Como o clássico “(What’s the Story) Morning Glory?” retrata o auge do Oasis

Segundo álbum da banda dos irmãos Liam e Noel Gallagher eleva o patamar da grandiosa estreia “Definitely Maybe”

Oasis – ‘(What’s the Story) Morning Glory?’
Lançado em 2 de outubro de 1995

Certa vez, o guitarrista e principal compositor do Oasis, Noel Gallagher, definiu o álbum ‘(What’s the Story) Morning Glory?’ da seguinte maneira:

“É sobre sair da m*rda de Manchester (cidade inglesa onde o grupo nasceu). Enquanto ‘Definitely Maybe’ (disco de estreia, de 1994) é sobre sonhar em ser um pop star em uma banda, ‘(What’s the Story) Morning Glory?’ é sobre ser um pop star em uma banda.”

Não deixa de ser verdade. O segundo disco de estúdio do Oasis eleva o patamar da banda e traz seus músicos conscientes da posição que ocuparam com o êxito de ‘Definitely Maybe’, que, por si só, foi uma estreia avassaladora.

Há de se pensar, inclusive, que uma banda que lança canções como ‘Supersonic’, ‘Live Forever’ e ‘Rock ‘n’ Roll Star’ logo de cara, certamente, teria problemas em manter o patamar ao construir a sequência de sua trajetória. Quem imaginou que isso se aplicaria ao Oasis, errou. ‘(What’s the Story) Morning Glory?’ amplificou, em diversos sentidos, a relevância da banda dos irmãos Liam (vocalista) e Noel – dos números, palpáveis, ao legado, imaterial.

Em seu início, aliás, o Oasis era uma máquina de criatividade. Estrearam com ‘Definitely Maybe’ em agosto de 1994, e começaram a gravar ‘(What’s the Story) Morning Glory?’ pouco tempo depois, em março de 1995. Até junho, já estavam com o álbum completo, mas trataram de mostrar novidades aos fãs assim que foi possível – ‘Some Might Say’, o primeiro single, saiu em abril daquele ano e foi a primeira música da banda a chegar ao topo das paradas do Reino Unido, sua terra natal.

Foi, por outro lado, a despedida do baterista Tony McCarroll, que só tocou nesta faixa do álbum – as outras foram gravadas por Alan White. O Oasis sempre teve problemas em seus bastidores e a saída de McCarroll ocorreu, justamente, devido a brigas com Liam Gallagher.

Apesar disso, Owen Morris, que co-produziu o disco com Noel Gallagher, disse em uma entrevista em 2010 que as sessões de gravação foram “as melhores, mais fáceis e mais criativas em um sentido feliz” que ele já trabalhou. “As pessoas podem sentir quando uma música é desonesta e motivada pelas razões erradas. ‘Morning Glory’, apesar de suas imperfeições, transborda amor e felicidade”, afirmou.

Batalha do Britpop

Foto: divulgação

Então, teríamos um Oasis “paz e amor” a partir dali? Não mesmo. Nos tempos de ‘(What’s the Story) Morning Glory?’, os irmãos Gallagher dispararam contra outros alvos – como o Blur, banda que também era representante da cena britpop.

O segundo single do então novo álbum do Oasis seria ‘Roll with It’ e sairia em 14 de agosto de 1995. A gravadora Food Records, do Blur, havia anunciado que o Blur lançaria a faixa ‘Country House’, que divulgava o disco ‘The Great Escape’, uma semana depois. Porém, eles decidiram adiantar em uma semana para que os dois materiais saíssem no mesmo dia.

Nascia, ali, a Batalha do Britpop, onde Oasis e Blur disputariam vendas que, supostamente, atestariam qual era a maior / melhor banda. Os veículos de comunicação morderam a isca e divulgaram a tal batalha como se realmente valesse algo. Virou notícia nacional, até mesmo no canal televisivo BBC, que pouco cobria o segmento artístico.

No fim das contas, o single de ‘Country House’ vendeu mais que ‘Roll with It’: foram 274 mil cópias contra 216 mil, representando uma diferença de 58 de mil cópias. Não dá para dizer, porém, que o Blur seja maior que o Oasis por isso, até porque a banda dos irmãos Gallagher vendia bem mais álbuns e tocava em lugares maiores que o grupo “rival”.

Irritado com a situação, Noel Gallagher chegou a dizer, em uma entrevista, que esperava que o vocalista Damon Albarn e o baixista Alex James, ambos do Blur, “pegassem Aids e morressem”. Uma fala cretina e imbecil, claro, mas ele acabou se retratando desta vez.

Agora, sobre música…

Foto: divulgação

Competições e polêmicas à parte, ‘(What’s the Story) Morning Glory?’ mostra o Oasis adotando, de fato, uma aura mais grandiosa. As músicas deste álbum são um pouco mais “baladescas” e melódicas que as do anterior e trazem experimentos, como o uso de arranjos de cordas em faixas como ‘Don’t Look Back in Anger’ e ‘Champagne Supernova’, além da clara intenção de construir refrães grudentos para as canções.

Há quem diga, inclusive, que esse álbum adotou deliberadamente a técnica de estúdio de “brickwalling”, onde o volume do áudio de cada pista de gravação (seja vocal ou instrumental) é elevado a níveis estratosféricos, com auxílio de compressores, para padronizar a audição. Até mesmo aquele instrumento que foi tocado com sutileza passa a estar “na cara” do ouvinte.

Há, novamente, quem diga que esse disco deu início à “loudness war” (“guerra dos volumes”), na qual várias bandas utilizaram esse mesmo formato – que não traz o Oasis como pioneiro, vale lembrar – para elevar os volumes de suas gravações, comprometendo a fidelidade de seus materiais.

Ao menos em ‘(What’s the Story) Morning Glory?’, a técnica colaborou para deixar músicas como ‘Wonderwall’ e ‘Don’t Look Back in Anger’ com caras de hit, além de apresentar canções irresistíveis como ‘Hello’, ‘Some Might Say’, ‘She’s Electric’, ‘Champagne Supernova’ e por aí vai.

Mas não foi o foco nas baladas, nem foram as técnicas de estúdio que garantiram o sucesso deste álbum. Minha aposta para justificar o êxito obtido pelos caras nesse disco foi a riqueza de referências. Noel Gallagher tinha um foco bem definido quando criou essas músicas, além, é claro, de estar bem inspirado.

As faixas dialogam com diversas etapas da música britânica, que passou por momentos de timidez nas paradas entre o fim da década de 1980 e início dos anos 1990. O grunge, em especial, tomou de assalto o mainstream inteiro e fez muita gente esquecer de grandes artistas surgidos no Reino Unido.

O Oasis voltou a colocar à mesa influências que, ok, eram centradas nos Beatles, mas iam além. ‘(What’s the Story) Morning Glory?’ tem diálogos e menções que vão de Stone Roses a Mott the Hoople, de Small Faces a The Verve – esta última banda, não só contemporânea ao grupo dos irmãos Gallagher como, também, amiga deles –, de T. Rex a, em doses leves, The Smiths. Do glam rock setentista ao shoegaze oitentista, o caldeirão foi bem azeitado.

(What’s the Story) Morning Glory?, faixa a faixa

Foto: divulgação

A abertura com ‘Hello’ é, talvez, a grande ponte entre esse novo álbum e o anterior. Traz a veia garage rock apresentada em ‘Definitely Maybe’, mas, ao mesmo tempo, deixa clara a proposta em trabalhar nos grandes refrães. Não à toa, conta com uma referência explícita ao refrão de ‘Hello, Hello, I’m Back Again’, do pedófilo e condenado Gary Glitter.

‘Roll with It’ preserva essa mesma essência, mas passa a evidenciar mais os arranjos melódicos e o conceito de “grudar” na mente do ouvinte. A harmonia vocal cantada por Liam Gallagher é formidável e a construção da composição, que parece ser uma série de refrães sintetizados em 4 minutos, é de se tirar o chapéu.

O álbum começa pilhado, mas o freio de mão logo é puxado com ‘Wonderwall’, o maior hit da carreira do Oasis. Concebida inicialmente com o título ‘Wishing Stone’, a faixa traria vocais de Noel, mas Liam insistiu para cantar. Ele, claro, tinha medo de ser demitido por mostrar-se pouco útil à banda – que, sim, poderia ter feito sucesso similar com Noel no microfone principal, mas não teria um pouco dessa química irascível e, por que não, carisma dos irmãos.

A letra teria sido feita com inspiração em Meg Mathews, então namorada de Noel Gallagher – os dois se casaram pouco tempo depois. Noel já disse, aliás, que fez aqueles versos para ela. Todavia, após o divórcio, em 2001, ele mudou a explicação e, claro, culpou a imprensa por “descontextualizar suas falas”. A essa altura do campeonato, já dá para dizer que Noel é um imbecil, certo?

Infelizmente, o imbecil é genial no que diz respeito a música. Em ‘Don’t Look Back in Anger’, faixa seguinte, ele mostra isso sem grande esforço. Ele compôs essa música, uma das melhores da trajetória do Oasis, em uma terça-feira – 18 de abril de 1995, para ser mais exato. Ficou tão empolgado com a criação que a tocou, ainda sem estar finalizada, em um show da banda na Sheffield Arena, dias após, em 22 de abril.

Noel cita que fez ‘Don’t Look Back in Anger’ pensando em uma mistura entre Beatles (claro) e ‘All the Young Dudes’, do Mott the Hoople. A progressão melódica que a guia, com tonalidade em C (dó), ofereceu involuntariamente uma guia para diversas canções alternativas que emplacariam nas paradas nos anos seguintes.

‘Hey Now!’ volta a estabelecer algum tipo de elo com o álbum de estreia, ao apostar em um formato mais alternativo. Ainda assim, há o charme “morning-gloryano” por aqui, tendo em vista a melodia bem sacada. Só o andamento arrastadíssimo que nunca me desceu, mas, claro, é questão de gosto.

A vinheta ‘The Swamp Song 1’ brinca com o blues e traz Paul Weller (The Jam) na gaita, mas descamba para um dos momentos mais envolventes do álbum: ‘Some Might Say’, o primeiro single do álbum. Não é o grande hit do disco, mas poderia ter sido. A letra bem construída e a melodia típica de Noel chamam atenção – e a versão do ‘MTV Unplugged’, em que o guitarrista também assume o vocal, é ainda melhor.

‘Cast No Shadow’, última música composta para o álbum, foi criada enquanto Noel viajava de trem a caminho do estúdio. Era dedicada a Richard Ashcroft, vocalista do The Verve e amigo do Oasis em geral. Trata-se de uma balada de veia retrô, leve influência psicodélica e forte inclinação radiofônica. Poderia ter saído como single, mas já que não faltava hit nesse álbum, seguiu como uma pérola lado B.

A pegada retrô segue em ‘She’s Electric’, típica música de jukebox. A letra, que elucida o típico humor sarcástico de Noel, presta homenagem declarada ao Small Faces e ao The Kinks, assim como a melodia, já de forma discreta. Quase um alívio cômico após a densa faixa anterior.

O Oasis que conhecemos volta a operar devidamente em ‘Morning Glory’. A música traz a mesma frase que dá o título do álbum, idealizada após uma amiga de Noel, Melissa Lim, atender a uma chamada de telefone com a frase: “what’s the story, morning glory?” – a mesma dita no filme ‘Bye Bye Birdie’ (no Brasil, ‘Adeus, Amor’), de 1963. Conceitos à parte, trata-se de uma boa música, que volta a focar nos refrães grandiosos e apresenta os vocais de Liam em bom momento.

Outra vinheta, ‘The Swamp Song 2’, volta a trazer Paul Weller, mas desta vez é para ficar. Outrora na gaita, o músico do The Jam também participa, agora com backing vocals, da música que encerra o álbum. Trata-se de ‘Champagne Supernova’, o momento mais emotivo da tracklist, ainda que nem Noel Gallagher saiba exatamente o significado da letra.

O guitarrista diz que a composição tem “diferentes significados a depender de seu humor”. Pode ir de “estar preso em uma avalanche que sufoca” até… nada. Alguns versos, realmente, parecem não ter um significado palpável, mas a premissa interpretativa que a composição como um todo – incluindo melodia – oferece ao ouvinte é sensacional. Toda a banda está inspiradíssima aqui.

Aliás, é perceptível que o texto praticamente só destacou Noel Gallagher, já que ele, como habitual, compôs todas as músicas do álbum. Entretanto, o restante dos músicos, em termos de performance, não deixa a desejar.

Alan White, por exemplo, provou ser uma grande “aquisição” para o Oasis, tendo em vista sua versatilidade na bateria. Paul “Bonehead” Arthurs, o guitarrista rítmico que por vezes é citado como “tão dono da banda quanto os irmãos Gallagher”, presta bom auxílio à construção dos arranjos no instrumento. O discreto baixista Paul “Guigsy” McGuigan faz o feijão com arroz, talvez, de forma consciente, por saber que os holofotes estão nos Gallagher.

E Liam merece um parágrafo à parte. Há quem defenda que a composição oferece o “coração” de uma música, mas não dá para ignorar a interpretação que alguns músicos oferecem a determinadas canções. Se dá para imaginar o Oasis fazendo sucesso (ainda que ligeiramente menor) sem o polêmico cantor, não dá para pensar em ‘(What’s the Story) Morning Glory?’, enquanto produto final, sem o timbre dele.

Sim, ele sabia disso. Ele já considerava sair do Oasis logo após o álbum sair. “Pensei em deixar a banda nos últimos meses”, disse ele, no início de 1996, em entrevista ao ‘The Sunday Times’. “Vejo que está chegando ao fim para mim. Vejo que consigo compor músicas bem melhores, 100 vezes melhores que as de Noel. Porém, não posso fazer isso agora pois não tenho tempo. Estou muito ocupado sendo o vocalista do Oasis. Estou feliz, não digo o contrário, mas há vida após o Oasis para mim”, completou.

Sucesso amplificado

Foto: divulgação

Não dava para imaginar que um álbum como ‘(What’s the Story) Morning Glory?’ não obtivesse sucesso. No entanto, imagino que os números devem ter deixado todos surpresos.

O disco bateu o recorde de vendas de primeira semana no Reino Unido, com 345 mil cópias comercializadas em apenas 7 dias. A estratégia de lançar dois singles – um deles, ‘Some Might Say’, com tremenda antecedência – e a polêmica “Batalha do Britpop” pareciam ter surtido efeito.

O “desequilíbrio” numérico das vendas, entretanto, foi oferecido pelos Estados Unidos, onde o Oasis emplacou em definitivo. O álbum chegou ao quarto lugar das paradas da Billboard e vendeu, até hoje, quatro milhões de cópias no país – marca similar atingida no Reino Unido, em registros atuais, com 4,9 milhões de unidades.

Em terras britânicas, vale lembrar, este é disco mais vendido da década de 1990 e o quinto mais comercializado de toda a história do país.

Curiosamente, ‘(What’s the Story) Morning Glory?’ não foi bem recebido pela crítica especializada. Na época, vários jornalistas destacaram que o novo álbum não era tão bom quanto ‘Definitely Maybe’. Mais uma evidência de que a crítica nem sempre está antenada ao gosto do público – e, com o tempo, os veículos foram mudando suas opiniões.

Ao todo, o disco vendeu, em números atuais, 22 milhões de cópias. É, de longe, o trabalho de maior sucesso do Oasis. Na época, isso se refletiu em shows para arenas lotadas. Antes mesmo do álbum sair, eles tocaram para 80 mil pessoas em duas noites seguidas no Balloch Country Park, na Escócia. Uma semana depois, fizeram duas datas no Knebworth, para, na soma de ambos os dias, 250 mil pessoas. Estima-se que 2,5 milhões de pessoas procuraram por ingressos para essas performances – cerca de 4,4% de toda a população do Reino Unido na época.

A queda do Oasis foi tão vertiginosa quanto o auge. ‘Be Here Now’ (1997), o álbum seguinte, não conseguiu repetir o sucesso de ‘Morning Glory’ e ‘Definitely Maybe’. Os irmãos Gallagher já estavam embebidos em polêmicas internas e externas. Nunca deixaram de ser superstars, mesmo com a chegada dos anos 2000, mas o que era autêntico no início passou a ser um pouco caricato com o passar do tempo.

Ademais, é fato que a banda nunca mais conseguiu criar um álbum tão completo em termos artísticos e de tanto bom gosto em suas referências quanto ‘(What’s the Story) Morning Glory?’. Não é só o Oasis em seu melhor momento: é um dos grandes guias da década de 90.

Oasis – ‘(What’s the Story) Morning Glory?’

1. Hello
2. Roll with It
3. Wonderwall
4. Don’t Look Back in Anger
5. Hey Now!
6. Untitled (The Swamp Song — Excerpt 1)
7. Some Might Say
8. Cast No Shadow
9. She’s Electric
10. Morning Glory
11. Untitled (The Swamp Song — Excerpt 2)
12. Champagne Supernova

4 comentários
  1. Boa crítica.
    Como fã do Oasis, creio que foi simplista ao falar da transição ao BE HERE NOW.
    A Inglaterra respirava Oasis nesse disco e emplacou diversos hits.
    O disco seguinte sim, já mostra um oasis num patamar abaixo.

    Mas a tríade, finalizada pelo BHN, é intocável. E o auge midiático do Oasis se dá com o BHN. Mas, concordo que o 2o disco é o melhor.

    1. Obrigado, Breno. Mas não fui simplista ao falar de “Be Here Now”. A banda passou por problemas nas gravações desse álbum e, de fato, não conseguiu repetir o sucesso dos dois primeiros. Houve o auge midiático, mas não por questões musicais, e decepcionou um pouco quem esperava por um passo além em comparação ao “Morning Glory”.

  2. Oasis é uma banda muito boa, eu realmente não entendo bem porque muitos os odeiam… seria interessante uma matéria destrinchando todos os porquês do Oasis não ter a mesma importância que outras bandas de Rock, eu realmente gostaria de entender esse hate melhor.

  3. Igor, excelente analise. Muito cult, aprendi bastante.
    Vale acrescentar q a gravadora alugou por seis semanas o Rockfield Studios, onde, entre outros grandes momentos, o Queen compos e gravou Bohemia Rapsody.
    Mas o Oasis usou por uma semana, depois Noel e Liam brigaram em uma noite, quebraram raquete de criquete um no outro, e parte do estúdio, foram embora para Londres, acharam q tinham sido banidos de Rockfield, foram chamados e voltaram uma semana depois, e na 3 semana fecharam o album, ao total, 12 dias de trabalho.

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