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Grey Daze faz jus ao legado de Chester Bennington no álbum Amends, ouça



Em 20 de julho de 2017, Chester Bennington faleceu. O cantor de 41 anos, membro do Linkin Park, tirou a própria vida. Deixou família, amigos, fãs e projetos para trás – um deles, o Grey Daze, banda que tinha na adolescência e planejava retomar.

Além de Chester, o grupo era formado por Sean Dowdell na bateria, Mace Beyers no baixo e Cristin Davis na guitarra. Os músicos tocaram juntos de 1993 a 1998 e gravaram dois álbuns, “Wake Me” (1994) e “…No Sun Today” (1997), que são itens raros, por estarem fora de catálogo desde o início do Linkin Park.

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O cantor, aliás, nunca perdeu contato com os colegas – especialmente de Dowdell, com quem montou um estúdio de tatuagem que existe até hoje. A camaradagem fez com que, meses antes de sua morte, Chester Bennington sugerisse ao amigo que o Grey Daze fosse remontado.

A morte de Chester impediu os planos de reunião, mas os remanescentes do Grey Daze o homenagearam, mesmo assim, com ‘Amends’. O álbum traz regravações de músicas antigas da banda, preservando os incríveis vocais de Bennington, mas oferecendo uma nova roupagem ao trabalho instrumental.

Dá para sentir que o material trazia forte influência do grunge, com doses cavalares de melancolia nas letras e melodias. Mesmo naqueles tempos, eles se definiam como uma banda grunge/alternativa. O visual também entregava a inspiração.

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Todavia, além da regravação dos instrumentais ter proporcionado um clima menos datado, havia algo de diferente no vocal de Chester Bennington que impedia qualquer rótulo. No Linkin Park, descobrimos que ele era, de longe, um dos cantores mais talentosos e técnicos do chamado nu metal. Muitas dessas credenciais já se mostravam no Grey Daze, não só pela técnica, como, também, pela forma de impostar sua voz e pelo feeling que externava ao interpretar as canções.

O álbum abre com ‘Sickness’ que não convence nem mesmo pela participação de Page Hamilton (Helmet), mas o ouvinte mais paciente encontra em ‘Sometimes’, faixa seguinte, um dos momentos mais belos de todo o álbum e dona de um lindo videoclipe. ‘What’s in the Eye’, outro destaque, dialoga bem com a estética post-grunge sem ficar refém de todos aqueles clichês, enquanto ‘The Syndrome’ mostra o diferencial obtido com a regravação do instrumental: batidas eletrônicas, sintetizadores sutis e arranjos mais modernos de guitarra deram outra roupagem à canção.

De início ainda mais melancólico, ‘In Time’ mostra Bennington em sua plenitude vocal: vai dos falsetes delicados aos gritos desesperados em um estalo de dedos. Aqui, as batidas sintetizadas estão ainda mais presentes. ‘Just Like Heroin’, de construção mais simplista, volta a apostar no canto para oferecer algo a mais. A agitada ‘B12’, em contrapartida, surpreende do início ao fim. A canção traz participações de Head e Munky, guitarristas do Korn, e tem êxito ao fugir um pouco dos padrões do álbum.

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‘Soul Song’, que soa mais como balada, coloca o pé no freio e se apoia em uma estética bem melódica, novamente com os vocais de Chester na linha de frente – e com direito a backing vocals do filho dele, Jaime, que também dirigiu o respectivo clipe. Esse formato “baladesco” se repete em ‘Morei Sky’, que só tem momentos mais pesados mais ao fim, além de um arranjo de guitarra mais destacado.

De riffs mais pesados, ‘She Shines’ encaminha o álbum para seus momentos finais, enquanto ‘Shouting Out’, responsável pelo encerramento, resgata as batidas sintetizadas (e até aumenta o grave) em uma construção que chega a lembrar o álbum final da carreira de Chester: o polêmico ‘One More Light’, do Linkin Park. Duas faixas bem distintas concluem o álbum.

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Em uma avaliação mais fria e criteriosa, ‘Amends’, enquanto álbum, apresenta pequenos problemas que não comprometem a audição, mas merecem ser citados. Por trazer músicos que não chegaram a seguir carreira profissional no calibre de Chester, dá para sentir que as contribuições ao regravar o instrumental poderiam ser maiores. Algumas canções pediam solos de guitarra, enquanto outras precisavam de uma cozinha mais intensa. Como isso não ocorre, o formato “verso melódico / refrão agressivo”, por vezes, soa desgastado. O uso das batidas sintetizadas parece um recurso “pronto” para tirar essa sensação de “instrumental opaco”, mas nem sempre funciona.

Porém, dois pontos precisam ser considerados. O primeiro, e mais óbvio, é que os músicos do Grey Daze precisavam trabalhar em cima dos vocais já gravados. Dava para ter feito algumas coisas de forma diferente, talvez mais elaborada, mas eles não poderiam alterar tanto a estrutura das canções. O segundo, e mais passional, é que ‘Amends’ foi feito como uma homenagem a Chester Bennington. É natural que a voz dele esteja na linha de frente e que o instrumental não tenha sido trabalhado para se equiparar ao trabalho deixado pelo cantor.

A audição de ‘Amends’ deve ser feita tendo em mente o contexto em que ele foi produzido. É uma justa, coerente e emotiva homenagem a Chester, feita por amigos que não tiveram a carreira e a experiência dele. Ciente disso, o álbum ganha belos contornos e soa acima da média.


01. Sickness
02. Sometimes
03. What’s In The Eye
04. The Syndrome
05. In Time
06. Just Like Heroine
07. B12
08. Soul Song
09. Morei Sky
10. She Shines
11. Shouting Out


Igor Miranda
Jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital pela Universidade Estácio de Sá. Escreve sobre música desde 2007. Atualmente, é redator do Whiplash.Net, o maior site sobre rock e heavy metal do Brasil. Também é editor-chefe da revista e site Guitarload, para guitarristas, e redator do site Revista Cifras, a página editorial do portal Cifras.

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