Måneskin voando e Guns N’ Roses desgastado marcam Rock in Rio no dia 8

Banda italiana pegou de surpresa quem os via apenas como “atração do momento”; veteranos do hard rock decepcionaram a ponto de acelerar saída de parte do público

Após a noite do metal que deu início ao Rock in Rio 2022, no último dia 2, somente a quarta das sete datas do evento voltou a trazer de forma massiva o estilo que dá nome a ele. Na quinta-feira, 8 de setembro, as atrações do palco Mundo, espaço principal, foram Guns N’ Roses, Måneskin, Offspring e CPM 22. A cobertura abrangeu os quatro artistas citados.

Também foi possível acompanhar trechos de três apresentações do palco Sunset, que serão comentadas rapidamente antes dos artistas do Mundo. Antes, porém, vale observar como os dois espaços estavam em disparidade: enquanto o palco Mundo foi todo focado no rock, o Sunset explorou pop, MPB e soul music, o que gerou muita reclamação desde o anúncio do line-up.

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A headliner do espaço, Jessie J, voltou a fazer ótimo show na Cidade do Rock. Esta é a terceira vez dela no espaço alternativo (após 2013 e 2019) e mostrou, de novo, que deveria estar no palco Mundo. Há hits e qualidade de performance o bastante para isso, seja da cantora – que faz verdadeiros malabarismos com a voz –, seja com a competente banda de apoio que traz o virtuoso brasileiro Mateus Asato na guitarra.

As outras duas atrações que pude acompanhar estavam ainda mais deslocadas: Corinne Bailey Era e Gloria Groove. Porém, as reações do público a ambas foram distintas.

A britânica teve uma recepção morna que combinou com seu som, um R&B romântico que tem qualidade, mas não surpreende, nem se encaixa com a intensidade de um festival como este. Já a brasileira fez um dos shows mais lotados do palco Sunset nesta edição – e no meio da tarde, horário que nem sempre favorece. A enérgica cantora drag de música pop não apenas escolheu suas canções de maior impacto como também prestou homenagens a Pitty (com “Máscara”), Cazuza (“Exagerado”) e Cássia Eller (“Malandragem”). Fez bonito.

Agora é hora de palco Mundo, com apresentações acompanhadas na íntegra.

CPM 22 novo e de novo

Embora seja veterano de Rock in Rio – apresentou-se em 2015 e, com Raimundos, em 2019 –, o CPM 22 tocou neste dia 8 pela primeira vez no festival com os novos integrantes Daniel Siqueira (bateria) e Ali Zaher (baixo). O primeiro citado exerce um papel importante no grupo, visto que substitui Ricardo Japinha, um dos grandes responsáveis por dar identidade sonora ao projeto desde sua entrada em 1999 até a tumultuada saída em 2020, em função do vazamento de conversas antigas com uma adolescente de 16 anos.

Logo na primeira música do setlist, “O Mundo Dá Voltas”, deu para sentir que os novos membros dão conta do recado. Siqueira, anteriormente conhecido pelo trabalho com o Garage Fuzz, tem abordagem técnica e reproduz com exatidão as linhas de Japinha. Zaher, por sua vez, preenche o som de modo competente como seu antecessor, permitindo que as guitarras de Luciano Garcia e Phil Fargnoli possam flutuar em acordes oitavados tão característicos de sua sonoridade.

Foto: Wesley Allen

Mas é na música seguinte, “Não sei viver sem ter você”, que se percebe os méritos do integrante que dá a cara do CPM 22: Badauí. Apesar de uma ou outra falha isolada, o vocalista mantém sua boa performance mesmo com as limitações técnicas no que diz respeito a vocais. A banda seguiu sem um de seus principais compositores ¬– o guitarrista Wally, que saiu em 2008 em meio a divergências com os colegas –, mas ficaria insustentável de se continuar sem seu frontman.

A performance tem sequência com uma dobradinha entre faixa atual e cover: o single de 2020 “Escravos”, com rara letra politizada em comparação ao restante da discografia, e uma versão de “Por Enquanto” (composição de Renato Russo lançada por Cássia Eller) orientada ao hardcore peculiar que tornou o grupo famoso. “Desconfio”, figurinha presente em todo setlist dos caras, é sucedida pela participação de Sérgio Britto, dos Titãs, em outra dupla “atual-cover” formada por “Tudo Vale a Pena?”, música gravada também com Britto e divulgada neste ano, e “Será que é isso o que eu necessito?”, surpreendente resgate de “Titanomaquia” (1993), o “álbum grunge” da banda do convidado.

Passadas as eventuais surpresas da primeira etapa do show, foi hora de oferecer uma fila de hits, quase sempre com forte participação da plateia em refrães e coros. Entre as canções de destaque, estiveram a boa interpretação de “Um minuto para o fim do mundo” com o público cantando parte da faixa sozinho e “Tarde de Outubro” com uma introdução melódica nem sempre executada pelo grupo. Sobrou tempo no set até para incluir “Atordoado”, que não estava no planejamento original.

Foto: Wesley Allen

Vale destacar ainda que “Dias Atrás” foi sucedida por um discurso onde Badauí protestou contra o ódio gratuito especialmente na internet. O cantor ainda destacou que “um país que tem e valoriza a cultura não precisa de arma, porque arma mata as pessoas”. Como em outros momentos, gritos contra o presidente Jair Bolsonaro foram ouvidos de alguns pontos da plateia.

  1. O mundo dá voltas
  2. Não sei viver sem ter você
  3. Escravos
  4. Por enquanto (cover de Cássia Eller)
  5. Desconfio
  6. Tudo Vale a Pena? (com Sérgio Britto)
  7. Será que é isso o que eu necessito? (cover de Titãs, com Sérgio Britto)
  8. Dias atrás
  9. Um minuto para o fim do mundo
  10. Apostas & certezas
  11. Inevitável
  12. Tarde de outubro
  13. Ontem
  14. Atordoado (com trecho de “Rock and Roll All Nite”, do Kiss)
  15. Regina Let’s Go

Offspring tunado, apesar dos pesares

Não dava para ter combinado mais. Depois do CPM 22, subiu ao Palco Mundo o Offspring, uma das maiores bandas de pop/skate punk que também faz seu terceiro show no evento (após 2013 e 2017) e, assim como os influenciados brasileiros, também tem apenas dois integrantes de formação clássica: o vocalista Dexter Holland e o guitarrista Noodles.

A dupla americana também se fez valer de músicos técnicos e diferenciados para ocupar as vagas. O baixo que sempre foi de Greg K agora é assumido desde 2009 por Todd Morse, que excursionava com o grupo na função de guitarrista base entre 2009 e o ano da efetivação no instrumento mais grave. Já na bateria, sai Pete Parada, desligado após recusar-se a tomar vacina contra Covid-19, e entra Josh Freese, um dos percussionistas mais habilidosos da atualidade cujo currículo traz Guns N’ Roses, Nine Inch Nails, Weezer, A Perfect Circle e mais. Freese é sinalizado como colaborador de turnês e não membro oficial, assim como o guitarrista rítmico Jonah Nimoy.

Foto: Fernando Schlaepfer

Apesar do início morno com “Staring at the Sun”, só foi necessária a dobradinha com a paulada “Come Out and Play” e a melódica “Want You Bad”, trilha do filme “American Pie 2” agora reproduzida em andamento mais lento, para conquistar o público. Depois que agradeceu aos fãs por estarem presentes, Noodles anunciou que músicas do álbum mais recente, “Let the Bad Times Roll” (2020), seriam tocadas. Na sequência foram a acelerada “The Opioid Diaries”, envolvente em especial no trecho onde muda de andamento, e “Behind Your Walls”, que evidencia talvez o grande problema do Offspring: a voz de Dexter Holland, com falhas perceptíveis tanto em performance quanto em volume.

Com Dexter auxiliado por algumas faixas de voz pré-gravadas, o Offspring tocou “Hit That”, um dos pontos altos do set, sucedida pela pesada “Hammerhead”, com interlúdio de “Stay Away” (Nirvana), e “Bad Habit”. “Gotta Get Away”, por sua vez, precede a vencedora trinca “Why Don’t You Get a Job?”, “Pretty Fly (For a White Guy)” e “The Kids Aren’t Alright”, todas oriundas do famoso disco “Americana” (1999), tendo a também adorada “(Can’t Get My) Head Around You” como “intrusa” ali no meio. Em “Pretty Fly”, vale citar, nota-se o uso de sinalizador por parte de um fã em meio à plateia. Como ele conseguiu entrar na Cidade do Rock com o objeto proibido pela organização? Não sabemos.

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Um pequeno intervalo foi dado antes do bis com os também hits “You’re Gonna Go Far, Kid” e “Self Esteem”. Entre elas, houve um dos raros diálogos com o público, conduzido como habitual por Noodles. O guitarrista exalta o público nacional por trazer sua energia para o evento, o que para eles “significa o mundo”, e agradece com um “obrigado” dito em português.

Ainda que pouco diferente do show de anos atrás, o Offspring fez o necessário para convencer os presentes de que sua apresentação valeria a pena. O repertório certeiro, com músicas que seguem atemporais para uma geração, e a execução capitaneada por uma cozinha forte, fez com que até mesmo os problemas vocais de Holland fossem ignorados por fãs dispostos a cantar junto do ídolo.

  1. Staring at the Sun
  2. Come Out and Play
  3. Want You Bad
  4. The Opioid Diaries
  5. Behind Your Walls
  6. Hit That
  7. Hammerhead
  8. Bad Habit
  9. Gotta Get Away
  10. Why Don’t You Get a Job?
  11. (Can’t Get My) Head Around You
  12. Pretty Fly (for a White Guy)
  13. The Kids Aren’t Alright
  14. You’re Gonna Go Far, Kid
  15. Self Esteem

Måneskin: surpresa para quem?

Como o roteiro já era conhecido, me permiti fazer uma previsão. Comentei com amigos e até durante breve live com os colegas do Baú do Rock que o Måneskin faria o show mais surpreendente da edição 2022 do Rock in Rio. Era mais um caso de uma banda competente que chegava ao Brasil sendo mais conhecida por um hit específico (neste caso, o cover “Beggin’”, música original do The Four Seasons) e por eventuais controvérsias (aqui, o uso de visual glam por vezes associado ao sadomasoquismo) do que por sua obra consolidada.

Dá para culpar o público? Em parte, sim. O quarteto italiano formado por Damiano David (voz), Thomas Raggi (guitarra), Victoria De Angelis (baixo) e Ethan Torchio (bateria) tem surpreendido desde seu primeiro álbum, “Il ballo dela vita” (2018), e atingiu patamar diferente com o segundo trabalho, “Teatro d’ira: Vol. 1” (2021), mas uma parcela preguiçosa do público insiste em rotulá-los como “banda de um hit só” ou “artista de TikTok”. Nada como um show no Rock in Rio, para um mar de gente na Cidade do Rock e outros milhares que acompanham pela transmissão via Grupo Globo, para mostrar a que veio.

Foto: Anne Karr

Logo nas duas pauladas iniciais, “Zitti e Buoni” e “In Nome Del Padre” – ambas cantadas em italiano –, o Måneskin apresentou um elemento importante de seu hard rock sensual e resiliente: o peso. A cozinha de Victoria e Ethan formam uma camada sonora maciça para que a voz rasgada de Damiano e a guitarra de Thomas, um amálgama simplificado entre os estilos de riffs de John Frusciante (Red Hot Chili Peppers) e Tom Morello (Rage Against the Machine), deem os traços finais de sua identidade musical.

“Mammamia”, dona de forte swing que rege também outras canções do repertório, é sucedida pelo grande destaque da noite: a performance de “Beggin’”, acompanhada aos gritos e às telas de celular de muitos presentes. Dá para sentir que a famosa versão soa até deslocada em meio ao clima do repertório como um todo, tendo em vista sua pegada mais leve e quase pop. Por isso, sabiamente, o grupo emendou uma balada para não romper tanto com o clima criado: “Coraline”, normalmente pouco tocada ao vivo. Mas logo o peso e a intensidade característicos da performance dos italianos tomou conta em “Close to the Top”, onde Thomas e Victoria trabalham em conjunto para preencher tudo.

Foto: Anne Karr

Um dos momentos de destaque da noite veio na sequência: Damiano e Thomas se arriscaram numa versão voz-e-guitarra de “Love of My Life”, música do Queen que marcou o primeiro Rock in Rio. “Um pequeno milagre aconteceu quando o Queen tocou essa daqui”, disse o vocalista. A dupla saiu-se bem na homenagem que praticamente não foi ensaiada, mas talvez nem precisasse disso para conquistar um público que aos poucos se convencia da atração que estava ali.

“Supermodel”, single mais recente com um pé e meio no pop, teve boa recepção de um público ainda um pouco arredio por estar compreendendo o Måneskin somente naquela ocasião. A partir daí, houve o que quase poderia ser definido como um revezamento entre faixas autorais e covers: “For Your Love”, com interessante improvisação no miolo da música e novas doses de referências estilísticas de Thomas a Frusciante; “Womanizer”, pesada adaptação da original de Britney Spears; “Touch Me”, dona de um bem-vindo swing e com clara referência a “My Generation” (The Who); “We’re Gonna Dance on Gasoline”, recheada de graves e performada de modo ainda mais intenso; e “I Wanna Be Your Dog”, original dos Stooges que levou Thomas e Victoria para a galera na parte final.

Próximo do fim do show, o quarteto apresentou “I Wanna Be Your Slave”, talvez o grande hit do repertório autoral, em uma versão estendida que contempla até um pequeno solo de baixo. “Lividi Sui Gomiti encerrou o set com um grupo de fãs acompanhando os músicos em cima do palco. “Agora os fãs de Guns N’ Roses ficarão felizes, pois vamos tocar nossa última e cair fora”, brincou Damiano antes do número de encerramento.

Além da já mencionada competência técnica da performance, que dispensou elementos como os famosos registros pré-gravados e pirotecnia e focou na forte dinâmica musical, o quarteto surpreendeu pela entrega. Cada um deles parecia fazer o show mais importante da vida. E talvez tenha sido isso mesmo. Deram o sangue e foram recompensados por uma aprovação conquistada perante o público de forma progressiva, mas certeira.

Foto: Anne Karr
  1. Zitti e Buoni
  2. In nome del padre
  3. Mammamia
  4. Beggin’ (cover do The Four Seasons)
  5. Coraline
  6. Close to the Top
  7. Love of My Life (cover de Queen)
  8. Supermodel
  9. For Your Love
  10. Womanizer (cover de Britney Spears)
  11. Touch Me (com inserção de “My Generation”, do The Who)
  12. We’re Gonna Dance on Gasoline
  13. I Wanna Be Your Dog (cover dos Stooges)
  14. I Wanna Be Your Slave
  15. Lividi Sui Gomiti (fãs no palco)
Foto: Anne Karr

O decepcionante Guns N’ Roses

Houve quem culpasse a qualidade do som (que realmente estava abafado e grave em demasia), o fato de ser uma madrugada de dia de semana, a suposta exigência dos fãs de que seus ídolos soem como na juventude… não faltaram motivos para tentar explicar a debandada ocorrida paulatinamente durante o show do Guns N’ Roses. A atração principal da noite se apresentou pela quarta vez em uma edição brasileira do Rock in Rio (após fazer história de forma positiva ou negativa em 1991, 2001, 2011 e 2017) e é inegável sua relação especial com o evento e com o Brasil, mas desta vez a situação parece ter chegado ao limite.

Não é injusto atribuir responsabilidades principais à performance vocal do sexagenário Axl Rose, que vem apresentando problemas há pelo menos uma década e meia. Ninguém espera que ele soe como no fim da década de 1980, só que há uma discrepância muito evidente – e duradoura.

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Por outro lado, ele, que alegou em publicação posterior nas redes sociais que estava doente, não é o único “culpado”. A construção do repertório, com momentos mornos, longas jams e alguns covers que talvez não precisassem estar ali, também deixou um gosto amargo na boca do fã que tanto queria ver Rose, Slash (guitarra), Duff McKagan (baixo) e seus bons parceiros – os tecladistas Dizzy Reed e Melissa Reese, o baterista Frank Ferrer e o guitarrista Richard Fortus.

A animação em vídeo usada como introdução começou a ser rodada três minutos após o horário anunciado para o show. Depois disso, logo se ouve o som de baixo tão famoso de Duff McKagan dando o tom para a entrada de “It’s So Easy”, uma das músicas mais explosivas do repertório do Guns. Em sua voz grave, Axl se sai bem, mas ao puxar os primeiros agudos, percebe-se a sempre constatada falta de drive. Em “Mr. Brownstone”, na sequência, é Slash quem faz a diferença com sua sonoridade única na guitarra – algo notório mesmo com a massa de som embolada e abafada oferecida ao público, questão técnica com a qual o grupo lidaria em boa parte da noite.

Todo o setlist foi construído de modo a acompanhar o aquecimento da voz de Rose com canções mais graves e, após aquecida, oferecer intervalos estratégicos com jams e solos. É por isso que “Chinese Democracy” e “Slither”, cover de Velvet Revolver, foram performadas na sequência. Compreensível, ainda que o resultado dessa composição seja morno. Porém, ao interpretar a segunda citada, Axl introduz vocais agudos em partes onde não há necessidade – o que estraga a faixa e faz a dinâmica perder propósito.

Em raro momento de conversa com o público, o frontman parece dizer “Brasília” em vez de “Brasil” antes do trecho de “Rumble”, original de Link Wray, servir como introdução para “Welcome to the Jungle”. O público, enfim, reage de forma efusiva como só havia ocorrido em “It’s So Easy”. A voz de Axl oscila, mas a performance se torna mais satisfatória a partir daqui. Em “Better”, tanto ele quanto o grupo se saem bem, mas observar o solo pouco coerente de Slash em meio a uma performance irretocável de Richard Fortus faz questionar: será que não vale a pena dar um pouco mais de espaço ao músico que integra a formação há duas décadas?

A pesada “Double Talkin’ Jive”, também inserida num momento talvez cedo demais da noite, consagra a performance de Frank Ferrer, que desempenha seu trabalho de forma competente mesmo sob críticas de parte dos fãs. A melhora progressiva da voz de Axl é notada na sequência com “Live and Let Die”, cover dos Wings, e “Estranged”, onde Slash volta a brilhar – não dá para imaginar essa música sendo tocada sem ele.

O guitarrista volta a mostrar suas garras em “Rocket Queen”, faixa estendida para acomodar boas improvisações feitas por ele no talkbox. Em uma versão menos acelerada de “You Could Be Mine”, Axl Rose retorna com novo visual, mas os velhos problemas vêm com ele: os vocais em “modo Mickey Mouse” tiram toda a audácia da canção que embala a trilha sonora de “Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final”. A partir daqui, começa a ser notada uma leve debandada do público – que se intensificaria nas músicas seguintes.

No que seria sua segunda interação direta com o público, Rose apresenta Duff McKagan para assumir os vocais de “Attitude”, cover dos Misfits. Ao que tudo indica, seria tocada “I Wanna Be Your Dog”, dos Stooges, como em outras apresentações recentes. Porém, como o Måneskin performou a mesma canção mais cedo, pareceu prudente realizar a substituição.

Axl retorna ao palco para o Guns executar suas duas músicas mais recentes: “Absurd”, de pegada quase industrial, e “Hard Skool”, já em veia hard rock tradicional. Boas performances, mas a debandada do público voltou a se intensificar por aqui. A partir de então, quase todo número do set é longo por natureza ou se torna extenso a partir de improvisações. A primeira nesta configuração é “Civil War”, música que, embora idolatrada por parte dos fãs do Guns, geralmente quebra o clima quando entra no setlist.

Cada integrante é apresentado por Axl. A saber, na seguinte ordem: Richard Fortus, Duff McKagan, Dizzy “fuckin’” Reed, Frank Ferrer, Melissa Reese e… “é isso né?”, brinca o cantor antes de introduzir Slash, de longe o mais aplaudido. É a deixa para que o guitarrista tenha seu tradicional (e longo) momento solo acompanhado de uma base blues, “desaguando” em “Sweet Child O’Mine”.

Depois de tantas músicas que não geraram tanto impacto no público, trazer o grande hit do grupo naquele momento era algo mais que necessário. Surtiu efeito, já que a plateia reagiu de forma bem mais empolgada – seja pela faixa em si ou por Rose ter voltado com mais fôlego.

Pessoalmente, preciso confessar que passou até um filme pela minha cabeça enquanto ouvia “Sweet Child” ao vivo. Foi a canção que me introduziu ao rock duas décadas atrás. É por meio dela que começa a história da minha carreira profissional. Ouvi-la ao vivo durante o primeiro show do Guns N’ Roses que tenho a oportunidade de assistir – e ainda exercendo função de imprensa – foi uma experiência e tanto.

O grupo emendou em “November Rain”, outra que está entre as mais amadas pelos fãs. Apesar da execução competente de toda a banda, Frank Ferrer parece ter feito algumas alterações nas famosas viradas de bateria, o que não caiu tão bem. Por outro lado, é apenas um detalhe: quem havia aguardado até ali estava feliz pela banda enfim estar enfileirando suas músicas de maior sucesso.

Infelizmente, um balde de água fria caiu na sequência. Não que tenha sido uma surpresa, mas “Wichita Lineman”, cover de Jimmy Webb que vem surgindo regularmente nos setlists, foi performada justo no momento em que os fãs ainda presentes achavam que o show iria engrenar. A debandada de parte do público aumentou de modo que não dava para ignorar. Havia espaços vazios até em áreas próximas à grade.

O clássico cover de “Knockin’ on Heaven’s Door”, original de Bob Dylan, veio emendado numa introdução com trecho de “Only Women Bleed” (Alice Cooper). Mais uma longa versão, não tão diferente do que vinha sendo feito nas últimas décadas, mas sem a dose de peso que marcava a interpretação dos tempos áureos do grupo.

“Nightrain”, uma das melhores da noite, encerra o set regular já com “buracos” na plateia. O bis com “Patience” (introduzida por trecho de “Blackbird”, dos Beatles), “Don’t Cry” e “Paradise City” reserva também um dos momentos de destaque da ocasião. Uma pena que, com um show que não parece ter sido tão bem montado em termos de ordem das canções e tamanho das improvisações, tanta gente tenha perdido isso.

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Falar de um show do Guns N’ Roses em 2022 provoca as mesmas reações extremas que provocava no auge da banda. Uma crítica, ainda que bem fundamentada, pode ser vista como “hate” por fãs fervorosos; um elogio, embora contextualizado, é interpretado por uns e outros como “forçado”. Nem um, nem outro: o show não foi perfeito, mas também não foi uma tragédia.

Os pontos de atenção já foram mencionados ao longo do texto: montagem ruim de repertório, duração longa demais de apresentação, problemas vocais de Axl Rose (que, ok, hoje tem 60 anos, mas apresenta tais fragilidades há mais de uma década) e, no caso específico do Rock in Rio, questões técnicas relacionadas à qualidade do som. Espera-se mais de um grupo que sempre lota arenas por onde passa. A idolatria não pode ser justificada apenas pela nostalgia.

Por outro lado, não é justo reduzir tudo a isso. A banda soa muito afiada em sua parte instrumental desde os retornos de Slash e Duff McKagan. Seria interessante ter o retorno de outros músicos das fases clássicas? Sim, mas quem está ali tem dado conta do recado, desde o subestimado Richard Fortus ao criticado Frank Ferrer.

O problema é que a idolatria também não pode ser justificada também por esse aspecto e só. Falta um pouco mais. O público que saiu mais cedo da Cidade do Rock sentiu.

  1. It’s So Easy
  2. Mr. Brownstone
  3. Chinese Democracy
  4. Slither (cover de Velvet Revolver)
  5. Welcome to the Jungle
  6. Better
  7. Double Talkin’ Jive
  8. Live and Let Die (cover dos Wings)
  9. Estranged
  10. Rocket Queen
  11. You Could Be Mine
  12. Attitude (cover dos Misfits, Duff McKagan no vocal)
  13. Absurd
  14. Hard Skool
  15. Civil War (com trecho de “Machine Gun”, de Jimi Hendrix)
  16. Solo de guitarra de Slash
  17. Sweet Child o’ Mine
  18. November Rain
  19. Wichita Lineman (cover de Jimmy Webb)
  20. Knockin’ on Heaven’s Door (cover de Bob Dylan, com trecho de “Only Women Bleed”, de Alice Cooper)
  21. Nightrain
    Bis:
  22. Patience (com trecho de “Blackbird”, dos Beatles)
  23. Don’t Cry
  24. Paradise City

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Igor Miranda
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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

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