Ex-ator mirim, Phil Collins ingressou no Genesis como baterista após uma passagem pela banda Flaming Youth. Em 1975, com a saída de Peter Gabriel, foi alçado ao posto de vocalista, estreando na função em “A Trick of the Tail” (1976), álbum que revitalizou a carreira do grupo após um período de incertezas.
Paralelamente ao trabalho no Genesis, Collins lançou seu primeiro álbum solo em fevereiro de 1981. Diametralmente oposto ao rock progressivo da banda, “Face Value” revelou um artista voltado a uma sonoridade mais direta, introspectiva e emocional — abordagem que renderia a Collins um hit número 2 no Reino Unido.
Na autobiografia “Ainda Estou Vivo” (BestSeller, 2018), o músico explica a motivação por trás dessa mudança:
“Nunca houve muito ‘espaço’ no som do Genesis, e isso considerando que eu reivindicava espaço (…) Esse número embrionário, construído em torno de uma boa sequência de acordes, é o exemplo perfeito do que estou procurando.”
É nesse contexto que nasce “In the Air Tonight”. Conheça a história.
A criação — e a virada de bateria — de “In the Air Tonight”
“É meu primeiro álbum solo. Pode ser meu último álbum solo. Vou dar tudo por ele, vou estar em todo ele.” Esse era o espírito de Phil Collins durante a concepção de “Face Value”.
Musicalmente, “In the Air Tonight” começou de forma desarmante: um padrão rítmico retirado quase diretamente da Roland CR-78, drum machine lançada em 1978. Collins programou o bumbo, removeu alguns sons do preset original e deixou que a batida mecânica sustentasse a música. Sobre ela, adicionou um piano Fender Rhodes e gravou os vocais de maneira quase improvisada.
Para ele, a canção ainda hesitante refletia exatamente o momento em que se encontrava como compositor, ainda em formação fora do ambiente coletivo do Genesis.
“Nunca cheguei a aprender a ler partituras. Se eu tivesse aprendido, as coisas talvez tivessem sido bem diferentes. Ao mesmo tempo, a incapacidade de ler partituras é algo absolutamente libertador para mim. Me confere um vocabulário musical mais amplo. (…) Talvez um músico com formação acadêmica não conseguisse criar uma canção tão heterodoxa quanto ‘In the Air Tonight’. Se você não conhece as regras, não sabe com que regras está rompendo.”
A lendária virada de bateria surge apenas por volta dos 3min40s, rompendo abruptamente o clima contido da faixa. Embora soe como se tivesse sido meticulosamente planejada, Collins afirma que a passagem simplesmente aconteceu em uma tomada específica — e foi essa versão que acabou entrando no disco.
Em uma música lenta, um ataque de bateria tão agressivo era algo incomum — e esse efeito foi potencializado pelo uso do gated reverb, técnica descoberta pelo engenheiro de som Hugh Padgham durante as sessões de “Intruder”, de Peter Gabriel, em 1979. Trata-se de um reverb fechado, que mescla o reverb com noise gate, que corta o sinal em sua ponta.
Ao Music Radar, Padgham elaborou sobre a origem da técnica. Confirmou, ainda, que o nascimento orgânico da virada.
“Quando você comprime o som de uma bateria em uma sala de gravação ao vivo como aquela, ele simplesmente soa muito maior e faz com que a sala também soe maior. Portanto, quando você passa de algo que soa grande para o ‘nada’, você tem essa sensação de contraste enorme. Essa é a essência do porquê esse som era tão interessante, porque ele vai do tudo ao nada em milissegundos. Um dia, enquanto Phil tocava bateria, liguei o microfone para falar com ele e ouvir o que ele estava dizendo enquanto ainda tocava. Saiu um som inacreditável. Todo mundo falou: ‘meu Deus, isso soa incrível’.”
Apesar de certa relutância, Collins acabou cedendo, mas aponta que o resultado ficou aquém do esperado — e abaixo do trabalho usado como referência:
“Você pode controlar o clima da gravação fechando cortinas pesadas e posicionando microfones nos cantos da sala. Para ‘In the Air Tonight’, pensamos: ‘vamos tentar aquele som que fizemos com o Peter…’ Mas o resultado nunca é idêntico. Dia diferente, resultado diferente.”
Ainda assim, o som seco e explosivo daquela bateria tornaria-se um clichê da década de 1980, influenciando produções e produtores de pop e rock por anos.
Phil Collins “levando a vida — ou tentando…”
Vindo da tradição do Genesis — em que letras muitas vezes surgiam após a música —, Phil Collins estabeleceu uma regra para seu álbum solo: os vocais viriam primeiro. Os versos de “In the Air Tonight” simplesmente “saíram”, sem rascunhos prévios. Em “Ainda Estou Vivo”, ele escreve:
“Noventa e nove vírgula nove por cento do que canto em ‘In the Air Tonight’ é espontâneo, como palavras extraídas de algum sonho. Sem nem refletir, logo tenho um título baseado no que cantei: ‘In the Air Tonight’.”
Só depois ele transcreveu a letra, preservando sua carga emocional: sentimentos negativos que estavam “no ar”, contaminando não apenas o casal, mas todo o entorno.
A gênese da faixa — e de “Face Value” como um todo — está diretamente ligada ao fim do casamento de Collins com Andrea Bertorelli, em 1980. Em crise emocional, o músico se afastou temporariamente do Genesis e passou a compor material profundamente pessoal, que funcionava como mensagens direcionadas à ex-esposa:
“Quando Andy ouvir essas palavras, vai perceber quão fodidamente magoado estou, o quanto a amo e o quanto sinto saudade dos meus filhos.”
Um verso específico alimentou inúmeras lendas urbanas: “If you told me you were drowning, I would not lend a hand” (“Se você tivesse me dito que estava se afogando, eu não teria estendido a mão”).
Fake news sugerem que Collins teria testemunhado um afogamento — e sido incapaz de ajudar a vítima — ou escrito a música inspirado por um caso de estupro. O músico sempre negou essas versões. “Esses versos cheiram a ressentimento e frustração — e era exatamente isso que estava acontecendo”, diz.
Para Collins, é uma recusa emocional, não literal. Questionado sobre o significado da canção, ele resume: “Significa que estou levando a vida. Ou tentando…”
In the Air Every Night
Quando o álbum “Face Value” chegou às lojas, Phil Collins já havia seguido em frente e iniciado um novo relacionamento. Mas houve quem lhe cobrasse explicações.
Em “Ainda Estou Vivo”, ele afirma não se lembrar de não ter apresentado “In the Air Tonight” ao Genesis. Segundo ele, à época não a via como nada especial. Com base nessa lembrança, Tony Banks e Mike Rutherford acabaram não selecionando a música para “Duke” (1980).
“Tony insiste que nunca ouviu essa música — caso contrário, teria tentado incluí-la em ‘Duke’. Ou seja: nunca vamos ter certeza de nada.”
Inicialmente um sucesso moderado nos Estados Unidos, “In the Air Tonight” ganhou nova dimensão ao abrir o episódio piloto da série “Miami Vice”, em 1984, ampliando ainda mais o alcance da carreira solo de Collins. Desde então, a faixa reapareceu em filmes, séries, comerciais, videogames e até em letras de outros artistas — como “Stan”, de Eminem.
E quanto à famosa virada de bateria? Phil Collins comenta que as pessoas lhe perguntam sobre ela o tempo todo: “Um marco de percussão em produção. Imagine focas esganiçadas da próxima vez que estiver em um zoológico. É muito maneiro!”
O próprio Collins lembra que o som foi eternizado até em um comercial de chocolate, com um gorila tocando bateria. Quer prova maior de que aqueles poucos segundos transcenderam o mero dado sonoro e reivindicaram para si o status de marco da cultura pop?
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