras bilionárias, com impacto direto na arrecadação e na geração de empregos. Para ele, o festival não deveria ser avaliado apenas pela programação musical, mas por seu alcance econômico, social e educativo.

Do ponto de vista técnico, o Rock in Rio 2001 também marcou um avanço significativo: todo o equipamento de som utilizado foi de procedência nacional, diferentemente das edições anteriores. Medina também estabeleceu um preço único de ingresso, de R$ 34 (cerca de R$ 140 em valores dos dias de hoje), e protocolos rigorosos de segurança, incluindo cercas desenhadas para evitar ferimentos no público.

A Cidade do Rock

Para Roberto Medina, o Rock in Rio 2001 não deveria ser encarado apenas como um festival pautado por nomes de peso. “Se você vai ao banheiro ali do shopping e pergunta para o cara por que ele vai, ele responderá que vai ao Rock in Rio pela festa, não importa quem estará tocando lá”, afirmou o idealizador, ao defender que a experiência coletiva era o principal motor do evento.

Para receber um público estimado em 1,5 milhão de pessoas ao longo de nove dias, a organização reconstruiu a Cidade do Rock no mesmo terreno de 250 mil metros quadrados que abrigara a edição inaugural de 1985, com capacidade para até 250 mil pessoas por dia. O espaço reuniu palcos, tendas temáticas, áreas de alimentação, comércio, espaços culturais e um complexo dedicado à imprensa nacional e internacional, além de banheiros, posto médico e soluções para amenizar o calor intenso do verão carioca, como chuveiros e jatos de água lançados a partir do palco principal, denominado Palco Mundo.

Montado com auxílio de alpinistas, o Palco Mundo — ou “um ‘porco-espinho’ gigantesco de quarenta metros de largura e 88 de boca de cena”, nas palavras de Luiz Felipe Carneiro, autor de “Rock in Rio: A história”, publicado pela Globo Livros — chamou atenção pelo design futurista e pela estrutura tripla, que permitia trocas rápidas de cenários entre as apresentações. Os nomes que lá tocariam eram anunciados em levas: Silverchair, Red Hot Chili Peppers, James Taylor, ‘N Sync, Britney Spears e R.E.M., que tocaria pela primeira vez no Brasil. Em setembro, veio a confirmação do Iron Maiden, encerrando a noite dedicada ao metal.

Na sequência, foram confirmados Deftones, Sting, Rob Halford e Queens of the Stone Age. O grande trunfo surgiu em 26 de outubro, com o anúncio do Guns N’ Roses, ausente dos palcos havia oito anos. A confirmação de Neil Young & Crazy Horse agradou à velha guarda, enquanto Papa Roach e um Oasis visivelmente insatisfeito por abrir para o Guns completaram a programação internacional.

O boicote

O rock nacional marcou presença no Palco Mundo do Rock in Rio 2001 com Cássia Eller, Barão Vermelho, Ultraje a Rigor, Pato Fu, Sheik Tosado, Pavilhão 9, Sepultura, Engenheiros do Hawaii, O Surto e Capital Inicial, além dos já citados Ira! e Kid Abelha.

Em protesto contra cláusulas contratuais consideradas desfavoráveis — e até mesmo ao cachê seis vezes maior da dupla Sandy & Junior, que gerou desconforto —, O Rappa não apenas decidiu não se apresentar como liderou um boicote de bandas brasileiras, aderido por Cidade Negra, Raimundos, Charlie Brown Jr., Skank e Jota Quest. Juntos, eles formaram o chamado “Grupo dos Seis”.

Segundo os artistas, as regras estabeleciam ausência de passagem de som e condições técnicas inferiores às oferecidas a atrações internacionais, o que reacendeu o debate sobre a valorização da música nacional dentro do país.

Roberta Medina, filha do organizador e envolvida pela primeira vez com a realização de um Rock in Rio, definiu o boicote em 2019 como uma “bobagem”, mas revelou que o caso inspirou a criação do palco Sunset, que estreou na edição 2011 do evento. Ao G1, afirmou:

“Aquilo, na minha opinião, foi uma bobagem. Foi por muito pouco. Depois de seis meses, eles ficaram nervosos? Aí a gente falou: ‘Se vocês não querem, não é a gente que ia ceder’. […] Eu acho que [o cenário artístico do Brasil] evoluiu, vejo o mercado se profissionalizando. As bandas foram virando empresas, né? Não é aquela informalidade. Não vejo esses conflitos acontecerem. É muito irritante essa conversa de que (banda brasileira grande) só tem que tocar de noite. E na Europa que não tem noite?”

Clique aqui para ler um artigo completo explicando o boicote de bandas brasileiras ao Rock in Rio 2001.

Diversidade musical

Além do Palco Mundo, reservado às principais atrações nacionais e internacionais, o Rock in Rio III contou com quatro tendas temáticas. A Tenda Brasil reuniu 55 artistas brasileiros, de novos nomes como Los Hermanos a veteranos como Sá, Rodrix & Guarabyra. Já a Tenda Raízes, cuja curadoria ficou a cargo de Toy Lima, produtor do projeto Heineken Concerts, recebeu 23 grupos de países diversos, como Finlândia e África do Sul. “Não vou mostrar uma visão folclórica da música, mas também pop. Se você ouvir os sons da África hoje, há até uma cena hip hop fenomenal”, explicou Lima ao Estadão, destacando a proposta contemporânea do espaço dedicada à música étnica e à chamada world music.

A Tenda Eletro foi dedicada à música eletrônica, com 14 DJs nacionais e nove internacionais, além de atrações circenses durante o dia, sob coordenação do ator Marcos Frota. Já a Tenda Mundo Melhor abrigou palestras e debates sobre temas como juventude, educação, fé, espiritualidade e globalização, com participações de nomes como Paulo Coelho e Leonardo Boff. Ao todo, foram mais de 150 atrações ao longo de nove dias

Cobertura midiática sem precedentes

A cobertura jornalística e televisiva foi um dos pilares do evento. Emissoras de TV, rádios e veículos impressos do mundo todo acompanharam diariamente o festival, que ganhou dimensão global.

Como nas edições anteriores, a Rede Globo realizou um grande investimento na transmissão do evento. Seis câmeras exclusivas e mais de 160 profissionais foram mobilizados. Edições do RJTV foram ancoradas diretamente da Cidade do Rock, enquanto outros telejornais exibiam diariamente reportagens, flashes ao vivo, informações de serviço e bastidores.

À noite, a emissora mantinha sua programação até cerca de 22h, quando passava a transmitir os shows ao vivo. Repórteres se revezavam entre plateia, backstage e camarotes, consolidando uma das coberturas mais abrangentes da história do festival.

Números, impacto e legado

Segundo a revista Bizz – Edição Especial Festivais (2011), foram consumidos diariamente:

  • 600 mil litros de cerveja;
  • 435 mil litros de refrigerante;
  • 20 mil lasanhas por dia.

Outros dados, levantados por Luiz Felipe Carneiro, indicam:

  • 265 toneladas de lixo;
  • 249 furtos;
  • 14 roubos;
  • 7 queixas de lesão corporal;
  • 7,7 mil atendimentos realizados pelos postos médicos, com trinta remoções para hospitais — nenhum dos quais causado por brigas.

Com 350 milhões de dólares movimentados para a economia carioca, o Rock in Rio 2001 serviu como divisor de águas para o festival. Com uma produção de escala inédita e line-up diverso, a edição consolidou a marca como uma plataforma global de entretenimento, abrindo caminho para sua expansão internacional em países como Portugal, Espanha e Estados Unidos.

Mas talvez o grande mérito de Roberto Medina e sua equipe tenha sido mostrar que o Rock in Rio só faz sentido quando tem algo novo a dizer — e, naquele momento, 25 anos atrás, tinha muito.

Lineup do Rock in Rio 2001

Sexta-feira, 12 de janeiro de 2001
Palco Mundo:
— Sting
— Daniela Mercury
— James Taylor
— Gilberto Gil
— Milton Nascimento e Orquestra Sinfônica Brasileira
Tenda Brasil:
— Habagaceira (Escalada do Rock)
— Os Anjos
— Patricia Coelho
— Sandra de Sá
— Luiz Melodia
— Jair Rodrigues
— Arnaldo Antunes
Tenda Raízes:
— Henri Dikongué (Camarões)
— Anima (Brasil)
— Vartina (Finlândia)
— Regis Gizavo (Madagascar)
— Tyours Gnawas (Marrocos)
— Thierry Robin (França)

Sábado, 13 de janeiro de 2001
Palco Mundo:
— R.E.M.
— Foo Fighters
— Beck
— Barão Vermelho
— Fernanda Abreu
— Cássia Eller
Tenda Brasil:
— Insight (Escalada do Rock)
— Expresso 22
— Mestre Ambrósio
— Cidadão Quem
— Marcio Montarroyos
— Penelope
— Sá, Rodrix e Guarabyra
— Nando Reis
Tenda Raízes:
— Regis Gizavo (Madagascar)
— Henri Dikongué (Camarões)
— Thierry Robin (França)
— Tyours Gnawas (Marrocos)
— Campanyia Electrica Dharma
— Vartina (Finlândia)

Domingo, 14 de janeiro de 2001
Palco Mundo:
— Guns N’ Roses
— Oasis
— Papa Roach
— Ira! e Ultraje a Rigor
— Carlinhos Brown
— Pato Fu
Tenda Brasil:
— O Brau (Escalada do Rock)
— Silvinho Blau-Blau & Os Pelúcias
— Virgulóides
— Mary’s Band
— Afro Reggae
— Los Hermanos
— Nação Zumbi
— The Silva’s
Tenda Raízes:
— Mawaca (Brasil)
— René Lacaille (Ille de la Reunion)
— Companya Electrica Dharma
— Trio Chemirani (Irã)
— Kau (Brasil)
— Ray Lema Group (Zaire)

Quinta-feira, 18 de janeiro de 2001
Palco Mundo:
— ‘NSync
— Britney Spears
— Aaron Carter
— Sandy e Junior
— Five
— Moraes Moreira
Tenda Brasil:
— Expresso 4 Oito (Escalada do Rock)
— Kacau Gomes
— SNZ
— LS Jack
— Luciana Mello
— Funk’n’Lata
— Vinny
— Pedro Camargo Mariano
Tenda Raízes:
— Teófilo Chantre (Cabo Verde)
— Trio Chemirani (Irã)
— Ray Lema Group (Zaire)
— René Lacaille (Ille de la Reunion)
— Targino (Brasil)
— Pascual Gallo (Andaluzia)

Sexta-feira, 19 de janeiro de 2001
Palco Mundo:
— Iron Maiden
— Rob Halford
— Sepultura
— Queens of the Stone Age
— Pavilhão 9
— Sheik Tosado
Tenda Brasil:
— Tafari Roots (Escalada do Rock)
— Relespública
— Negril
— Pepeu & Armandinho
— Rumbora
— Tom Zé
— Branco Mello
Tenda Raízes:
— Pascual Gallo (Andaluzia)
— Dedé Saint Prix (Martinica)
— Dervish (Irlanda)
— Touré-Touré (Mali/Senegal)
— Teófilo Chantre (Cabo Verde)
— Amadou et Miriam (Mali)

Sábado, 20 de janeiro de 2001
Palco Mundo:
— Neil Young
— Sheryl Crow
— Dave Matthews Band
— Kid Abelha
— Elba Ramalho e Zé Ramalho
— Engenheiros do Hawaii
Tenda Brasil:
— Sem Destino (Escalada do Rock)
— Cabeça de Nego
— Nocaute
— Toni Platão
— Wilson Simoninha
— Paulinho Moska
— Max de Castro
— Torcuato Mariano & Rock Soul Band
Tenda Raízes:
— Dedé Saint Prix (Martinica)
— Uakti (Brasil)
— Sintesis (Cuba)
— Cheb Aissa (Algéria)
— Touré-Touré (Mali/Senegal)
— Dervish (Irlanda)

Domingo, 21 de janeiro de 2001
Palco Mundo:
— Red Hot Chili Peppers
— Silverchair
— Capital Inicial
— Deftones
— O Surto
— Diesel (vencedora da Escalada do Rock)
Tenda Brasil:
— Cajamanga (Escalada do Rock)
— Autoramas
— Wilson Sideral
— Plebe Rude
— Tribo de Jah
— Biquíni Cavadão
— Tianastácia
— Tihuana
Tenda Raízes:
— Carlos Malta & Pife Muderno (Brasil)
— Cheb Aissa (Algéria)
— Amadou et Mariam (Mali)
— Kau (Brasil)
— Uakti (Brasil)
— Sintesis (Cuba)

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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