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Como “Just Push Play” mostrou ao Aerosmith como não gravar um disco

Mudança sonora ocorreu em processo fragmentado e expôs divergências criativas entre Steven Tyler e o restante da banda, envolvendo até terceiros

Para uma banda permanecer contemporânea, é preciso saber jogar o jogo da indústria fonográfica. Trata-se de um instinto de sobrevivência — quase um darwinismo aplicado ao show business. Foi essa lógica que permitiu ao Bon Jovi atravessar o colapso do glam metal no início dos anos 1990 enquanto a maioria dos grupos associados àquela leva oitentista eram varridos para debaixo do tapete. No caso do Aerosmith, a ressurgência começou ainda na segunda metade dos anos 1980.

A aproximação com compositores externos — como Desmond Child e Jim Vallance — foi decisiva para que “Permanent Vacation” (1987) gerasse sucessos radiofônicos e recolocasse nas paradas os chamados “Toxic Twins” — o vocalista Steven Tyler e o guitarrista Joe Perry —, já longe dos excessos que lhes renderam o apelido. A dupla percebeu rapidamente o grande apelo popular das power ballads e apostou alto na fórmula. Com o endosso da gravadora, os álbuns seguintes, “Pump” (1989) e Get a Grip (1993) alcançaram a marca de sete discos de platina nos Estados Unidos — um feito reservado a poucos nomes do rock.

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Os quase quatro anos que separaram “Get a Grip” de Nine Lives (1997) cobraram seu preço. O 12º álbum de estúdio da banda vendeu cerca de 2 milhões de cópias nos EUA, desempenho aquém dos padrões estabelecidos anteriormente. Ainda assim, contou com forte campanha promocional, incluindo singles e videoclipes para faixas como “Falling in Love (Is Hard on the Knees)” e “Pink”. A turnê subsequente levou o grupo a diversos países, e houve ainda o fenômeno “I Don’t Want to Miss a Thing”, da trilha sonora do filme “Armageddon” (1998) — até hoje o único número 1 da banda na Billboard e sua música mais executada nas plataformas digitais.

Diante desse histórico, não se pode acusar o Aerosmith de acomodação ao preparar o sucessor de “Nine Lives”. Pelo contrário: a tentativa de reposicionamento foi ousada. O que poucos previram, no entanto, era que o resultado se tornaria um dos capítulos mais debatidos — e contestados — de sua discografia.

Muito cacique pra pouco índio

“Será que isso vai acabar com aquela história de ‘Ei, você não é o Mick Jagger?’”, disse Steven Tyler, sob aplausos e gargalhadas da aristocracia do rock reunida na cerimônia de 2001 do Rock and Roll Hall of Fame, realizada no Waldorf-Astoria Hotel, em Nova York. Naquele ano, o Aerosmith foi introduzido ao lado de nomes como Queen, Paul Simon (em carreira solo) e Steely Dan. Pouco antes, em janeiro, o veterano grupo havia dividido o show de intervalo do Super Bowl XXXV com Britney Spears, Mary J. Blige, Nelly e a boy band NSYNC — sinal inequívoco de que seguia relevante na virada do milênio.

Duas semanas antes da distinção que coroava uma trajetória de três décadas no Rock Hall, um novo capítulo discográfico havia sido aberto. O processo que resultou em “Just Push Play” começou na transição entre 1999 e 2000. Após ponderarem sobre a longa e controversa lista de produtores que já trabalharam com o Aerosmith, Tyler e Perry decidiram que deveriam produzir o álbum eles mesmos. A decisão visava a um maior controle artístico, mas trouxe consigo um impasse: quem assumiria a engenharia de som? Como relata o guitarrista Joe Perry em sua autobiografia “Rocks” (Simon & Schuster, 2014):

“Sugeri que Marti Frederiksen trabalhasse como nosso engenheiro. Steven, por sua vez, queria trazer Mark Hudson. Eu não fiquei muito entusiasmado, mas Steven sempre sentiu que precisava de alguém em quem pudesse confiar para apoiá-lo.”

A banda já havia trabalhado com ambos na década de 1990. Hudson coassina “Livin’ on the Edge” e os dois tiveram participação em “Nine Lives”. Entusiasmados, os dois acabaram promovidos a coprodutores. Segundo Perry, porém, houve um racha: de um lado, ele e Marti; do outro, Steven e Mark. Essa divisão evidenciou diferenças profundas de metodologia.

“Marti e eu estávamos de acordo no quesito hard rock (…) [Já] Mark era um fanático pelos Beatles. Cada composição tinha que ter como referência uma música dos Beatles. Isso podia ser enlouquecedor.”

As composições nasceram no Boneyard, estúdio que Perry construiu no porão de sua casa, num rancho nos arredores de Boston. Ali, os quatro compunham e gravavam demos. Somente depois Brad Whitford (guitarra), Tom Hamilton (baixo) e Joey Kramer (bateria) eram chamados, individualmente, para registrar suas partes. O método incomodou Perry, que passou a se sentir desconectado dos colegas. Havia também o que descreveu como “espontaneidade limitada” e “pouco espaço para variação”. Ele exemplifica:

“Tom, por exemplo, teve que aprender as partes de baixo que Marti havia criado. Eu argumentei que Tom deveria ter a liberdade de tocar o que sentisse, mas os outros três produtores queriam que fosse feito do jeito deles. Estava começando a não soar como um álbum do Aerosmith — e eu não gostei dessa sensação.”

O hit que nasceu em meio à divisão interna

Quanto mais o Aerosmith avançava nos trabalhos de “Just Push Play”, mais controladores se tornavam os supracitados outros três produtores envolvidos no processo. Isso porque tanto Marti Frederiksen quanto Mark Hudson queriam participar ativamente não apenas da produção, mas também da composição. Como ambos auxiliariam nas letras, Steven Tyler não se opôs. Mas foi o único.

A essa altura, Joe Perry e os demais integrantes — especialmente o baterista Joey Kramer, que viu o som de sua bateria ser substituído por samples em faixas como “Light Inside” — perceberam que estavam travando uma batalha perdida. O método de trabalho, cada vez mais fragmentado, reduzia a participação coletiva que marcara os momentos mais orgânicos e bem-aventurados da banda.

O ponto mais baixo da jornada, sob a ótica de Perry, ocorreu justamente quando Tyler e Frederiksen surgiram com aquela que se tornaria a principal música de trabalho do álbum — e um dos pilares do repertório do Aerosmith no século 21. O que seria um fim de semana dedicado à escrita de letras para canções já estruturadas acabou dando origem a “Jaded”. Perry, excluído do processo, não escondeu a irritação. Em “Rocks”, além de criticar Marti — que, segundo ele, “passou de trabalhar comigo a me excluir do seu trabalho com Steven” —, evocou parcerias históricas para ilustrar como acreditava que a dinâmica deveria funcionar:

“Parceiros como Lennon e McCartney ou Jagger e Richards apoiam-se mutuamente. De vez em quando, podem até compor sozinhos ou com outro compositor, mas o combinado é claro: quando se trata do material de suas bandas, a parceria é primordial. Eles são uma equipe. Steven só nos via como uma equipe quando lhe convinha.”

Por sua vez, Tyler explica no livro “O barulho na minha cabeça te incomoda?” o porquê de ter deixado de trabalhar com Perry e focado em sua colaboração com Frederiksen.

“Estou no porão de Joe, gravando, e pergunto o que faremos no fim de semana. Ele, que não se aprofunda nas letras, diz: ‘vou dar uma pausa, pois minha esposa e eu vamos ao cinema’. […] Eu não consigo parar de escrever a letra no meio de uma música, cantando um verso, depois atendendo o telefone e daí continuar a escrever. É como subir em uma corda para fora de um poço — você para no meio do caminho para atender o celular com o pé?”

A despeito do clima tenso, “Jaded” entusiasmou particularmente o vocalista. Ele declarou:

“Foi fenomenal quando encontrei aquela melodia. Não contei para a banda por dois meses. Adorei a forma como a música se desenrolava e, em algumas semanas, passou de ‘Jaded’ para ‘J-J-J-Jaded’, com o ritmo e tudo mais. Ajudou muito o fato de eu ter sido baterista antes.”

Quanto à letra, uma reflexão pessoal sobre ausência e amadurecimento precoce, Tyler afirmou que a inspiração veio de sua filha mais nova, cuja infância ele acompanhou à distância em razão de turnês incessantes e temporadas em clínicas de reabilitação.

Para o videoclipe, a banda trabalhou com o diretor Francis Lawrence. Após discutir ideias com o cineasta, chegaram a um storyboard que narrava a história de uma jovem gradualmente desconectada da realidade. O design de produção foi elaborado e extravagante, mesmo para uma banda acostumada a excessos em seus clipes. Perry resumiu a experiência dizendo: “Senti como se estivesse num filme do Fellini. No elenco estava uma então desconhecida Mila Kunis, que vinha alcançando projeção na série “That ‘70s Show”.

O clipe de “Jaded” estreou em fevereiro de 2001 na MTV, simultaneamente ao lançamento do single nas rádios. A canção alcançou o 7º lugar na Billboard Hot 100, liderou a parada Mainstream Rock Tracks e tornou-se um dos maiores sucessos comerciais da fase final da banda. O vídeo recebeu ampla rotação no canal e ajudou a consolidar a música como o principal cartão de visitas de “Just Push Play”.

Meses depois, “Jaded” venceu o Nickelodeon Teen Choice Award — entregue à banda por ninguém menos que… Britney Spears.

Modernidade, marketing e fraturas expostas

“Just Push Play” chegou às lojas em 6 de março de 2001 exibindo um Aerosmith que tentava dialogar com o novo milênio. O álbum estreou na 2ª posição da Billboard 200, impulsionado pelo sucesso de “Jaded”, e recebeu disco de platina nos Estados Unidos em menos de um mês.

Na esteira de “Jaded”, a faixa-título foi escolhida como segundo single. Concebida como um protesto contra a censura nas rádios, “Just Push Play” soa quase como uma reescrita de “Walk This Way”, substituindo três palavras monossilábicas por outras três no refrão. A canção integrou uma ação promocional conjunta com a Dodge, sendo utilizada em vídeos exibidos antes dos shows da turnê homônima. O período na estrada também coincidiu com a inauguração da Rock ‘n’ Roller Coaster — montanha-russa tematizada com a banda e trilha sonora baseada em seus clássicos —, no parque Disney’s Hollywood Studios, em Orlando.

Depois vieram “Fly Away from Here” e “Sunshine”, ambos singles também acompanhados de videoclipes — o primeiro, de estética futurista, e o segundo, à “Alice no País das Maravilhas”.

Fora do eixo dos singles, “Just Push Play” amplia ainda mais o espectro sonoro. “Trip Hoppin’” assume contornos de soul rock com a adição de metais executados pela Tower of Power. Ainda assim, Joe Perry não poupou críticas, classificando-a como “uma tentativa desesperada e ridícula de Steven de ser descolado”. “Luv Lies”, apesar da grafia, remete à estrutura de “What It Takes”, com discretas pinceladas de country music e foco em melodia acessível. Já “Avant Garden” desponta como a faixa que merece redescoberta: um Aerosmith mais reflexivo — e um tanto quanto distante do apelo radiofônico imediato.

A recepção crítica foi ambivalente. Em resenha publicada à época, o PopMatters observou: “Os fãs de ‘Sweet Emotion’ e similares certamente precisarão de assistência médica para se recuperarem depois de ouvirem o avô de todos os jovens aspirantes a roqueiros, Steven Tyler, cantar rap com sotaque jamaicano na horrenda faixa-título.” Mas depois de morder, o crítico assoprou: “Embora ‘Just Push Play’ não vá apagar as lembranças do Aerosmith da época de ‘Get Your Wings’, prova, no mínimo, que a banda ainda tem relevância, o que impede que seja comercializada como um mero ato nostálgico três décadas após sua formação.”

No fim das contas, o álbum expõe diferenças entre Tyler e Perry que remontam ao início de sua trajetória: um fortemente inclinado ao pop, o outro ancorado no rock. A intersecção entre ambos, entretanto, sempre esteve na habilidade de produzir singles eficazes — e “Just Push Play” entregou alguns, como demonstram os números. Ainda assim, olhando em retrospecto, o guitarrista aponta o disco como o ponto mais baixo da discografia da banda:

“Quando gravamos, nunca houve um momento em que todos os cinco membros estivessem no estúdio ao mesmo tempo, e a maior força do Aerosmith é tocar juntos. Foi uma experiência de aprendizado para mim: me mostrou como não fazer um disco do Aerosmith.”

Aerosmith – “Just Push Play”

  • Lançado em 6 de março de 2001 pela Columbia Records
  • Produzido por The Boneyard Boys (Steven Tyler, Joe Perry, Marti Frederiksen e Mark Hudson)

Faixas:

  1. Beyond Beautiful
  2. Just Push Play
  3. Jaded
  4. Fly Away from Here
  5. Trip Hoppin’
  6. Sunshine
  7. Under My Skin
  8. Luv Lies
  9. Outta Your Head
  10. Drop Dead Gorgeous
  11. Light Inside
  12. Avant Garden

Músicos:

  • Steven Tyler – Vocais, backing vocals, gaita, squeezebox, piano e percussão
  • Joe Perry – Guitarra, vocais em “Drop Dead Gorgeous”, backing vocals, hurdy gurdy, pedal steel e slide guitar
  • Brad Whitford – Guitarra
  • Tom Hamilton – Baixo e baixo fretless
  • Joey Kramer – Bateria

Músicos adicionais:

  • David Campbell – Arranjo de cordas em “Beyond Beautiful”, “Jaded”, “Fly Away from Here” e “Under My Skin”
  • Tony Perry – Scratches em “Just Push Play”
  • Jim Cox – Piano em “Fly Away from Here”; arranjo de cordas em “Sunshine”, “Luv Lies” e “Avant Garden”; arranjo de sopros em “Under My Skin”
  • Paul Santo – Teclado em “Fly Away from Here”; órgão em “Avant Garden”
  • Tower of Power – Sopros em “Trip Hoppin’”
  • Dan Higgins – Clarinete e saxofone em “Trip Hoppin’”
  • Paul Caruso – Programação em “Drop Dead Gorgeous”

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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