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No Rio, Dirty Honey e Jayler apresentam o passado como combustível do futuro

Bandas da nova geração transformam abertura do Lynyrd Skynyrd em vitrine de duas leituras distintas — e eficazes — do classic rock

“Prevejo o futuro do rock e estou com ciúmes.” Quando Axl Rose cunhou essa frase, nos anos 1990, o horizonte apontava para nomes como Nine Inch Nails e The Prodigy — e para uma ruptura estética que acabaria, anos depois, influenciando o próprio Guns N’ Roses em “Chinese Democracy” (2008). Havia ali a expectativa de transformação. Três décadas depois, o cenário é outro: o “futuro” do rock, ao menos em sua face mais visível, parece menos interessado em reinventar a roda do que em polir seus raios.

Dirty Honey – Foto: Thaís Barros @speccula

Nesse museu de grandes novidades, duas peças chamaram atenção na abertura para o Lynyrd Skynyrd no Rio de Janeiro. Dirty Honey e Jayler representam vertentes distintas de uma mesma lógica: revisitar o passado como linguagem principal, ainda que com graus diferentes de fidelidade e ambição. De um lado, uma banda californiana formada em 2017, com discografia já consolidada entre EPs, álbum de estúdio e registro ao vivo. Do outro, um quarteto britânico surgido em 2022, ainda às portas de seu primeiro full-length.

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Jayler – Foto: Thaís Barros @speccula

Contextualização feita — e necessária para evitar comparações simplistas —, o fato é que ambos entregaram apresentações consistentes, cada qual sustentada por atributos próprios.

Jayler: entre a reverência e a dependência

Se tem focinho de Led Zeppelin, rabo de Led Zeppelin e orelha de Led Zeppelin… não, não é mais o Greta Van Fleet. Desde agosto de 2025, o Jayler reivindicou para si o posto de “Led da nova geração”, extrapolando o campo sonoro e mergulhando também na estética. O figurino, os trejeitos e até a mise-en-scène remetem diretamente ao imaginário de Jimmy Page e Robert Plant — com direito a ecos visuais de “The Song Remains the Same”, filme-concerto que ajudou a cristalizar o mito setentista da banda britânica.

À frente, o vocalista James Bartholomew encarna essa herança com desenvoltura. Seu gestual justifica o apelido “Robert Replanted” (Replantado), mas há uma nuance importante: aqui, o frontman também assume a guitarra, adicionando uma camada que o Zeppelin original não explorava em sua configuração clássica. E não se trata de mero adorno. Seus solos são incisivos, por vezes mais agressivos do que a abordagem do guitarrista Tyler Arrowsmith, e dialogam com uma tradição que vai além do blues rock ortodoxo. Em cena, Bartholomew ainda encontra espaço para espacates à David Lee Roth e movimentos sinuosos que remetem a Mick Jagger — um caldeirão de referências absorvidas com evidente entusiasmo.

Foto: Thaís Barros @speccula

A base instrumental sustenta a proposta com competência. O baixista Ricky Hodgkiss, de cabelos tão encaracolados quanto o cabo de seu instrumento, não é expansivo em palco, mas cumpre papel fundamental ao ancorar os graves com a solidez que os poderosos braços de Atlas sustentam os céus da Terra. Já o baterista Ed Evans, posicionado atrás de um kit Ludwig que remete imediatamente a John Bonham, ainda busca equilibrar peso e refinamento. A influência do lendário baterista é mais evidente no visual do que na dinâmica — por ora —, mas há indícios de evolução técnica à medida que o repertório exigir maior sofisticação.

Musicalmente, o Jayler transita por uma linha tênue entre homenagem e reprodução. O riff de “Lovemaker” guarda semelhanças evidentes com “Moby Dick”, do álbum “Led Zeppelin II” (1969), enquanto “Riverboat Queen” soa como uma extensão tardia de “The Ocean”, de “Houses of the Holy” (1972). Ainda assim, quando se afastam deliberadamente da matriz, os resultados são promissores. “The Rinsk”, construída sobre uma narrativa de aventura viking, evita o caminho óbvio de “Immigrant Song” e surge como a faixa mais autoral do set — e, paradoxalmente, uma das mais convincentes.

Foto: Thaís Barros @speccula

A mensagem lírica — centrada em temas como ecologia e espírito comunitário — reforça a tentativa de resgatar não apenas o som, mas também o ethos do rock setentista. Em um cenário contemporâneo frequentemente fragmentado, há ali uma busca por unidade que dialoga com o imaginário “paz e amor” de décadas passadas. Se a execução ainda oscila entre reverência e dependência, o potencial é inegável. Fica a sensação de que, com tempo e maturação, o Jayler pode transformar influência em identidade.

Foto: Thaís Barros @speccula

Repertório:

  1. Down Below
  2. No Woman
  3. Riverboat Queen
  4. Lovemaker
  5. Over the Mountain
  6. The Rinsk

Dirty Honey: a energia da tradição americana

Se o Jayler mira o Zeppelin como farol, o Dirty Honey se ancora em outra linhagem: a do hard rock americano dos anos 1970 e 1980. Aerosmith pós-”Done with Mirrors” (1985), Guns N’ Roses da era “Appetite for Destruction” (1987) e até traços de ZZ Top formam o alicerce de uma proposta que privilegia groove, atitude e comunicação direta com o público.

A entrada de Marc LaBelle já estabelece o tom. Vestindo uma calça de couro justa a ponto de remeter à icônica — e constrangedora — cena de Ross em “Friends”, o vocalista surge como um personagem saído da Sunset Strip. O visual, reforçado por detalhes dourados, é quase caricatural, mas encontra respaldo em uma performance vocal rasgada, próxima da visceralidade de Steven Tyler ou Axl Rose em seus momentos mais crus.

Foto: Thaís Barros @speccula

O restante da banda acompanha com precisão estética e sonora. O guitarrista John Notto desfila riffs em sua Gibson Les Paul com naturalidade, enquanto o baterista Jason Ganberg adiciona dinâmica ao set com viradas firmes e presença cênica — incluindo o tradicional rodopio de baquetas. O baixista Justin Smolian, discreto, completa a engrenagem com eficiência.

Mesmo com a casa ainda em processo de enchimento, o público que chegou cedo foi recompensado com um repertório sólido. “California Dreamin’” — aqui, sem qualquer relação com o clássico do The Mamas and the Papas — funciona como cartão de visitas, enquanto “Heartbreaker” surge dedicada às mulheres presentes, em número reduzido e com estética que evocava uma espécie de festa de rodeio. Em “Don’t Put Out the Fire”, LaBelle desce ao público e canta parte da música em pé sobre uma cadeira.

Há também espaço para referências menos óbvias. “Another Last Time” carrega um DNA que remete a “Yellow Ledbetter”, do Pearl Jam, mostrando que a banda não se limita a um único recorte temporal. O encerramento com “When I’m Gone” e “Rolling 7s” consolida a impressão deixada ao longo da apresentação: o Dirty Honey domina sua linguagem e sabe exatamente como aplicá-la em palco. Não há aqui a tensão entre identidade e referência vista no Jayler; trata-se, antes, de uma apropriação consciente e segura de uma tradição.

Foto: Thaís Barros @speccula

Ao fim, as duas apresentações convergem em um ponto essencial. Se o futuro do rock passa, hoje, por revisitar o passado, cabe às novas gerações decidir o que fazer com esse legado. Jayler e Dirty Honey oferecem respostas diferentes — uma ainda em construção, outra já consolidada —, mas igualmente válidas. E, se depender do que se viu no palco, o gênero pode até olhar para trás, mas segue encontrando formas de seguir em frente.

Foto: Thaís Barros @speccula

Repertório:

  1. Won’t Take Me Alive
  2. California Dreamin’
  3. Heartbreaker
  4. The Wire
  5. Don’t Put Out the Fire
  6. Another Last Time
  7. Lights Out
  8. When I’m Gone
  9. Rolling 7s

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Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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