Após uma apresentação pontual na edição 2023 do festival fluminense Prio Blues e Jazz, realizado na Marina da Glória, Roberto Frejat retomou, na última terça-feira (20), o espetáculo “Frejat em Blues”. O show para convidados, no Teatro Oi Casa Grande, na Zona Sul do Rio de Janeiro, deu o pontapé inicial da iniciativa, como parte do projeto “Quatro Décadas e Um Pouco Mais”, que visa celebrar a carreira do artista ex-Barão Vermelho.
Aqui, repertório e execução do cantor e guitarrista de 63 anos são diferentes do habitual. Frejat mescla composições de sua trajetória com canções de Luiz Melodia, Angela Ro Ro, Djavan, Roberto Carlos, Tim Maia, Os Paralamas do Sucesso, entre outros gigantes da música brasileira, reimaginadas em uma pegada ainda mais “bluesy” do que nas versões originais. Como dito pelo músico, a ideia é revisitar a história do que ele entende como blues brasileiro e suas particularidades.
De início, duas faixas esclarecem a proposta: “Questão de Posse”, de Luiz Melodia, e “A Mim e a Mais Ninguém”, de Angela Ro Ro. Uma sólida ponte entre a MPB e o blues é traçada com maestria pelo artista, que explica: o blues nacional se difere do americano pois mergulha no contexto da música popular brasileira. Foi adaptado às particularidades da língua portuguesa, ganhando uma identidade própria.
O próprio Barão Vermelho é exemplo disso. E um dos pontos altos do show de terça (20) ocorreu quando Frejat, prestes a se reunir com o grupo para uma turnê comemorativa junto dos membros originais remanescentes, revisita esta parte de seu catálogo. Mas nada de “Bete Balanço” ou “Pro Dia Nascer Feliz”. Como diz o frontman, as influências do blues eram algo em comum entre os colegas. Ele exalta que, ao lado de Cazuza, foram responsáveis por trazer uma nova cara ao gênero na música brasileira.
Desse modo, fazem parte do repertório canções como “Bilhetinho Azul”, “Boomerang Blues”, “Não Amo Ninguém”, “Down em Mim” e “Quem Me Olha Só”. Nessa etapa da apresentação, é divertida a forma como Frejat relembra histórias e conta curiosidades sobre os bastidores das composições.
“Bilhetinho Azul”, do primeiro disco do Barão, de 1982, ganha um arranjo com instrumental mais robusto, similar ao executado no ao vivo “Balada MTV” (1999). Em “Boomerang Blues”, escrita em parceria com Renato Russo, Frejat recorda a colaboração de forma saudosa e ressalta a timidez do líder da Legião Urbana fora dos palcos. Na troca de guitarras para “Down em Mim”, executada de modo bem próximo ao da versão imortalizada pelo Barão Vermelho na voz de Cazuza, o cantor e guitarrista destaca o fato de estar com a mesma guitarra usada em estúdio na época da gravação original.
Se, ao lado de “Não Amo Ninguém”, essa é uma das faixas que Frejat mantém mais próximas de suas versões originais, são inúmeras as outras músicas presentes no espetáculo que, assim como “Bilhetinho Azul”, se permitem mais guitarras, instrumentais mais encorpados e solos estendidos. As liberdades de reimaginação e os improvisos se destacam na etapa inicial em músicas como “Pérola Negra”, de Luiz Melodia, e mais a frente, com “Mal Secreto”, de Jards Macalé, que ganha mais guitarras nesse modelo.
“Caleidoscópio”, uma homenagem a seus contemporâneos dos Paralamas do Sucesso — já presente em outros espetáculos solo de Roberto Frejat e gravada por ambos em “Uns Dias Ao Vivo” (2004) —, mantém-se próxima da versão de Herbert Vianna e companhia, assim como “Blues da Piedade”, hit solo de Cazuza composto em parceria com Frejat. Já “Me Dê Motivo”, de Tim Maia, que marca presença no bis, é mais uma que ganha um belo solo de Frejat, além de uma palinha extra de cada um dos integrantes da banda de apoio.
O grupo, diga-se, garante um espetáculo de primeira linha. O palco é ocupado por músicos virtuosos e extremamente afinados com a proposta do show e com o próprio Frejat, que, em diversos momentos, interage com os companheiros. São eles:
- Otávio Rocha, um espetáculo à parte nas guitarras slide;
- Bruno Migliali no baixo;
- Rafael Frejat, filho do próprio Frejat, nas guitarras, teclados e direção musical;
- Humberto Barros nos teclados, com direito a dancinhas carismáticas ao longo da apresentação;
- Jhusara Lourenço e Bettina Graziani nos vocais de apoio;
- Marcelinho da Costa na bateria;
- e o trio de sopros formado por Marlon Sette no trombone, Diogo Gomes no trompete e Zé Carlos Bigorna no saxofone.
Em meio a essa banda que esbanja qualidade, a boa forma de Frejat, no auge de suas mais de seis décadas de vida e quatro de carreira, é o que mais impressiona. São nítidos o carinho e a vontade do músico em executar esse repertório. Não à toa, arrancou aplausos e gritos de quem assistiu a um dos shows de mais alto nível que a música brasileira tem a oferecer.
Frejat — ao vivo no Rio de Janeiro
- Data: 20 de janeiro de 2026
- Local: Teatro Oi Casa Grande
- Turnê: Em Blues / Quatro Décadas e Um Pouco Mais
Repertório:
- Questão de Posse (Luiz Melodia)
- A Mim e a Mais Ninguém (Angela Ro Ro)
- Que Loucura (Luiz Melodia)
- Pérola Negra (Luiz Melodia)
- Esquinas (Djavan)
- Bilhetinho Azul (Barão Vermelho)
- Boomerangue Blues (Barão Vermelho)
- Não Amo Ninguém (Barão Vermelho)
- Como Dois e Dois (Roberto Carlos)
- Down em Mim (Barão Vermelho)
- Cartão Postal (Rita Lee)
- Escândalo (Angela Ro Ro)
- Quem Me Olha Só (Barão Vermelho)
- Era Nova (Gilberto Gil)
- I’ve Brussel (Jorge Ben Jor)
- Blues da Piedade (Cazuza)
- Não Vou Ficar (Roberto Carlos)
- Mal Secreto (Jards Macalé)
- Caleidoscópio (Os Paralamas do Sucesso)
- Hoje e Amanhã Não Saio de Casa (Luiz Melodia)
- Pra Aquietar (Luiz Melodia)
Bis: - Me Dê Motivo (Tim Maia)
- Você Me Acende (Erasmo Carlos)
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