No que diz respeito a contribuições criativas, Ace Frehley, Vinnie Vincent e Bruce Kulick foram os guitarristas mais importantes do Kiss. O trio teve a oportunidade de tocar junto em 2022 — e um deles relembrou a estranha ocasião.
Ao Ultimate Guitar, Kulick disse que Frehley e ele passaram por uma situação constrangedora. Os dois foram convidados para tocar com Vincent em um evento chamado de “Creatures Fest”, organizado por um fã para celebrar várias fases do grupo, incluindo a do guitarrista em questão — que abandonou a vida pública nas últimas décadas e realizou apenas algumas aparições bem curiosas.
Bruce, de início, tinha expectativas altas. Ele comenta:
“Primeiro de tudo, o conceito de Santíssima Trindade criado por aquele promotor realmente era fascinante, porque você tinha Ace, Vinnie e eu. Agora, Vinnie sendo o Howard Hughes (milionário americano que se manteve recluso no fim da vida), como eu disse para a Rolling Stone eras atrás, o que era muito verdadeiro, (já que ele) saiu fora e estava de volta.”
Entrando numa furada
O palco montado para a ocasião trazia uma réplica do tanque de guerra que o Kiss usou nas turnê de “Creatures of the Night” (1982) e “Lick It Up” (1983), onde a bateria de Eric Carr costumava ficar. Tudo certo. Só faltava um baterista.
“Eu não fazia ideia de que o tanque seria trazido. Vinnie ficaria no topo, eu estaria ali e então Ace me seguiria. Isso ficou entendido. Eu combinei com o cara que cuidava do som e da parte das faixas pré-gravadas que nós teríamos um baterista, um baixista e um vocalista. Mas, de repente, não tem baterista. São só as faixas pré-gravadas. Eu conhecia o cara que estava trabalhando com Vinnie e gostava dele, sabia que ele era profissional, então pude garantir isso quando Ace disse algo como: ‘O que diabos está acontecendo? Onde está o baterista?’. Falei: ‘Eu não sei. Mas tudo o que temos são essas faixas. Sei que as faixas vão funcionar, mas o que você quer fazer?’.”
Percebendo a furada que haviam se metido, Ace e Bruce resolveram trabalhar juntos para minimizar o problema.
“Então fizemos um pacto. Ace estava tipo: ‘só vou fazer isso porque você vai fazer’. Uma situação divertida com Ace, onde acabei me unindo a ele. E eu disse: ‘mas nós só vamos fazer isso pelos fãs… ninguém vai controlar a narrativa aqui’.”
O resultado
Bruce Kulick relatou extrema dificuldade em encaixar tudo sem um baterista. A apresentação abriu com um solo de Vinnie Vincent — com mais de 15 minutos de duração — e seguiu com “War Machine”, já com Kulick no palco e, neste caso, sem vocalista. Frehley se juntou aos dois para tocar “Deuce”, com um baixista assumindo vocais, e “Cold Gin”, com Ace alternando a função e uma trilha de bateria trazendo zero variações.
No final, mais problemas. Bruce comenta:
“A coisa mais estranha foi, infelizmente, bem no final – e isso acontece às vezes, especialmente quando você não tem toda sua equipe e suas coisas – quando o amplificador de Ace desligou. Eu tenho certeza de que o cabo saiu. E então, de repente, sou o único realmente tocando no final de ‘Cold Gin’. E eles não queriam que os fãs gravassem vídeos. Algumas pessoas fizeram vídeos escondidas, é claro, mas Vinnie mandou avisar: não queria que fosse filmado.”
Segundo Kulick, a própria iluminação prejudicava a tentativa de filmar. Ele sequer tem certeza se o próprio Vincent tocou de verdade, ou se usou playback também para sua guitarra.
Os dois conversaram rapidamente no backstage. Bruce definiu Vinnie como alguém educado, mas disse acreditar que o colega sabia bem de toda a “maracutaia”.
“Foi uma experiência surreal. Dito isso, eu não tenho nada contra Vinnie, mas não tenho nenhum interesse realmente em tentar trabalhar com ele de maneira nenhuma.”
Sobre Vinnie Vincent
Nascido em Bridgeport, Connecticut, Estados Unidos, Vincent John Cusano começou a carreira tocando com o cantor Dan Hartman, além de bandas como Treasure, Hunter, Warrior, Hitchhikers e Heat. Também fez as trilhas para a série televisiva “Happy Days”.
Em 1982 se envolveu com o Kiss durante as gravações do álbum “Creatures Of The Night”, como um dos vários guitarristas que participaram. Acabou efetivado como membro, permanecendo até o fim da turnê de “Lick It Up” (1983). Seu personagem no palco era o “Ankh Warrior”, em um design criado por Paul Stanley. Reuniu-se com os colegas como colaborador na fase de composição de “Revenge” (1992).
Na metade dos anos 1980, montou o Vinnie Vincent Invasion, que lançou dois discos. Os outros músicos da última formação seguiram juntos no Slaughter. Lançou um EP solo, “Euphoria”, em 1996, mas passou os anos seguintes longe dos holofotes. A partir de 2018, reapareceu em convenções de fãs e outros eventos relacionados ao Kiss.
De personalidade conhecida como difícil, Vincent conta ainda com uma lista de polêmicas na vida pessoal. Sua primeira esposa, AnnMarie Peters, desapareceu em 1998 e foi encontrada morta dois anos depois.
Em 1996, ele se casou com Diane Kero, ex-namorada de Ace Frehley. Em 2011, ela acusou Vinnie de violência doméstica, o que o levou a ser preso — e liberado após pagamento de fiança de US$ 10 mil. Nas buscas na residência do casal, a polícia encontrou cerca de 20 cães em situação degradante e outros quatro sem vida em contêineres. Diane afirma que os animais armazenados haviam sido mortos por outros de maior porte. Ela faleceu em 2014, em decorrência de complicações no abuso de álcool.
Vincent, que negou as acusações, se livrou de uma pena na cadeia porque aceitou se submeter a uma terapia para controle de raiva.
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Parabéns pelo trabalho! Realmente prendeu ate o fim. Na qualidade de fã do KISS foi legal ler, curtir e imaginar eles resolvendo a situação. Sem falar que me senti mais conformado com as furadas que ja me meti enquanto músico. Pois se até nomes de ponta podem, o que dirá um mero mortal. Valeu e obrigado pela imersão.