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Como foi o show de transição do Silverchair no Rock in Rio 2001

Na noite mais cheia do festival, trio australiano apresentou um show coeso e simbólico, refletindo o fim de uma era e o início de uma nova fase artística

Quatro anos após sua estreia no Brasil como atração adolescente do festival Close Up Planet, o Silverchair retornou ao país em um contexto completamente diferente. Em janeiro de 2001, Daniel Johns, Ben Gillies e Chris Joannou já não eram mais vistos como “garotos-prodígio do grunge”, mas como uma das bandas mais bem-sucedidas da história do rock australiano, com três álbuns lançados, milhões de cópias vendidas e reconhecimento internacional consolidado.

Escalado para a última e mais cheia noite do Rock in Rio 2001, o trio teve a responsabilidade de abrir o palco principal antes do Red Hot Chili Peppers. Mesmo após mais de um ano afastado dos shows — em um período oficialmente tratado como “férias” pela banda —, o Silverchair encarou o compromisso como um evento especial. Não por acaso, seria o único do grupo em todo o ano de 2001, antecedendo o retorno oficial apenas no Big Day Out, em janeiro de 2002.

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Divulgando “Neon Ballroom” (1999), álbum que já indicava um afastamento do grunge juvenil em direção a uma abordagem mais sofisticada, a apresentação no Rio ilustrou a encruzilhada artística vivida pela banda naquele momento.

Um Silverchair mais maduro no palco

O show começou com “Israel’s Son”, abrindo espaço para um repertório equilibrado entre os três discos lançados até então. Do debut “Frogstomp” (1995), surgiram ainda “Pure Massacre” e “Faultline”, mas nada de “Tomorrow”, a despeito dos insistentes pedidos do público. A escolha deixou claro que a banda já não se via refém do rótulo grunge que a consagrou.

De “Freak Show” (1997) e “Neon Ballroom” vieram momentos de maior impacto emocional, como “Emotion Sickness”, “Ana’s Song (Open Fire)” (faixa na qual Johns revelou sua batalha com a anorexia) e “Miss You Love”, esta última entoada em coro por um público que conhecia bem a música — impulsionada, à época, por sua presença na trilha sonora de Malhação.

Inéditas, transição estética e reação do público

Mesmo ainda não lançadas oficialmente, duas músicas do futuro “Diorama” (2002) apareceram no set: “One Way Mule”, dedicada a Ronaldo Fenômeno, e o lado B “Hollywood”. As faixas reforçavam a guinada estética menos abrasiva que o Silverchair adotaria em definitivo nos anos seguintes.

Daniel Johns dividiu opiniões. Para alguns, sua postura em cena soou fria ou excessivamente profissional; para outros, tratava-se de uma presença segura, confiante e condizente com o amadurecimento da banda. Vestindo um paletó brilhante, o vocalista outrora rotulado “o novo Kurt Cobain” mostrou domínio vocal e “o melhor som de guitarra no Rock in Rio”, nas palavras do jornalista Marcos Bragatto, ainda que interagisse com o público de forma intermitente.

A crítica especializada, no entanto, foi majoritariamente positiva, destacando o entrosamento do trio, a força do repertório e a capacidade de sustentar um show pesado mesmo em meio a um festival de grandes proporções. “Teve muita gente que ficou irritada com a escalação da banda e depois mudou de ideia…”, escreveu Pedro Fraga Bomfim em resenha para o Whiplash.Net.

Um “elogio fúnebre” para o grunge?

Apesar de, no meio da plateia, como recorda Luiz Felipe Carneiro em “Rock in Rio: A História” (Globo Livros, 2022), ter sido exibida uma faixa com os dizeres “grunge not dead” (“o grunge não morreu”), o distanciamento histórico levou parte do público e da crítica a enxergar o show do Silverchair no Rock in Rio 2001 como algo maior do que uma simples apresentação de festival. Para alguns, tratou-se quase de um “elogio fúnebre” ao gênero que dominou os anos 1990 e que encontrava ali um de seus últimos representantes de alcance global.

Pouco depois, problemas de saúde de Daniel Johns — incluindo artrite crônica — colocariam a banda novamente em pausa, adiando compromissos e reforçando o caráter singular e de despedida daquela noite na capital fluminense.

Setlist — Silverchair no Rock in Rio 2001

  1. Israel’s Son
  2. Paint Pastel Princess
  3. Slave
  4. Pure Massacre
  5. Emotion Sickness
  6. Hollywood
  7. Ana’s Song (Open Fire)
  8. Miss You Love
  9. One Way Mule
  10. The Door
  11. Faultline
  12. Anthem for the Year 2000
  13. Freak

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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