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Dark Tranquillity celebra legado sem ignorar o presente em São Paulo

Carioca Club recebeu bom público em show no qual grupo sueco homenageou falecido mentor e assumiu seu papel como embaixador do death metal de Gotemburgo

“Sem ele, não haveria Dark Tranquillity”. Assim, Mikael Stanne se referiu a Tomas Lindberg, vocalista falecido em setembro de 2025, antes de iniciar um cover para o clássico “Blinded by Fear”. A faixa do At the Gates, principal banda de “Tompa” — como era conhecido o icônico líder da cena de death metal de Gotemburgo —, fechou a apresentação que misturou nostalgia e evolução musical em um Carioca Club razoavelmente cheio para um domingo de janeiro.

Com uma excursão pela América Latina emendada à participação no cruzeiro temático 70,000 Tons of Metal, agendado para o zarpar de um porto na Flórida, nos Estados Unidos, no final de janeiro, o Dark Tranquillity fez parada única no Brasil dando sequência à sua turnê “The Character Gallery”.

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Foto: Gabriel Gonçalves @dgfotografia.show

O repertório dividiu-se em três partes ao longo de 1h50min: nas duas primeiras, foram executadas faixas selecionadas dos discos “The Gallery” (1995) e “Character” (2005), respectivamente. Depois, o grupo mesclou músicas de seu mais recente álbum, “Endtime Signals” (2024), com outras de sua discografia. 

A pista da casa na Zona Oeste paulistana não estava lotada para a quinta visita do Dark Tranquillity ao Brasil, mas teve dois terços de seu espaço preenchido, sem maiores aglomerações. Depois de duas apresentações no Clash Club — local de capacidade bem inferior —, a boa repercussão do show no Summer Breeze Brasil 2024 trouxe o grupo de volta ao cenário de sua estreia em São Paulo em 2010, quando foi feita até promoção de dia dos namorados para angariar mais público.

Foto: Gabriel Gonçalves @dgfotografia.show

A qualidade da equalização, no entanto, deixou a desejar. Com seis músicos no palco e apenas o som de uma das duas guitarras, executadas por Johan Reinholdz e Peter Lyse Karmark, em cada lado das caixas dos PAs laterais do Carioca Club, pontos diversos da pista praticamente ouviram shows diferentes.

A parte do show dedicada a “The Gallery” foi a mais prejudicada. O segundo disco do Dark Tranquillity, que marcou a estreia de Stanne — único remanescente daquela formação no palco na atual formação — na banda, foi um marco do death metal de Gotemburgo. Lançado no mesmo ano dos seminais “Slaughter of the Soul”, do At the Gates, e “The Jester Race”, do In Flames, não teve tanta repercussão na época como os parceiros de cidade. À exceção de “Punish My Heaven”, faixa que abriu a apresentação, tem recebido pouca atenção do grupo em seus repertórios nos últimos vinte e cinco anos.

Nitidamente feliz de ver o bom público no Carioca Club, Stanne até chegou a abordar o assunto durante o show, sem saber explicar ao certo por que certas músicas do disco nunca haviam sido executadas ao vivo. Talvez fosse pela dificuldade de serem reproduzidas, chegou a cogitar. As estruturas labirínticas e a virtuose desenfreada nos arranjos de guitarra, no entanto, demoraram a ficar nítidas durante o princípio da noite em São Paulo.

A recepção do público às suas cinco faixas foi contemplativa, com maior participação de palmas e ameaças de coro em “Lethe”, a outra música mais lembrada em shows contemporâneos do Dark Tranquillity.

Foto: Gabriel Gonçalves @dgfotografia.show

Aos fãs da velha guarda, a meia hora dedicada a “The Gallery” poderia até ter sido estendida para a execução do álbum na íntegra. A reação do público, no entanto, deixou evidente como as composições mais estruturadas de “Character”, álbum lançado dez anos depois, tiveram um apelo mais fácil, principalmente em seus refrãos.

Com as melodias mais proeminentes vindas do teclado de Martin Brändström, parceiro mais longevo de Stanne na atual formação, a qualidade de som ficou satisfatória. Ainda assim, o ritmo mais marcado do baterista Joakim Strandberg-Nilsson e do baixista-tampão Jonathan Thorpenberg, substituindo Christian Jansson na atual turnê, não chegou a gerar frenesi na pista, fosse seguindo os riffs mais rápidos, ou em refrãos mais saltitantes de faixas “The New Build” e “One Thought”.

Foto: Gabriel Gonçalves @dgfotografia.show

Não que o público tenha chegado perto de ser apático, como deixou claro Stanne ao anunciar “Lost to Apathy”. A última das seis faixas dedicadas ao álbum de 2005 foi tocada após a banda ser ovacionada ao final dos solos lentos e mais melódicos de “My Negation”.

Encerradas as partes dedicadas aos discos específicos, uma introdução pré-gravada veio acompanhada de um vídeo no telão. Antes mal chamando atenção em meio ao jogo de luzes, agora o fundo do palco exibia temas dedicados às músicas executadas.

A parte final do show revezou a execução de três músicas do álbum mais recente, “Endtime Signals”, com faixas mais antigas, e mostrou que ainda não deu tempo para as novas canções caírem no gosto do público.

Foto: Gabriel Gonçalves @dgfotografia.show

Após “The Last Imagination” abrir a parte final do set, a melancólica “Therein” despertou, com larga vantagem, a maior reação da noite, já desde os coros acompanhando seu riff inicial. Durante o refrão, palavras-chave foram reproduzidas no telão, cantado de voz limpa por Stanne e acompanhado pelo público, sozinho, na última repetição da única canção de “Projector” (1999).

O mesmo aconteceu na dançante “Atoma”, faixa-título do álbum de 2016, e “Terminus (Where Death is Most Alive)”, música de “Fiction” (2007) com a qual a banda deixou o palco do Carioca Club para uma breve pausa antes do bis.

O retorno veio com o refrão cativante de “Phantom Days”, de “Moment” (2020), e o apelo gótico irresistível de “Misery’s Crown”, outra do trabalho de 2007. Os coros e a movimentação do público na pista indicavam um final digno para um show que mostrou a trajetória musical do Dark Tranquillity, até Stanne fazer seu discurso em homenagem a Tomas Lindberg e mudar o ânimo do final da noite.

Foto: Gabriel Gonçalves @dgfotografia.show

Para acompanhar o cover de “Blinded by Fear”, recebido com entusiasmo mas sem a loucura esperada pela velocidade dos riffs —, o telão exibiu imagens do falecido Tompa, que permaneceram após seu final. Os músicos se despediram enquanto o sistema de som executava instrumental “The Flames of the End”, do mesmo clássico disco de 1995 lançado pelo At the Gates.

Após um show próprio para um público empolgado num lugar onde, trinta anos atrás, ele jamais imaginou se apresentar, Mikael Stanne, o último a deixar o palco, estava visivelmente emocionado.

Foto: Gabriel Gonçalves @dgfotografia.show

Apesar das mudanças na sonoridade do Dark Tranquillity desde “The Gallery”, como ficou evidenciado no repertório apresentado no Carioca Club, o som do grupo chegou a incorporar novos elementos, mas nunca deixou de lado riffs e melodias que deram fama ao death metal feito em Gotemburgo — diferente do que fez o In Flames ao tentar ganhar o mercado norte-americano na virada do século.

Fechar o show com um clássico do At the Gates não significou apenas uma justa homenagem ao mentor e amigo, mas um reconhecimento de que o Dark Tranquillity, hoje, é o principal responsável por carregar o legado dessa cena.

Foto: Gabriel Gonçalves @dgfotografia.show

Dark Tranquillity — ao vivo em São Paulo

  • Data: 18 de janeiro de 2026
  • Local: Carioca Club
  • Turnê: “The Character Gallery”
  • Produção: Overload

Repertório:

Set do The Gallery:

  1. Punish My Heaven
  2. Edenspring
  3. Lethe
  4. The Emptiness From Which I Fed
  5. The Dividing Line
    Set do Character:
  6. The New Build
  7. One Thought
  8. The Endless Feed
  9. Through Smudged Lenses
  10. My Negation
  11. Lost to Apathy
    Parte final:
  12. The Last Imagination
  13. ThereIn
  14. Unforgivable
  15. Atoma
  16. Not Nothing
  17. Terminus (Where Death Is Most Alive)
    Bis:
  18. Phantom Days
  19. Misery’s Crown
  20. Blinded by Fear (Cover do At the Gates)
    Outro: The Flames of the End (At the Gates)
Foto: Gabriel Gonçalves @dgfotografia.show

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Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

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