...

A história de “Seventh Star”, quando Iommi carregou o Black Sabbath sozinho

Concebido como projeto solo e lançado sob pressão da gravadora, álbum expôs crise de identidade, disputas internas e momento instável nos anos 1980

Após a retomada de prestígio com Ronnie James Dio no início da década de 1980 e a passagem de Ian Gillan em Born Again (1983), o Black Sabbath mergulhou em uma sequência de trocas de formação que expôs a fragilidade de sua estrutura interna.

Com a saída de Gillan em 1984 para se reunir ao Deep Purple, rumores envolvendo nomes como Ron Keel e David Donato — além da breve reunião com Ozzy Osbourne no Live Aid de 1985 — evidenciaram a dificuldade de manter a banda coesa. Pouco depois, o afastamento de Geezer Butler reforçou a percepção de que o Sabbath havia se tornado, essencialmente, um projeto centrado em Tony Iommi.

- Advertisement -

É nesse contexto que “Seventh Star” toma forma. Talvez o mais singular — e certamente um dos mais controversos — da discografia do grupo, o álbum foi concebido inicialmente como uma empreitada solo de Iommi. O resultado é uma obra de sonoridade mais melódica e acessível, fortemente influenciada pelo hard rock da época e distante do peso sombrio que consagrou o Sabbath nos anos 1970.

A entrada de Glenn Hughes — outro ex-integrante do Purple — como vocalista, somada às pressões da gravadora para lançá-lo sob o nome Black Sabbath, contribui para que “Seventh Star” permaneça como uma verdadeira radiografia do turbulento período vivido pela banda nos anos 1980. Conheça a história.

De projeto solo a encruzilhada sabbathiana

Em meados de 1985, o Black Sabbath atravessava um de seus períodos mais instáveis. Como único integrante remanescente da formação clássica, Tony Iommi passou a repensar não apenas o futuro da banda, mas também sua própria identidade artística.

A solução inicial parecia simples: gravar um álbum solo, livre das amarras do nome Black Sabbath, convidando diferentes vocalistas para cada faixa. Iommi chegou a elaborar uma lista ambiciosa de possíveis cantores, que incluía Robert Plant (Led Zeppelin), Rob Halford (Judas Priest) e David Coverdale (Whitesnake).

No papel, a ideia soava promissora. Na prática, revelou-se um pesadelo logístico. Em sua autobiografia “Iron Man” (Planeta, 2013), o guitarrista descreve o processo como a abertura de “uma gigantesca caixa de Pandora”. Os entraves contratuais eram constantes: gravadoras barravam participações e os convites esbarravam em compromissos paralelos. “A coisa ficava sempre assim: ‘ah, não, estamos fazendo um álbum, não posso cantar no seu’”, relembrou.

Diante das dificuldades, Iommi engavetou temporariamente o plano. Nesse contexto, surgiu Jeff Fenholt, então conhecido por ter interpretado Jesus na versão da Broadway do musical “Jesus Christ Superstar”.

Duas demos foram gravadas em Los Angeles, trazendo versões embrionárias de músicas que mais tarde veriam a luz do dia, como Star of India (futura “Seventh Star”), “Eye of the Storm” (que se tornaria “Turn to Stone”) e Danger Zone. No entanto, quando o produtor Jeff Glixman (Kansas, Gary Moore) assumiu o projeto, concluiu que Fenholt não funcionava bem em estúdio. O trabalho foi interrompido sem maiores cerimônias.

Anos depois, Fenholt seguiria carreira como pastor evangélico na televisão americana. Faleceu em setembro de 2019, às vésperas de seu 69º aniversário.

Foi nesse momento de indefinição que Glenn Hughes entrou em cena. Um dos nomes da lista original de Iommi, o ex-baixista e vocalista do Deep Purple havia acabado de retornar à Califórnia após uma malfadada turnê com Gary Moore quando recebeu uma ligação do guitarrista.

Hughes recorda que, ao chegar ao Cherokee Studios, em Hollywood, a primeira música que ouviu foi “No Stranger to Love”. Na mesma noite, ele e o tecladista Geoff Nicholls começaram a escrever a letra, gravando a canção logo em seguida. “Na noite seguinte fizemos [a letra de] ‘Danger Zone’. Tony adorou tudo”, relembrou o cantor em sua autobiografia (EV7 Press, 2018).

À medida que as sessões avançavam, tornou-se evidente que Hughes não seria apenas mais um convidado. Impressionado com a performance vocal, Iommi abandonou de vez a ideia de múltiplos cantores. “Eu ia fazer um álbum com vários vocalistas, esse era o plano original. Mas ouvi a voz do Glenn e pensei: ninguém vai fazer melhor do que isso”, confessou.

A parceria, porém, estava longe de ser simples. Iommi descreve Hughes como “incontrolável” na época, em razão do consumo excessivo de cocaína. Ainda assim, faz questão de reconhecer o talento extraordinário do cantor. “Ele cantava como um sonho, sem esforço algum. Era uma voz dada por Deus”, afirmou.

Hughes, por sua vez, admite que não vivia seu melhor momento pessoal, mas acredita ter entregado uma grande performance. “Mesmo na minha paranoia de pó, eu ainda conseguia fazer o meu trabalho”, escreveu.

Uma gênese conturbada

As gravações do disco de Tony Iommi reuniram, além de Glenn Hughes nos vocais, Eric Singer na bateria e Dave Spitz (irmão de Dan Spitz, guitarrista do Anthrax) no baixo — com exceção de “No Stranger to Love”, que contou com Gordon Copley nas quatro cordas.

Em entrevista a Joel Gausten, publicada no livro “From Satan to Sabbath: The METAL Interviews 2000–2009” (2010), Singer, que à época integrava a banda de Lita Ford, então noiva de Iommi, relembrou que o guitarrista produzia algumas das gravações de pré-produção de Lita e chegou a participar de faixas como uma versão de “The Thrill is Gone”, de B.B. King. Daí surgiu o convite para que Singer participasse em demos que inicialmente não tinham vínculo formal com o nome Black Sabbath. “Nós desenvolvíamos ideias e colocávamos tudo em fita”, recordou o baterista.

Ainda inexperiente na época, Singer reconhece hoje a postura rigorosa de Iommi no estúdio. Segundo ele, o guitarrista sempre tratou a música com extrema seriedade, orientando os músicos quanto à atitude correta para preservar a identidade do Sabbath. “No Sabbath não tem essa de ‘sorriso na cara e festa’. O negócio deles sempre foi outro”, resume.

Os trabalhos começaram em Los Angeles, mas foram concluídos em Atlanta, mudança que, segundo Hughes, foi decisiva para o andamento do projeto. “Foi ali que tudo começou a fluir mais livremente”, recordou o cantor, citando a faixa “Heart Like a Wheel” como momento em que passou a se sentir parte efetiva do álbum.

Houve rapidez no processo. Algumas músicas foram gravadas na primeira ou segunda tomada, em parte por uma razão prática: Iommi bancou integralmente as sessões. “Tentamos acabar o mais rápido possível porque era eu pagando”, explicou.

Apesar disso, uma confusão quanto à autoria do material se desenrolava. Geoff Nicholls contribuiu com ideias — “Angry Heart” é sobre a morte da mãe do tecladista —, mas Hughes afirma ter escrito a maior parte das letras, como “In for the Kill” (na qual evoca Vlad, o empalador, para comparar a luta contra o vício à luta contra demônios) e “In Memory…” (um tributo ao falecido pai de Iommi). Em sua autobiografia, ele relata, no fim das contas, ter fechado um acordo com o empresário Don Arden e recebido cerca de US$ 20 mil pelos direitos de publicação — prática comum na época.

Novas tensões ocorreram quando, já em janeiro de 1986, Iommi e Hughes foram informados de que o disco seria lançado como Black Sabbath. A decisão desagradou a ambos. “Eu queria liberdade para fazer um álbum com o som que eu quisesse”, afirmou Iommi, ressaltando que nem ele nem Hughes se sentiam confortáveis em apresentar o trabalho como Sabbath.

Hughes foi ainda mais direto. Para ele, o Black Sabbath estava intrinsecamente ligado a Ozzy Osbourne, e músicas como “No Stranger to Love” não se encaixavam na estética da banda. “Sou um cantor de soul. Trabalhar com Tony fora do Sabbath fazia sentido; dentro dele, não”, resumiu, atribuindo a mudança de nome a uma estratégia comercial para impulsionar a turnê.

Singer concorda que “Seventh Star” acabou se tornando um capítulo atípico na discografia do Black Sabbath sobretudo por pressões mercadológicas. Segundo o baterista, a gravadora e o management optaram por lançá-lo sob o nome da banda, avaliando que o peso da marca garantiria maior alcance comercial, “embora Tony fosse o único integrante remanescente”, afirmou.

Cinco shows e um colapso

Com forte influência de hard rock e AOR, “Seventh Star” reflete esse caráter híbrido. Lançado em janeiro de 1986, o álbum destoou das expectativas do público tradicional. Ainda assim, alcançou o 27º lugar nas paradas britânicas em maio de 1986, permanecendo nelas por cinco semanas.

O single “No Stranger to Love” ganhou um clipe que se tornaria outro ponto de atrito. Tony Iommi detestou a experiência, que incluiu maquiagem pesada, cenas românticas com a atriz Denise Crosby — sobrinha do cantor Bing Crosby e famosa por interpretar a tenente Natasha Yar, do seriado “Jornada nas Estrelas” — e gravações ao amanhecer nos canais de Los Angeles. “Não tinha nada a ver com o nosso estilo”, lamentou o guitarrista.

Pouco depois do lançamento, veio a desastrosa turnê, com uma produção grandiosa: palco gigantesco, lasers e uma estrutura cara proposta por Don Arden, mas bancada por Iommi. Glenn Hughes admitiu posteriormente que aceitou a empreitada por respeito a Iommi, apesar do medo de cantar clássicos da era Ozzy Osbourne diante de um público majoritariamente masculino, jovem e hostil à sua presença. “Eu estava apavorado com a ideia de cantar ‘Iron Man’ para 10 ou 15 mil pessoas”, confessou em sua autobiografia.

Do lado de Iommi, a avaliação foi ainda mais dura. Para o guitarrista, “dizer que a turnê começou mal é um eufemismo”. Hughes enfrentava sérios problemas vocais desde o primeiro dia, agravados pelo uso intenso de cocaína e álcool — combinação particularmente nociva às cordas vocais.

A situação saiu do controle às vésperas do primeiro show em Cleveland, Ohio. Glenn Hughes se envolveu em uma briga com o stage manager John Downing, figura experiente que havia trabalhado com nomes como Jimi Hendrix. Segundo ambos relataram em ocasiões distintas, a discussão — motivada por drogas e tensão acumulada — terminou com Hughes sendo violentamente agredido. O soco dado por Downing deslocou sua cavidade ocular e causou fraturas no rosto e danos na garganta, comprometendo ainda mais sua capacidade de cantar.

Mesmo ferido e sem condições físicas adequadas, Hughes subiu ao palco diante da plateia de mais de 10 mil pessoas do Public Auditorium, consciente de que não conseguia entregar a performance esperada. Os shows seguintes — Detroit, East Rutherford e Providence — repetiram o clima de desastre.

Em 26 de março de 1986, no Centrum, em Worcester, Massachusetts, o Black Sabbath realizou sua quinta e última apresentação com Glenn. Três dias depois, em New Haven, o substituto Ray Gillen faria sua estreia como vocalista do Sabbath.

Anos depois, Hughes foi categórico ao refletir sobre o episódio: se pudesse apagar algo de sua vida, seriam aqueles cinco shows.

Black Sabbath featuring Tony Iommi – “Seventh Star”

  • Lançado em 28 de janeiro de 1986 pela Warner Bros
  • Produzido por Jeff Glixman

Faixas:

  1. In for the Kill
  2. No Stranger to Love
  3. Turn to Stone
  4. Sphinx (The Guardian)
  5. Seventh Star
  6. Danger Zone
  7. Heart Like a Wheel
  8. Angry Heart
  9. In Memory…

Músicos:

  • Tony Iommi – guitarra e violão
  • Glenn Hughes – vocais
  • Eric Singer – bateria
  • Dave “The Beast” Spitz – baixo
  • Geoff Nicholls – teclados

Músico adicional:

  • Gordon Copley – baixo em “No Stranger to Love”

Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Bluesky | Twitter | TikTok | Facebook | YouTube | Threads.

ESCOLHAS DO EDITOR
InícioCuriosidadesA história de “Seventh Star”, quando Iommi carregou o Black Sabbath sozinho
Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

DEIXE UMA RESPOSTA (comentários ofensivos não serão aprovados)

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui


Últimas notícias

Curiosidades