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Avenged Sevenfold desafia lógica comercial e se consagra em Allianz Parque lotado

Em maratona incluindo pausas para socorro de fãs, quinteto californiano provou por que é um dos maiores nomes do metal atual em retorno a São Paulo após mais de 10 anos

No Allianz Parque lotado, durante as mais de duas horas da intensa apresentação do Avenged Sevenfold, houve três pausas devido a fãs que passaram mal próximo do palco. O retorno dos americanos a São Paulo após mais de dez anos, no último sábado (31), teve ingressos esgotados e deixou da mesma forma o empolgado público.

Após se apresentar como headliner no Rock in Rio 2024, a sétima passagem do grupo pelo Brasil, acompanhada das bandas Mr. Bungle e A Day to Remember, estava agendada para outubro do ano passado. Problemas nas cordas vocais de M. Shadows (também conhecido por seus pais como Matthew Sanders) fizeram o grupo adiar a turnê latino-americana às vésperas do primeiro show na Argentina.

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Os meses a mais de espera talvez tenham ajudado a esgotar os ingressos do estádio paulistano, o que parece até ter se tornado algo corriqueiro.  No entanto, repetir o feito conseguido nos últimos dois anos por Linkin Park (em duas datas), Bring Me the Horizon e System of a Down (duas vezes no Allianz) não deixa de impressionar para uma banda que, em seus últimos dois discos, não facilitou a vida de seus fãs com suas idiossincrasias.

Foto: Thammy Sartori @tsartoriphotos

Contexto

Desde o lançamento de seu disco de estreia, “Sounding the Seventh Trumpet” (2001), a carreira do Avenged Sevenfold ascendeu conforme o grupo tornava sua pegada metálica mais melódica — e também aumentava a complexidade de suas composições.

Após dar uma enxugada em seu som no disco “Hail to the King” (2013), o segundo em sequência a atingir o topo da parada da Billboard, os devaneios progressivos no longo conceitual “The Stage” (2016) e as inúmeras viagens de “Life is But a Dream…” (2023) mostraram uma banda ainda desafiadora em sua sonoridade.

Foto: Thammy Sartori @tsartoriphotos

Sem apelar a estilos populares ou colaborações com artistas em voga, o Avenged Sevenfold viu sua trajetória ascendente perder fôlego em vendas e desempenho nas paradas. Os dois trabalhos mais recentes, porém, não impediram que o grupo galgasse posições nos cartazes de grandes festivais ou passasse a ocupar arenas cada vez maiores.

O desafio que o Avenged Sevenfold encontrou no Allianz Parque foi equilibrar suas novas canções às músicas mais celebradas de sua discografia. A reação do público às duas faixas do trabalho mais recente que abriram a apresentação deve ter deixado a banda satisfeita.

O show

Abusando da teatralidade, M. Shadows subiu ao palco mascarado e todo vestido de preto para “Game Over”. O público já cantava a melodia do tema principal da música quando apenas o violão era reproduzido no sistema de som e o telão ainda era enigmático. Em “Mattel”, coros acompanharam todas as mudanças de tempo e em alguns momentos encobriram a voz do cantor, já mostrando a face.

Apesar do uso de imagens nos telões que acompanharam a temática das letras do disco novo, um dos méritos do Avenged Sevenfold foi de ter uma presença de palco indiferente aos elementos visuais utilizados para entreter um estádio. Os músicos também conseguiram manter uma espontaneidade sem ficar refém dos sons pré-gravados necessários para não descaracterizar as músicas novas.

Foto: Thammy Sartori @tsartoriphotos

A frenesi desencadeada por “Afterlife”, executada na sequência, deixou claro que a reação às duas faixas novas havia sido apenas um aperitivo da forma como o público se comportaria no resto da noite. A gritaria tomou conta e a pista premium virou um pandemônio, entre rodas abertas e pessoas pulando durante uma das músicas mais populares do Avenged Sevenfold — a primeira de três extraídas do disco branco homônimo lançado em 2007.

A banda passou então a enfileirar faixas antigas de sua discografia e deixou de lado os trabalhos mais recentes. “The Stage”, disco lançado em 2016 cuja turnê não passou pelo Brasil, foi ignorado no repertório executado no Allianz Parque — ainda que a faixa-título tenha sido tocada em outras datas da turnê. Demoraria quase cinquenta minutos para iniciar uma terceira música de “Life is But a Dream…”

Havia uma sinergia entre a empolgação do público e a forma como os músicos se comportavam no palco. O baixista Johnny Christ e o guitarrista Zacky Vengeance (Jonathan Seward e Zachary Baker nas respectivas certidões de nascimento) movimentavam-se livremente pelo palco, ajudavam nos vocais de apoio e mantinham aquele contato visual que engajou ainda mais os fãs já sedentos por participar do show.

Foto: Thammy Sartori @tsartoriphotos

Synyster Gates (nome de guerra de Brian Haner Jr. na banda) cumpriu seu papel de principal coadjuvante do Avenged Sevenfold no palco, por vezes um coprotagonista. Responsável pelos principais solos de guitarra e vocais de apoio, mantinha uma postura meio blasé, mas necessária para contrapor o falante M. Shadows.

Como bom frontman, o vocalista manteve comunicação intensa e natural com o público, no tom de conversa entre amigos. Antes de “Gunslinger”, ele chegou a mencionar que a segunda faixa na noite do álbum lançado em 2007 havia saído do repertório em Curitiba para evitar músicas já tocadas no país anteriormente. A ideia foi abandonada para São Paulo e a cantoria vinda da pista mostrou o acerto da decisão.

M. Shadows já havia revelado ser São Paulo a cidade do mundo que mais escuta o Avenged Sevenfold nas plataformas de streaming ao dedicar “Hail to the King”, a faixa-título do álbum de 2013, aos brasileiros como agradecimento. Ao menos no Spotify, a campeã é Jacarta, na Indonésia, com mais do dobro de ouvintes — a capital paulista fica em segundo lugar no aplicativo em questão.

Mudança de clima

O público em geral dava sinais de desgaste quando “Nobody” retomou as canções de “Life is But a Dream…” e ocorreu a primeira pausa para socorrer uma pessoa passando mal perto do palco. O Avenged Sevenfold havia acabado de despertar rodas e coros para as melodias de “Bat Country”, faixa de “City of Evil” (2005) e sua primeira música a furar a bolha do metalcore ao liderar a parada de rock na Billboard.

Antes dela, a balada “Seize the Day” veio a pedido dos fãs e foi tocada na base do improviso, sua versão integral ficando na promessa para um retorno. Além da obrigatória homenagem ao falecido baterista Jimmy “The Rev” Sullivan, com “So Far Away”, quando as feições alegres dos músicos mudam completamente, mais taciturnos, mesmo diante da cantoria desenfreada no estádio.

A pausa para o socorro baixou um pouco os ânimos e a reação à arrastada música de abordagem meio industrial do trabalho novo foi mais contida. Serviu como um momento para retomar as forças que seriam destroçadas em “Nightmare”, faixa-título do álbum de 2010, o primeiro após a morte de Rev e que contou com Mike Portnoy (Dream Theater) na bateria. Não à toa, a segunda parada do show veio quando ela terminou de arrebatar o público na pista.

O Avenged Sevenfold ainda se apresentou por mais cinquenta minutos, mas não conseguiu repetir a mesma empolgação até o final do show. A animada “Not Ready to Die”, lançada no jogo “Call of Duty: Black Ops” (2010), passou quase despercebida. “Unholy Confessions”, beirando o thrash metal, despertou algumas rodas, mas a animação arrefeceu com um curto e desnecessário solo do baterista Brooks Wackerman.

Claramente, os problemas vocais também cobraram um preço na performance de M. Shadows, com a dificuldade para manter o fôlego e a potência durante uma apresentação longa na qual ele não parou de se movimentar no palco. No entanto, o cantor soube aproveitar os coros intensos vindos da pista e os deixou sobrepor e substituir sua voz sem prejudicar o andamento do show.

O fim

Sem aquela tradicional breve descansada nos camarins para o bis, a banda emendou três faixas com duração próxima dos dez minutos cada. “Save Me”, quarta e última faixa do álbum “Nightmare” na noite, só levantou o público mesmo em seu final dramático.

Foto: Thammy Sartori @tsartoriphotos

A terceira pausa veio depois de “Cosmic”, que fechou a quadra extraída de “Life is But a Dream…” e empolgou moderadamente numa apresentação já beirando suas duas horas. Se a primeira parada baixou os ânimos, dessa vez, com o vocalista distribuindo garrafas de água para o público, foi um último respiro para quem estava no Allianz Parque buscar o resto de energia para acompanhar a saga “A Little Piece of Heaven”.

Para um estádio extenuado ao final das variações do miniópera macabra, o Avenged Sevenfold encerrou sua longa apresentação com uma música de oito minutos, com letra sobre necrofilia, que a gravadora recusou a lançar como single. Contra todos os prognósticos, a faixa do álbum autointitulado comprovou ao vivo por que é uma de suas canções mais populares.

Foto: Thammy Sartori @tsartoriphotos

Os músicos se despediram de São Paulo ao som de “My Way”, em sua versão clássica na voz de Frank Sinatra. O clichê fez todo o sentido para um dos maiores grupos da cena pesada atual que segue forjando seu caminho sem concessões.

A saber se, num retorno que não tem motivos para demorar mais dez anos, o público seguirá acompanhando as viagens do Avenged Sevenfold o suficiente para se manter lotando estádios. Nada indicou o contrário no Allianz Parque.

*As apresentações de A Day to Remember e Mr. Bungle serão abordadas em outro texto, a ser publicado em breve.

Avenged Sevenfold — ao vivo em São Paulo

  • Local: Allianz Parque
  • Data: 31 de janeiro de 2026
  • Turnê: “Life is But a Dream…”
  • Produção: 30e

Repertório:

  1. Game Over
  2. Mattel
  3. Afterlife
  4. Chapter Four
  5. Hail to the King
  6. Gunslinger
  7. Buried Alive
  8. Seize the Day
  9. So Far Away
  10. Bat Country
  11. Nobody
  12. Nightmare
  13. Not Ready to Die
  14. Unholy Confessions (com solo de bateria no final)
  15. Save Me
  16. Cosmic
  17. A Little Piece of Heaven

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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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